Três em cada quatro restaurantes no Brasil já demitiram por conta da crise

Setor foi um dos mais afetados por conta do impacto do isolamento social provocado pelo coronavírus

Aline Scherer, da CNN em São Paulo
15 de maio de 2020 às 22:44 | Atualizado 16 de maio de 2020 às 10:03
Bares e restaurantes de Botafogo ficam vazios na hora do almoço, no Rio
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

As medidas de isolamento social para conter a disseminação do novo coronavírus afetam sobretudo os negócios que envolvem o consumo fora do lar. O setor de restaurantes, que empregava até o início de março cerca de 6 milhões de funcionários diretos, entre formais e informais no Brasil, é um dos que mais tem sentido a crise. De acordo com uma pesquisa da Associação Nacional de Restaurantes (ANR), obtida em primeira mão pelo CNN Business, três em cada quatro restaurantes (77%) realizaram demissões desde o início da pandemia, em março.

A associação estima que cerca de 1 milhão de trabalhadores do setor já perderam o emprego desde o início da crise. A pesquisa foi realizada entre 10 e 14 de maio, com cerca de 60% dos associados da ANR, que representa mais de 9 mil pontos comerciais do país, entre redes, franquias e restaurantes independentes.

Um exemplo é a rede paulista Frango Assado, fundada em 1952, possui 25 restaurantes em mais de 20 cidades.  A maioria de suas unidades são localizadas em postos de combustíveis em rodovias e seguem abertos, mas com adaptações.

“Removemos metade das mesas para dar maior espaçamento entre os clientes, retiramos o buffet e passamos a oferecer refeições em embalagens para levar. Além do uso de máscaras e luvas, e medição da temperatura dos funcionários ao longo do dia”, diz Newton Maia, presidente da IMC, companhia de capital aberto que detém as marcas Frango Assado, KFC e Pizza Hut.

Mesmo assim, a rede demitiu 30% dos funcionários porque o faturamento caiu tanto quanto o fluxo de clientes e das rodovias. “Com o compromisso de recontratá-los com prioridade quando as coisas melhorarem”, afirma Maia.

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O setor de restaurantes tem cerca de 1 milhão de empresas no país que, em conjunto, faturaram 400 bilhões de reais em 2019. Mas depois da crise, segundo a pesquisa da ANR, 21% dos empresários afirmam que não devem conseguir manter seus restaurantes abertos. Isso porque a maioria não tem capital de giro suficiente para continuar pagando as contas sem faturamento.

“São mais de 70 dias que estamos fechados, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde, e já temos nossos protocolos para reabertura. Mas 85% dos restaurantes tiveram seus pedidos de empréstimo recusados por instituições financeiras, e sem crédito o número de demissões deve crescer bastante”, diz Cristiano Melles, presidente da ANR. A pesquisa apontou que 32% das empresas entrevistadas com mais de uma loja já fecharam algumas unidades em definitivo.

A Associação Nacional dos Restaurantes defende a extensão dos prazos da MP 936, que permite suspensão de contratos com carteira assinada, e a redução de jornada e de salários, de 60 para 120 dias. Entre os entrevistados da pesquisa, 78% responderam que fizeram uso da medida provisória para conseguir pagar a folha de pagamento de abril.

“Não vai ser só com o delivery que os restaurantes vão conseguir sobreviver”, conclui Melles. Apenas com delivery, 40% dos entrevistados não chegam a faturar nem 10% da receita de antes da crise. Somente 15% conseguem chegar a mais da metade da receita que tinham antes da crise.