Pacote de Guedes só tem 18% de dinheiro novo e efeito é limitado, diz XP

Dos R$ 147,3 bilhões anunciados pelo governo, apenas R$ 31,8 bilhões correspondem a recursos novos. Restante são valores rearranjados no orçamento

Do CNN Brasil Business, em São Paulo
17 de março de 2020 às 17:22 | Atualizado 17 de março de 2020 às 17:24
 
Foto: Adriano Machado/Reuters

Menos de 20% dos R$ 174,3 bilhões em estímulos à economia anunciados pelo governo representam recursos novos e, por isso, o pacote terá efeito limitado contra os impactos do coronavírus, apesar de apontar para a direção correta. Essa é a avaliação do economista sênior da XP Marcos Ross.

O plano, anunciado nesta segunda-feira pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, foi dividido em três frentes de atuação: 

1. R$ 83,4 bilhões em auxílio à população mais vulnerável

R$ 23 bilhões em antecipação da primeira parcela do 13º de aposentados e pensionistas do INSS para abril (que já haviam sido anunciados);

R$ 23 bilhões em antecipação da segunda parcela para maio;

até R$ 21,5 bilhões em valores não sacados do PIS/Pasep que serão transferidos ao FGTS para permitir novos saques;

R$ 12,8 bilhões em antecipação do abono salarial para junho;

até R$ 3,1 bilhões em reforço ao Bolsa Família, para permitir inclusão de 1 milhão de novos beneficiários.

2. R$ 59,4 bilhões para a manutenção de empregos

R$ 30 bilhões com o adiamento do prazo de pagamento do FGTS por três meses;

R$ 22,2 bilhões com o adiamento da parte da União no Simples Nacional por três meses;

R$ 2,2 bilhões com a redução das contribuições do Sistema S por três meses;

R$ 5 bilhões extras para o Proger, programa de linhas de crédito com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para micro e pequenas empresas

3. R$ 4,5 bilhões em recursos do fundo do DPVAT transferidos para o SUS para reforçar o combate à pandemia

De todas essas cifras, porém, apenas as referentes ao PIS/Pasep (R$ 21,5 bilhões), ao Bolsa Família (R$ 3,1 bilhões), a redução na contribuição do Sistema S (R$ 2,2 bilhões) e o crédito extra do Proger (5 bilhões) correspondem a novos recursos, somando R$ 31,8 bilhões, o que corresponde a 18% dos R$ 147,3 bilhões anunciados.

O restante, na verdade, são quantias que já seriam gastas, mas foram reorganizadas no orçamento. Para Ross, esse rearranjo “sem dúvidas, ajuda a reduzir o efeito negativo da crise no curto prazo”, mas a força do pacote fica muito aquém do que foi divulgado pelo governo. Ele avalia que, até mesmo medidas que abrangem dinheiro novo podem demorar a ter impacto real na economia, caso dos saques dos recursos do PIS/Pasep que serão transferidos ao FGTS. 

“A primeira medida ficou muito aquém do esperado”, escreveu em análise no site da XP. Diante disso, as expectativas para o crescimento da economia neste ano devem piorar ainda mais e a responsabilidade de estimular a atividade cairá “desnecessariamente” sobre o Banco Central, destacou.

A XP calcula que o Comitê de Política Monetária, que está reunido para definir o novo patamar da Selic, deve baixar os juros em meio ponto percentual, dos atuais 4,25% para 3,75% ao ano, mas que, diante do pacote fraco, aumenta a possibilidade de um corte de 0,75 ponto percentual, para 3,5% ao ano.

Na análise, Ross também ressaltou que Guedes adotou tom "não conciliador" durante a entrevista para anunciar o pacote ao "tentar transferir o ônus da situação atual ao Congresso", alegando que "medidas estruturantes" já encaminhadas à Casa ainda não foram votadas. O ministro também ameaçou deixar a coletiva após se desentender com jornalistas.

"Dessa forma, acreditamos que o cenário econômico e político seguirá tempestuoso e impondo dificuldades à recuperação econômica".