“Bear market”: Saiba como investidores tentam ganhar dinheiro com as quedas


Juliana Elias do CNN Business, em São Paulo
24 de março de 2020 às 12:37 | Atualizado 24 de março de 2020 às 16:10
Homem caminha pela Wall Street, em Nova York

Homem caminha pela Wall Street, em Nova York, em meio ás preocupações com o avanço do coronavírus nos EUA

Foto: Lucas Jackson - 18.mar.2020/ Reuters

 

Sempre quando se fala em investir na bolsa de valores, o primeiro pensamento que vem à mente é a estratégia mais tradicional de todas: buscar as empresas em que você acredita, comprar as ações delas e esperar que se valorizem junto com o negócio. 

Há, entretanto, um mundo paralelo enorme no mercado financeiro onde investidores extremamente arrojados tentam seus lucros fazendo o contrário – eles apostam na queda dos ativos para ganhar dinheiro. São mecanismos e jargões como “operar vendido” ou “vender a descoberto” que permitem ganhar quando os preços das ações caem. 

São estratégias semelhantes ao que o investidor Michael Burry e seus colegas, que ficaram famosos com o filme “A Grande Aposta” (2015), fizeram pouco antes de a bolha hipotecária dos Estados Unidos implodir o mercado financeiro em 2008 – eles calcularam que o mercado imobiliário do país estava insustentável e investiram em derivativos cujos valores se multiplicaram quando o preço dos títulos hipotecários viraram pó.

Momentos como aquele e como o de agora, em que a crise causada pela pandemia de coronavírus fez bolsas do mundo inteiro derreterem, são uma espécie de terreno fértil para esses tipos de estratégia, É o que o mercado financeiro chama de “bear market”, ou “mercado urso”, em livre tradução. É o estado em que as bolsas entram quando passam por uma linha imaginária de queda contínua acima de 20% ou 30%. Se opõe ao touro do “bull market” e símbolo de Wall Street, que representa os momentos festivos de otimismo e altas.

Para se ter uma ideia, só em fevereiro, o volume médio diário de negociações de opções, que são um tipo de derivativo para proteção em casos de variações bruscas de preços, saltou 36% ante janeiro, de acordo com os dados mais recentes da B3. Foram R$ 682,9 milhões operados por dia em opções, maior média diária desde 2000, em termos nominais (sem considerar a inflação). O volume de compra e venda tradicionais de ação, no pregão à vista, subiu 25% de janeiro para fevereiro. 

Não significa, no entanto, que os ganhos sejam garantidos só porque as ações estão um desastre. No geral, as operações de investimentos que apostam em quedas são bem mais arriscadas que a compra e venda tradicional. As perdas são bem mais frequentes e bem maiores, incluindo chances reais de perder tudo ou até de sair devendo – isso mesmo, de perder ainda mais do que investiu e ter que tirar do bolso para pagar a diferença. "São operações que devem ser feitas por investidores com maior conhecimento de mercado e de perfil bastante arrojado", disse Filipe Fradinho, analista da Clear, corretora especializada nesses tipos de operações.

Além disso, a bolsa não está só em queda. Ela está também extremamente volátil e imprevisível; quer dizer, em uma hora cai muito e, na outra, sobe muito, sem haver muita base para prever quando uma ou outra coisa vai acontecer. Isso também torna acertar as apostas mais difícil, e não à toa várias corretoras já estão aumentando as taxas de garantias que cobram dos investidores nessas operações, que é o seguro delas para o caso de o cliente perder dinheiro e não pagar.

O CNN Business conversou com operadores de bancos e corretoras para explicar os principais jargões e mecanismos utilizados pelos investidores que tentam ganhar apostando na queda de ações. Veja a seguir como funciona:

Operar vendido e aluguel de ações

“Operar vendido” é o nome que se dá, justamente, às operações que apostam na queda de uma ação. Nela, o investidor primeiro vende a ação e, depois, compra. O lucro vem da diferença entre o preço inicial e o final, só que invertido, porque a intenção deve ser vender caro, antes, para comprar barato depois. É o oposto da via tradicional – o chamado “operar comprado” – em que você quer comprar a ação barata, esperar valorizar e vender. 

Uma das maneiras de fazer isso é pelo aluguel de ações. Isso significa que o investidor – chamado de “tomador” – não precisa possuir as ações que quer operar, ele literalmente as aluga de outro investidor que as possua, o “doador”, e paga uma taxa por isso. 

A lógica é assim: imagine que as ações da Petrobras estão hoje custando R$ 10 e um investidor acredita que elas podem cair em breve. Ele então aluga, por exemplo, um pacote de 100 ações de outro investidor com o compromisso de devolver as mesmas 100 depois, independentemente do preço. Com a cotação a R$ 10, o tomador vende estas 100 ações na bolsa de valores, como em uma operação normal, e embolsa R$ 1.000. 

Se o preço do papel de fato cai, e vai a R$ 8, ele usa estes mesmos R$ 1.000 para recomprar um novo lote de 100 ações e devolver o acordado para o dono – mas elas agora custaram R$ 800. Ou seja, o tomador embolsou R$ 200 nessa operação. Caso ocorra o oposto – a projeção sai errada e as ações sobem de R$ 10 para R$ 12 –, o tomador terá que recomprar o lote de 100 por R$ 1.200 para devolver ao dono, e fica com o prejuízo de R$ 200 que terá que tirar de seu bolso para pagar a diferença.

A operação é toda intermediada pela B3, a dona da bolsa de valores brasileira, e o tomador deve fazer um empenho de garantia para ela a cada aluguel, que pode ser em outros títulos que possua como CDBs, LCAs ou títulos públicos. São essas garantias que são usadas para pagar o titular das ações caso o tomador perca dinheiro e não pague.

