Risco de paralisia: por que a economia brasileira não acelera?


André Jankavski, Juliana Elias, Luís Lima, Luísa Melo, Matheus Prado e Paula Bezerra do CNN Brasil Business, em São Paulo
18 de março de 2020 às 12:41 | Atualizado 18 de março de 2020 às 21:01
Montagem Retomada Lenta

 

Montagem sobre foto de Bruno Domingos/Reuters

O coronavírus criou um enorme pânico para economistas e especialistas. Afinal, qual vai ser o impacto dessa pandemia para o crescimento do PIB global? No Brasil, entretanto, o problema já é bem anterior à crise da COVID-19, que vem infectando e matando milhares de pessoas ao redor do planeta. Nos últimos três anos, o país não conseguiu apresentar uma expansão acima de 1,3% na economia. 

Para 2020, as previsões do Boletim Focus, que reúne as opiniões de diversos economistas e especialistas, apresentou mais uma redução: crescimento de apenas 1,68%, ante os 2,5% esperados pelo governo no início deste ano. E, claro, a conta pode piorar ainda mais com os efeitos das crises do coronavírus e do petróleo. Prova disso é a revisão de (não) crescimento para o Brasil do banco suíço Credit Suisse: 0%.

Segundo antigos e atuais governantes, a situação seria diferente com a aprovação de diversos projetos. Não foi. Mesmo com a criação de novas legislações, como o teto de gastos, e as mudanças realizadas pelas reformas da Previdência e a trabalhista, nada foi capaz de fazer o Brasil deixar de andar de lado. 

Para trazer mais vozes ao debate, o CNN Brasil Business ouviu dez especialistas e personalidades de diferentes áreas da economia e dos negócios (de ex-ministro da Fazenda até influenciadores digitais), além de distintos pontos de vista, para entender duas questões aparentemente simples. A primeira: por que a economia ainda não acelerou? E, claro, como mudar o cenário atual? 

Confira, a seguir, a opinião das dez pessoas ouvidas:

Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

Delfim Netto
 

Por que a economia não acelera?

“Estamos em uma recuperação muito lenta, talvez a mais lenta da história. O que acontece é que existe uma falta de demanda que só pode ser suprida através do investimento.”

Como mudar esse cenário?

“Seria preciso ter espaço no orçamento público para ampliar os investimentos. As finanças públicas estão deterioradas e o governo ficou dependendo apenas de induzir o setor privado, por meio de parcerias, a realizar esses investimentos. Mas isso exige uma enorme confiança no governo que ele não tem. A cobra mordeu o rabo.

O que falta, em primeiro lugar, é aprovar a PEC 186, que é a PEC emergencial. Ela substituirá despesas de custeio cuja produtividade é nula. Enquanto o investidor privado não acreditar que as condições para a aceleração do crescimento estão dadas, não irá participar. O investimento não vai ser estimulado por promessas, mas por medidas.”

Nathalia Arcuri, influenciadora e criadora do canal “Me poupe!”

Nathalia Arcuri

 

Foto: Divulgação

Por que a economia não acelera?

“Acho que, antes de mais nada, precisamos entender qual era a expectativa que foi gerada a respeito da economia. Muito da frustração que percebemos hoje é por causa de uma expectativa mal dimensionada. Então, a pergunta aqui não é por que não engrenou, mas por que tínhamos uma expectativa tão alta de que ela engrenaria. A euforia positiva no mercado provocada pelo novo governo, entre o final de 2018 e início de 2019, já se mostrou infundada, principalmente após a vulnerabilidade das últimas semanas.”

Como mudar esse cenário?

“O Brasil está muito longe de uma solução econômica definitiva. Falta aos representantes do governo um alinhamento entre áreas complementares, como Ministério da Educação, Banco Central e Ministério da Economia. É impossível pensar em competitividade num país que forma cidadãos semi-analfabetos, com mais de 40 milhões de desbancarizados, 65 milhões de inadimplentes, 30 mil assassinatos em 9 meses. 

O país que o mercado vê é diferente do Brasil de verdade. A reforma da Previdência e as próximas reformas engatilhadas são importantes para dar aquele "alívio imediato", mas de que adianta dinheiro quando se têm 11.9 milhões de desocupados em sua maioria despreparados para os desafios da era tecnológica?”

Marcos Lisboa, presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda

Marcos Lisboa

 

Foto: Divulgação

Por que a economia não acelera?

