Embraer vai cobrar compensação financeira por desistência da Boeing, diz CEO

Francisco Gomes Neto falou em um vídeo encaminhado aos funcionários da companhia brasileira neste sábado

Marcelo Sakate, em São Paulo do CNN Business
25 de abril de 2020 às 18:42 | Atualizado 25 de abril de 2020 às 18:56

A Embraer reagiu com veemência ao anúncio da Boeing, neste sábado (25), de desistência da compra de sua divisão de jatos comerciais, que havia sido originalmente acertada em dezembro de 2018. Segundo a fabricante brasileira de aviões, que sinalizou a disposição de ir à Justiça se necessário para obter uma indenização, a Boeing usou argumentos inverídicos para romper o acordo de forma unilateral. O acordo previa a formação de uma nova empresa associada (joint venture) na qual 80% do capital pertenceria à Boeing, enquanto a Embraer ficaria com os demais 20%.

“Ficamos surpresos e muito desapontados com a decisão da Boeing”, afirmou o CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, em vídeo encaminhado aos funcionários neste sábado, ao qual o CNN Business teve acesso. No vídeo, ele diz que a Embraer vai buscar compensação financeira pelas perdas decorrentes do cancelamento do acordo pela Boeing.

O acordo prevê uma multa de US$ 100 milhões em caso de desistência, segundo a agência Reuters, mas é provável que os valores buscados sejam mais elevados.

“A Embraer buscará todas as medidas cabíveis contra a Boeing pelos danos sofridos como resultado do cancelamento indevido e da violação do MTA (sigla para Acordo Global da Operação)”, afirmou a companhia em nota.

O acordo já havia sido aprovado por órgãos de defesa da concorrência nos Estados Unidos e no Brasil, mas faltava o sinal verde da Comissão Europeia – jurisdição da Airbus, a principal concorrente da Boeing – para que fosse concretizado. A sexta-feira (24) era o último dia para as empresas chegarem a um acordo. “[O prazo poderia ser ampliado], mas a Boeing exerceu seu direito de rescisão depois que a Embraer não satisfez as condições necessárias”, disse a empresa americana.

“A Embraer acredita firmemente que a Boeing rescindiu indevidamente o Acordo Global da Operação e fabricou falsas alegações como pretexto para tentar evitar seus compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra de U$ 4,2 bilhões”, afirmou a empresa com sede em São José dos Campos (SP). “A empresa acredita que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas ao MTA, devido à falta de vontade em concluir a transação, sua condição financeira, ao 737 MAX e outros problemas comerciais e de reputação”, completou.

O acordo foi acertado antes de a Boeing enfrentar uma das maiores crises de sua história, decorrente de dois acidentes fatais envolvendo o seu modelo 737 MAX. As investigações de falhas de segurança levaram autoridades e companhias aéreas a suspender o uso da aeronave no mundo, impondo à Boeing perdas que já se aproximam dos US$ 20 bilhões. A crise do coronavírus, que praticamente interrompeu o tráfego aéreo global, aprofundou a crise da fabricante americana.

O acordo foi elogiado por analistas na época do anúncio porque reforçaria o caixa da Embraer, além de potencialmente ampliar a acesso a novos mercados graças à força comercial da Boeing. Já a companhia americana passaria a contar com a expertise da área de engenharia brasileira, reconhecida mundialmente, para aeronaves de médio porte.