Mercado vê sinalização de queda do juro em fala do presidente do BC

Campos Neto participou de uma Live promovida pelo banco JP Morgan na manhã desta segunda-feira; participantes relatam conversa

Thais Herédia
Por Thais Herédia, CNN  
20 de abril de 2020 às 13:02 | Atualizado 20 de abril de 2020 às 13:12
Roberto Campos Neto em sua posse como presidente do Banco Central (28.fev.2019)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, participou de uma live promovida pelo banco JP Morgan na manhã desta segunda-feira (20). A vídeoconferência foi fechada à imprensa, mas alguns participantes contaram à coluna que o BC “caiu na real” e sinalizou que deve reduzir a taxa de juros na próxima reunião do Comitê e Política Monetária (Copom).
 
“Não era tão claro como hoje. Achávamos que precisávamos de mais tempo. Nunca dissemos que não usaríamos a política monetária. Não perdemos a fé na política monetária”, teria dito Roberto Campos Neto durante a live.
 
Na avaliação de um dos participantes, que pediu anonimato, essa é uma sinalização importante de que a taxa de juros deve cair pelo menos 0,50 ponto percentual no próximo Copom. Até hoje, Neto vinha defendendo a cautela e chamando atenção para um ambiente de muitas incertezas para justificar a “timidez” com o movimento da taxa.

O receio do Copom era de que, uma queda mais acentuada da Selic poderia piorar as condições financeiras da economia pelo aumento da percepção de risco fiscal, já que o governo federal vai se endividar demais para segurar o país durante a crise.
 
“A ideia é de que agora eles têm mais clareza sobre o cenário do que na reunião passada. Eles tinham dúvidas sobre se o crédito iria fluir, se iria faltar produto, sobre a trajetória fiscal (dos gastos públicos) e também sobre as reformas. Eles devem reduzir 0,50 pp, mais do que isso, poderia provocar uma agitação maior no mercado. Ainda estão atrasados, mas já seria um avanço”, avalia outro participante da vídeoconferência que não quis se identificar.
 
Em outra live, no Itaú BBA, o diretor de política econômica, Fabio Kanczuk, chamou atenção para uma queda mais acentuada do PIB por causa da paralisação da economia. Segundo executivos do mercado financeiro que participaram da live, Kanczuk teria ressaltado um aumento do chamado hiato do produto, uma medida da diferença entre o crescimento potencial e o efetivo do PIB.
 
“Ele deixou claro que, se muda a percepção sobre o crescimento, muda também a visão sobre a política monetária. Kanczuk defendeu também as medidas de aumento de liquidez do sistema financeiro porque elas terão bastante efeito quando a economia normalizar. Para ele, quando voltarmos ao trabalho, as pessoas voltarem a tomar decisão de consumir ou investir, aí sim a taxa de juros menor fará mais efeito”, contou o executivo.
 
Entre aqueles que ouviram o presidente e o diretor do BC nos eventos promovidos pelos bancos, a sinalização de que os juros vão cair ficou muito clara. Tanto assim que os contratos negociados no mercado futuro de juros estão sendo fechados com taxas menores, mais no curto prazo mas também nos contratos de prazo mais longo.
 
Um outro ponto chamou atenção de quem ouviu o diretor Fabio Kanczuk. E parece que não foi a primeira vez que ele faz o comentário.
 
“Ele diz que há uma divisão no BC entre os traders e os economistas sobre o que fazer com os juros. Roberto Campos é o líder dos traders, Kanczuk seria o líder dos economistas. Os primeiros querem manter o juro como está, porque sabem que uma alta volatilidade da curva de juros provoca perdas nos mercados e aumenta custo da dívida pública.

Os economistas levam mais em conta a perda da atividade econômica, por isso defendem a queda da Selic. Tem gente achando estranho ele expor esta divisão”, indaga um dos participantes das duas vídeoconferências.