"Temos uma economia medíocre há muito tempo. Ela cresce menos do que as outras, mesmo sendo um país de renda baixa. Até mesmo quando a maioria crescia, crescíamos na média. Há alguns pontos que causaram isso. O primeiro deles é que temos distorções no sistema tributário que causam imensa complexidade. É um sistema caótico. Além disso, investimos em setores equivocados. 

Também temos uma economia fechada e isso quer dizer que as novas tecnologias demoram para chegar ao país. Protegemos a produção local, mas isso é optar por uma tecnologia velha e mais cara. Por último, tem toda a questão de pensamentos de longo prazo. Em particular, na área de infraestrutura, que possui uma série de projetos parados e ineficientes.”

Como mudar esse cenário?

“A economia pode se recuperar um pouco pela capacidade ociosa. Porém, os problemas estruturais são muito grandes. O cenário está muito ruim e a política ainda está contaminando a economia. A atual gestão ainda não enfrentou a questão do aumento da despesa, a não ser a da Previdência. As despesas obrigatórias continuam crescendo e falta recurso. É um problema crescente. 

Essa desorganização na gestão do orçamento é muito grande. E não tem que derrubar o teto de gastos, pois ele foi fundamental para a redução da taxa de juros. Para completar, os estrangeiros estão desistindo do Brasil por causa da insegurança jurídica e falta de clareza nas regras. Todos esses aspectos minam muito o ambiente.”

Zeina Latif, economista 

Zeina Latif

 

Foto: Divulgação

Por que a economia não acelera?

“O Brasil cresce pouco há décadas e não serão políticas de curto prazo que resolverão o problema. Elas só nos prenderão mais no imediatismo e adiarão mais a agenda estrutural. Não há bala de prata. O nosso problema é estrutural e impacta particularmente a indústria. É ela que tem a carga tributária mais elevada e que mais sente o custo Brasil. E não serão só juros baixos que vão salvar a indústria, são essas mudanças estruturais, e que demandam paciência, não têm impacto imediato.”

Como mudar esse cenário?

“A PEC emergencial é a grande prioridade. A reforma tributária também é essencial, pois reorganiza a cobrança dos tributos e tem potencial para reduzir a carga sobre a indústria e os investimentos. A crise do coronavírus só aumenta essa urgência e o governo está indo muito devagar. Essa estratégia de o governo dizer que apresentou o projeto e fez a sua parte, e que o resto é com o Congresso, é equivocada. É papel do governo convencer e articular.”

Flávio Rocha, presidente do conselho de administração da Riachuelo

Flávio Rocha

 

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Por que a economia não acelera?

“O carrapato ficou maior do que o boi. Temos um Estado agigantado, parasitário e disfuncional. O peso do Estado tornou-se maior do que a sua força de tração (trabalhadores e empreendedores). Por isso, parou. O atual governo está perfeitamente consciente e atento a esse diagnóstico. Está empenhado em “tirar o Estado do cangote da sociedade.”

Como mudar esse cenário?

“Para mudar isso, urge melhorar o ambiente de negócios. Isso está claro para esse governo. O desafio é fazer com que o Brasil saia da posição humilhante de ser um dos países mais hostis ao investimento e ao empreendedorismo.”

Laura Carvalho, economista e professora da Faculdade de Economia e Administração da USP

Laura Carvalho

 

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Por que a economia não acelera?

“Nunca estivemos próximos de uma retomada. A economia brasileira entrou num ciclo vicioso em que o consumo não cresce, as famílias estão endividadas e o mercado de trabalho está fraco. A retomada não vem daí. As exportações poderiam ajudar, mas o mundo já notava uma desaceleração da economia chinesa, que é grande parceira comercial do Brasil. Então a injeção de ânimo que precisamos não virá dessa área.”

Como mudar isso?

“O governo, se estivesse consumindo, poderia atuar como uma saída, como um respiro. Mas estamos fazendo o contrário desde 2015, contribuindo para agravar ainda mais a crise. Nem a “esperança” gerada pelo impeachment, pela eleição de Bolsonaro e pela agenda de reformas ajudou. Aquilo que gera animação no mercado não se transforma, necessariamente, em investimento. As empresas precisam mesmo é de melhora concreta, de vendas. Expandir capacidade produtiva, investir em novas plantas. Ninguém faz isso com um mercado interno desaquecido.”

