Alta do dólar: videogames e produtos importados sofrem com escalada do câmbio


Matheus Prado do CNN Brasil Business, em São Paulo
13 de maio de 2020 às 16:31 | Atualizado 13 de maio de 2020 às 16:37
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Nintendo Switch viu seu preço mais que dobrar nos últimos meses

Foto: Nintendo/Divulgação

Uma série de produtos, com destaque para os eletrônicos, já começa a sofrer reflexos do câmbio desfavorável no seu preço final. A conta, neste caso paga em dólar, chegou mais rápido para artigos que têm parte ou sua totalidade importados. Com a moeda americana se aproximando dos R$ 6 –  estava em R$ 4 na virada do ano – fica muito difícil para a indústria, e, consequentemente, para o comércio, não repassar essa diferença para o consumidor.

A pedido do CNN Brasil Business, a plataforma de comparação de preços Zoom Buscapé fez um levantamento que mostra a variação de preços de eletrônicos entre a primeira semana de fevereiro e a penúltima semana de abril. Ali, já era possível mapear mudanças de quase 20% nos preços. Os smart speakers, como a Alexa, tiveram, na média aumento de 19% no preço. Também subiram os videogames, 15%, os computadores, 12%, e os celulares, 3%.

Em alguns produtos específicos, a diferença é ainda maior. O Nintendo Switch, console japonês integralmente importado que custava cerca de R$ 2.000 em fevereiro, em abril não era comercializado por menos de R$ 2.800.

Fabio Gallo, professor de finanças da FGV EAESP, explica que o ambiente gerado pela crise é especialmente ruim para esse tipo de produtos. “A indústria de eletrônicos do Brasil não é forte na produção de componentes, precisamos importar muita coisa”, diz.

A partir disso, a transferência de preços funciona em efeito cascata. O segundo setor paga mais caro para importar os produtos e, ao repassar para o comércio, já corrige os valores. O mesmo ocorre no momento da venda para o consumidor final. Mas, se este buraco no período de amostragem do levantamento já era grande, cerca de 41%, a coisa piora com uma janela maior, entre janeiro e maio. O aparelho saltou de R$ 1.750 para R$ 4.000. Um aumento de mais de 100%. Esta mudança pode ser explicada por um movimento interno das lojas.

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Josilmar Cordenonssi Cia, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, diz que o varejo consegue segurar melhor os preços enquanto ainda têm estoque de produtos. “No caso das ‘novas importações’, pagas com o dólar na cotação atual, é inviável não repassar os preços para os clientes”, diz. “Acredito que o caminho natural é que as empresas parem de importar e que a população se mantenha mais tempo com os acessórios que já têm.”

Há ainda alguns agravantes na crise causada pelo novo coronavírus. A logística e o transporte, por exemplo, estão temporariamente mais restritos, o que também pode ter influência nos preços. Aqui, além dos eletrônicos, podemos incluir outros suspeitos de costume. Desde queijos, chocolates e vinhos, integralmente importados, até o sempre lembrado pão francês, que é produzido em padarias de todo o país mas leva trigo trazido do exterior.

Economistas ponderam ainda que a complexidade da crise econômica pode provocar distorção de preços em outras áreas, como proteína animal, arroz e feijão, insumos produzidos e exportados pelo país. Com a demanda local reprimida e outros países reabrindo suas fronteiras e, consequentemente, consumindo mais, a demanda externa pode pressionar os preços praticados internamente.

“Se tiver muita demanda lá de fora, pode inflacionar os preços internos dos alimentos”, diz Cordenossi. Ele lembra do episódio de dezembro de 2019, quando uma China acometida pela Covid-19 passou a demandar muita carne brasileira, principalmente suína, e fez com que os preços disparassem aqui no Brasil. “O consumo externo pode ficar tão grande que os preços passem a ser regulados por ele”, corrobora Gallo.

Comportamento

Dados da Zoom Buscapé mostram ainda que o perfil de consumo dos brasileiros mudou durante a pandemia. Diminuiu, por exemplo, em 43%, a procura por filmadoras e, em 30%, a de câmeras digitais, acessórios normalmente associados a viagens, passeios, atividades realizadas ao ar livre. Aumentou, por outro lado, a procura por videogames, em 103%, de leitores de Ebook, em 60%, e tablets, em 30%.

CEO da plataforma, Thiago Flores afirma que é possível categorizar os itens mais procurados em três instâncias. “Cresceu a busca por produtos que já tinham forte demanda no e-commerce (eletrônicos), itens de primeira necessidade (supermercado) e itens para lazer (produtos de ginástica, videogames, tablets) e trabalho (itens de escritório, máquina de costura) em casa”, explica.

Flores relata ainda que cresceu o número de lojas interessadas em expor seus produtos no comparador de preços. “O comércio eletrônico representava 5% das vendas do varejo no Brasil. Com certeza isso vai mudar, a gente virou uma das únicas opções de sobrevivência das lojas”, diz. “Uma mudança de hábito (comprar online) que talvez demoraria 5 anos para ocorrer, está acontecendo em 5 meses. Quem estiver preparado vai ocupar o mercado, quem não estiver vai ficar para trás.”