Juro baixo, pero no mucho: inadimplência pode travar empréstimos mais baratos


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
10 de maio de 2020 às 06:46 | Atualizado 10 de maio de 2020 às 07:49
cartão de crédito

Crédito com juros elevados, como o rotativo do cartão, deve ser evitado, sobretudo na crise 

Foto: Jack Moreh/Freerange Stock

A queda da taxa básica de juros a 3%, mínima histórica, poderia, em condições normais de mercado, baratear o custo de captação de empréstimos para quem sonha em adquirir a casa própria ou comprar um carro zero, por exemplo. A pandemia do novo coronavírus, no entanto, subverteu essa lógica.

A Covid-19, agora, ameaça a estabilidade financeira de milhões de brasileiros que estão expostos à armadilha da inadimplência. Para se blindar do risco de não pagamento, bancos e bureaus de crédito endureceram os critérios para concessão de dinheiro, neutralizando o alívio potecial de uma taxa Selic, a taxa básica de juros, menor.

O número de consumidores inadimplentes no Brasil chegou a 63,7 milhões em janeiro de 2020, segundo a companhia Serasa Experian. Isto significa que mais de 40% da população adulta do país está com dívidas atrasadas e negativadas. “A inadimplência será a principal variável do ponto de vista da oferta de crédito, ou seja, do custo do dinheiro. O risco de aumento pode praticamente neutralizar os efeitos da redução da Selic”, avalia Luiz Rabi, economista-chefe da entidade. 

Antes da piora da pandemia, em meados de março, a Serasa projetava um crescimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, estimulado pelo crédito para financiamento imobiliário e aquisição de outros bens. A Covid-19 fez as projeções virarem de ponta cabeça, com uma expectativa agora de recessão e linhas de crédito mais ligadas à renegociação de dívidas e pagamento de despesas.

Além da Selic, que é a base de todas as taxas, outros insumos compõem o chamado spread bancário (diferença entre o custo de captação e concessão de empréstimos). O custo total inclui variáveis como impostos, despesas administrativas, margem de lucro e a própria inadimplência estimada, explica Roque Pellizzaro Júnior, presidente do SPC Brasil. “A Selic, um componente desse custo total ficou mais barato (…) Mas a confiança dos consumidores e empresas afundaram para patamares históricos”, avalia.

De acordo com economistas, uma queda na Selic costuma demorar até seis meses para se refletir no bolso do consumidor, inclusive para captação de crédito. E quando isso acontece, acrescentam, nunca é na mesma magnitude proporcional ao corte efetuado pelo Banco Central (BC), já que os bancos sempre buscam ampliar margens.

Em meio à crise atual, com mais demanda por crédito e um setor extremamente concentrado (são cinco os grandes bancos do país), algum alívio só deve se materializar, no melhor cenário, quando as incertezas diminuírem.

“A estrutura financeira atualmente está tão amarrada, que a política monetária perde tração, sem conseguir responder da maneira que se espera normalmente”, justifica Fábio Gallo, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele compara atual situação à 2008, quando havia bolsões de liquidez travados pelo risco e incertezas elevados.

Do lado da oferta, os bancos correram nas últimas semanas para tentar se antecipar ao horizonte incerto. Com mais pessoas e empresas sem dinheiro, as instituições financeiras ampliaram as reservas contra possíveis calotes, as chamadas provisões.

O Itaú separou uma provisão adicional de R$ 4,5 bilhões no primeiro trimestre, a maior entre os bancos privados. O Bradesco e o Banco do Brasil fizeram o mesmo, com provisões adicionais de R$ 2,5 bilhões e R$ 2 bilhões, respectivamente. Na contramão, o Santander, que viu seu lucro subir 10%, para R$ 3,85 bilhões, entre janeiro e março, ainda não fez essa opção.

Taxa menor pesa mais que prazo 

Junto aos critérios mais elevados para emprestar dinheiro, as instituições financeiras têm alongado os prazos de pagamentos para tentar ajudar a um consumidor com menos dinheiro. No entanto, a principal variável na hora de contrair empréstimo continua sendo o tamanho dos juros — mais do que o prazo para pagamento, mostra uma pesquisa do Guiabolso.

Entre as pessoas endividadas, o fator taxas de juros mais baixas foi apontado com o principal por 77% dos entrevistados, contra apenas 3,8% que apontaram o prazo maior para pagamento. Já entre trabalhadores não CLT, juros menores têm a preferência de 67% dos respondentes, conta 4,3% dos que preferem mais tempo para pagar. O levantamento foi feito com 1947 pessoas.

“Entre pessoas que já tiveram problemas com créditos caros, pesa o fator trauma de quem já pagou juros muito altos em modalidades caras de crédito”, diz Yolanda Fordelone, economista do Guiabolso.

A maioria dos entrevistados não pretende contratar um empréstimo nos próximos meses – sendo 67% entre o grupo de endividados e 61% entre os trabalhadores informais. Nos dois grupos, a maioria admite que teve a renda afetada na quarentena, e entre os que preservaram a renda, mais de 20% dizem acreditar que o impacto, inevitavelmente, virá.

Cuidado com o cartão

Nos últimos dois anos, a Selic caiu 3,75 pontos percentuais e agora está em 3%. Nesse mesmo período, os juros anuais do cheque especial também caíram (de 322% para 162%), assim como o do financiamento imobiliário (de 9,81% para 7,56%) e a do crédito para aquisição de automóveis (de 23,63% para 19,45%). O ponto fora da curva foram os juros do cartão de crédito rotativo, que subiram de 206%, há dois anos, para atuais 289%.

Uma das explicações, segundo o planejador financeiro José Masini, da Planejar, que compilou os números, é a maior demanda por essa modalidade, em detrimento do cheque especial. “O aumento da demanda, somado ao risco desse tipo de crédito, ajuda a entender o porquê que a taxa subiu, em vez de cair”, justifica. 

No geral, os economistas recomendam cautela redobrada na hora de contrair quaisquer empréstimos — sobretudo os que embutem juros astronômicos, como o cartão de crédito e cheque especial. Quanto maior a falta de previsibilidade e garantia, maior também será o custo do empréstimo. “Não adianta contratar crédito agora, se, depois, não tiver capacidade para pagar. Resolver o curto prazo pode implicar em complicações no médio e longo”, alerta Rafael Pereira, presidente do Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD).

Em momento de crise, alternativas como renegociação de prazos e o uso de uma possível reserva de emergência devem ser considerados antes de apelar para o crédito. Itens não essenciais, como a compra do carro do ano, ou da casa própria, demandam planejamento, orçamento equilibrado, e, portanto, tempo.

Agora, se não houver outro caminho, pensando em um empreendedor que luta para não fechar as portas, por exemplo, opções mais sustentáveis são o consignado (mais barato, mas também mais restritivo, voltado a aposentados e trabalhadores CLT), crédito com garantias (como um automóvel ou imóvel) e outros tipos de empréstimo pessoal.

Por fim, os especialistas recomendam comparar as condições oferecidas por mais de uma intituição e se atentar a golpes online, que costumam crescer em períodos de maior fragilidade financeira. "Depósito antecipado, nunca, principalmente se for para uma pessoa física e não jurídica", alerta Fordelone.