Gustavo Cerbasi, consultor financeiro

Gustavo Cerbasi

 

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Por que a economia não acelera?

“O PIB não cresce porque, para crescer, precisa de investimentos. Como a poupança interna é reduzida, dependemos de capital estrangeiro para que nossas empresas cresçam, gerem empregos e estimulem o consumo. Só que investimento estrangeiro busca projetos consistentes. Conseguimos atrair uma boa fatia do interesse estrangeiro durante os dois governos Lula porque fizemos promessas que eram entendidas como sérias. 

Quando a cortina caiu e as mentiras e os escândalos de corrupção começaram a eclodir, o capital fugiu. Nos anos seguintes, novas promessas foram feitas, mas percebemos, ali, o custo da perda de credibilidade. O capital estrangeiro não volta porque, assim como uma traição em um relacionamento, são necessários muitos anos para recuperar nossa arranhada reputação."

Como mudar esse cenário?

A recuperação da credibilidade depende de mudanças de comportamentos percebidos fora do país. Somos um país dividido, em que opiniões e ambições individuais falam mais alto do que as necessidades coletivas. Um caminho para começar a mudar essa percepção é uma ação coordenada de poderes para que as reformas ganhem celeridade. Por isso, um segundo e igualmente longo caminho seria o anúncio de medidas radicais de estímulo à educação, pois, no longo prazo, uma sociedade mais bem educada escolhe melhor seus líderes e também pensa mais coletivamente. 

Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCIF) e um dos formuladores da PEC 45, proposta da reforma tributária

Bernard Appy

 

Foto: Divulga??ão

Por que a economia não acelera?

“Parte do problema pode ser de gestão macroeconômica (talvez os juros pudessem ter caído mais e, principalmente, mais cedo), mas a principal questão parece ser de falta de confiança. Em parte, isso se deve à insegurança com a trajetória fiscal do país, pois ainda não há certeza de que, no longo prazo, não haverá uma explosão das despesas que exija um aumento da carga tributária ou da dívida pública. Mas há outros problemas estruturais sérios, como o baixo crescimento da produtividade no país e a baixa competitividade de nossos produtos.”

Como mudar esse cenário?

“O principal desafio do país é adotar medidas que aumentem a confiança de empresários e consumidores e resolvam os problemas estruturais de longo prazo. Isso passa por medidas que sinalizem uma trajetória sustentável para as contas públicas, especialmente a reforma administrativa. É também muito importante seguir com a agenda de aumento da competição e da segurança jurídica no mercado de crédito, para viabilizar uma redução sustentada dos juros cobrados nos empréstimos.”

Luiz Barsi, megainvestidor e presidente do Corecon-SP

Luiz Barsi

O investidor Luiz Barsi

Foto: Divulgação

Por que a economia não acelera?

“Eu acho que o brasileiro nunca ataca a causa, mas os fins. A reforma mais importante é a política e é aquela que nunca vai acontecer. É por isso que eu não acredito nas demais reformas. Quem é que dá a diretriz de tudo? É a política. E como são eles que vão fazer a reforma, jamais eles vão dar um tiro no pé. Então, uma reforma nunca será via democracia. Tem que ter alguém com mais poder.”

Como mudar esse cenário?

Não sei quem poderia. Não digo Jesus Cristo, porque ele já morreu. Ele era tão bom que puseram ele na cruz.”

César Esperandio, economista e fundador do Econoweek

César Esperandio

O influenciador digital César Esperandio

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Por que a economia não acelera?

“Essa não é uma resposta fácil. A retomada tem acontecido aos poucos. É verdade que as expectativas do mercado financeiro foram frustradas. As previsões para 2019 eram de um crescimento de 2,3%, e só crescemos 1,1%. Vai continuar sendo atabalhoado, com ruído de comunicação, mas o próximo passo é resolver a questão fiscal. Temos uma barreira de investimento estatal porque não tem grana.”

Como mudar esse cenário?

“O Estado abriu os bolsos nos últimos anos e, agora, que precisamos, não temos essa verba. É possível realizar, por exemplo, uma reforma tributária para facilitar a vida da iniciativa privada. Acredito que as grandes mudanças podem vir daí e com tecnologia e inovação. O Uber, por exemplo, resolveu o problema dos transportes. O Rappi também ajuda, mesmo que informalmente, a dar ocupação para pessoas desempregadas.”