Também é cobrada uma taxa fixa – o aluguel – pelas ações tomadas, paga ao dono. A taxa é uma porcentagem do valor da ação e varia de papel para papel, de acordo com a procura. "Quanto maior a demanda por um papel, maior o aluguel; ações estáveis, que pouca gente quer vender, têm taxas mais baixas", explica Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos. As taxas costumam variar de 2% ao ano do valor médio da ação a até 10%. 

Para o doador, do começo ao fim, não muda nada, e ele não perde: ele continua com as mesmas 100 ações que sempre teve, cotadas pelo preço de mercado. "E ele ainda recebe uma remuneração extra com o aluguel por aqueles papéis", diz Villegas. Os doadores são, em geral, investidores que possuem carteiras de longo prazo e nas quais mexem pouco ao longo do tempo.

Para fazer a operação, tanto doador quanto tomador devem consultar sua corretora para ver as condições, saber as taxas e colocar os papéis no mercado. 

Venda a descoberto, “day trade” e “stop loss”

A venda a descoberto é como o aluguel de ações – vender antes, a um preço alto, e compra depois, a um preço mais barato. Nos dois casos, você estará vendendo algo que não tem, e por isso “a descoberto”. A diferença é que o investidor só precisa alugar ações caso ele queria segurar a aposta de queda de um papel por mais de um dia. Há aluguéis que duram meses.

Há a opção de fazer o mesmo tipo de operação, mas em intervalos de até um dia – o investidor é obrigado a vender e comprar a ação até o fim do mesmo pregão. É o chamado day trade. 

Neste caso, as ordens de venda e de recompra devem ser feitas diretamente no home broker de sua corretora. É importante que as duas ordens sejam para a mesma data.

É em operações como essas que os traders usam um mecanismo muito comum e importante: o “stop loss”, uma ordem para travar as perdas. Para quem está vendido, ou seja, para quem conta com a queda de uma ação, o stop loss estipula um preço máximo de recompra, dentro do prejuízo que o investidor tolera arcar, caso aconteça o contrário e o preço suba. A ordem será executada automaticamente caso o papel chegue ao preço definido. 

Opções, “put” e “call”

As opções são um tipo de derivativo, quer dizer, um papel que deriva de outro - é um título que representa um ativo, mas quem o compra não recebe o ativo de fato. Elas são uma espécie de contrato que os investidores adquirem e que lhes dá o direito de compra ou de venda de uma determinada ação no futuro, por um preço pré-definido. Quer dizer, o investidor ganha o direito de comercializar uma ação mais à frente pelo preço que estiver fixado nesse “contrato”, que é a opção, independentemente de qual venha a ser a variação da ação depois.

As compras são feitas por ordens na bolsa, pelo código das opções, de maneira parecida a uma ação. Se o investidor quer uma opção de compra, ele compra uma “call”, se quer uma opção de venda, ele compra uma “put”. 

"Se você acha que o preço de um determinado ativo vai cair, você pode vender uma call ou comprar uma put", diz Ronaldo Guimarães, sócio do banco digital Modalmais. "Normalmente, quando a expectativa é de uma queda muito expressiva, os investidores compram puts". Guimarães explica que elas são usadas, em geral, como uma espécie seguro por investidores que já possuem um determinado ativo e querem se defender para não perder muito em eventuais quedas. Há aqueles, entretanto, que entram na outra ponta para tentar um dinheiro extra nesse mercado, sem nem precisar ter aquelas ações para isso. 

Para esses, funciona assim: digamos que as ações da Vale estão custando, neste momento, R$ 35,50, e você acredita que, mais à frente, esse preço vai cair. Você compra, então, puts (opções de venda) da Vale agora, que te dão o direito de vender ações dela em uma data definida mais à frente, mas por um preço fixado agora (o chamado “strike”), geralmente próximo do valor atual. Neste caso, poderia ser R$ 35. Esse preço acordado fica travado, independentemente das flutuações que venham a acontecer.

A compra dessas opções tem um custo, mas ele é bem menor do que o preço de comprar a ação cheia, e é por isso que os traders gostam delas – pode ser de poucos reais ou centavos por ação acordada. Se você compra o direito de vender 100 ações da Vale por R$ 35 no futuro, você pagará, por exemplo, R$ 2 de taxa por cada put dela, ou R$ 200 pelo pacote de 100 (e não R$ 3.550, que seria o valor para, de fato, comprar 100 ações naquele momento). Será este o seu único investimento (os valores das taxas variam diariamente e devem ser checados na bolsa). 

Nessa negociação, o investidor ganha dinheiro se o preço da Vale cair. Se ele cai, por exemplo, para R$ 30, você tem as suas puts com o direito garantido de vender, agora, 100 ações de Vale pelo valor travado no começo, de R$ 35. 

O investidor, então, compra 100 ações da Vale no pregão pelos R$ 30 atuais, o que custará R$ 3.000, e as vende por meio de seu contrato de opções pelo preço de R$ 35, embolsando R$ 3.500. O ganho é a diferença entre um e outro: R$ 500. E o investimento inicial foi de apenas R$ 200 (aquela taxa inicial que deve ser paga na compra das opções). Ou seja, ele mais que dobrou em pouco tempo. 

O risco está em o plano sair errado e a ação subir. Se a ação da Vale dispara, o investidor pode simplesmente não exercer sua opção de venda e não fazer mais nada. Neste caso, entretanto, perde integralmente aqueles R$ 200 iniciais que investiu na compra das opções para fazer a aposta, e sai sem nada.