Ações de exportadoras de commodities e elétricas sofreram menos na crise


Juliana Elias do CNN Business, em São Paulo
21 de Maio de 2020 às 20:59
Mina da Vale

Vista aérea do pátio de estocagem do complexo S11D, maior complexo minerador da Vale, no município de Canaã dos Carajás (PA)

Foto: Ricardo Teles/Vale

As incertezas e os impactos da pandemia de coronavírus na economia levaram as bolsas de valores do mundo todo a terem algumas das piores semanas de sua história nos últimos meses. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, teve em março seu pior mês em 22 anos. Abril e maio têm ensaiado alguma recuperação, mas a queda média acumulada desde o início do ano ainda está na casa dos 30%.

A sangria, entretanto, não é igual entre os setores. Há aqueles que, mesmo em queda, sofreram menos, seja porque tiveram tombos menores ou porque se recuperaram mais rápido depois. É o que mostra um levantamento feito pela consultoria Economatica a pedido do CNN Business, que verificou a variação acumulada de todos os índices setoriais listados na B3, a dona da bolsa de valores brasileira. 

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De todas as categorias, a que está sofrendo menos é a de exportadoras de produtos básicos, que, se perderam com a redução nos volumes vendidos em algum medida, ganharam muito em receita com a alta de mais de 40% do dólar. Elas estão reunidas no IMAT, índice de materiais básicos da B3: a queda dele no ano é de “apenas” 17,7%, ou praticamente a metade dos 32,9% perdidos pelo Ibovespa no mesmo período. 

O IMAT reúne 11 companhias de áreas como mineração, siderurgia, papel e celulose e petroquímica. Vale, Suzano, Gerdau, CSN e Braskem são algumas que estão na lista, que pode ser checada no site da B3.

Também se destaca no ranking o IEE, índice que reúne as companhias de energia elétrica: a queda dele em 2020 é de 22,9%, também razoavelmente abaixo do Ibovespa. Coelce, Cesp, Eletrobras, Light, Taesa e a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Cteep) são algumas que estão na lista. 

Com negócios ligados a contratos públicos longos e um produto – energia – que dificilmente as pessoas deixam de consumir, o setor de energia é sempre um dos preferidos de analistas e gestores como opção de ações defensivas e resistentes aos altos e baixos dos ciclos econômicos.

Na outra, é o índice que reúne as empresas do mercado imobiliário, o IMOB, que tem as perdas mais amargas, com queda de 50% no ano. O IMOB reúne incorporadoras e administradoras de shoppings como MRV, Cyrela, Multiplan e BR Malls

O levantamento levou em consideração a rentabilidade acumulada em 2020, até o fechamento da última semana (15 de maio).

Além do Ibovespa, a B3 possui mais de 20 outros índices de referência que agrupam as empresas listadas de acordo com critérios como setor de atuação, tamanho ou os níveis de governança e de sustentabilidade. Todos os índices estão detalhados na página da B3.  

O Ibovespa, mais famoso deles, reúne as ações das 72 maiores empresas da bolsa. Juntas, elas respondem por cerca de 80% de todo volume de negócios diários do pregão, e por isso é este o principal índice de referência do mercado brasileiro.

Salto do dólar e empurrão do minério

A resposta para o bom desempenho das exportadoras é fácil: a disparada do dólar, que saiu de R$ 4 em janeiro para a faixa de R$ 5,70 a R$ 5,80 hoje, salto de mais de 40%.

“Há uma grande contribuição da Vale [para o resultado das empresas de materiais básicos]”, diz o analista-chefe da corretora Necton, Glauco Legat. “O dólar está alto e o preço do minério de ferro, principal produto dela, também está subindo, conforme a China retoma a atividade.”

Maior do grupo, a Vale tem sozinha 21% de peso no IMAT, o que faz com que o desempenho de suas ações puxe o resultado do índice. As ações da mineradora já quase voltaram ao patamar de antes da crise: elas entraram em 2020 valendo R$ 53,30 e custavam R$ 51,26 em 18 de maio, 3,8% menos. Desde o pior momento de março (chegaram a R$ 34), já subiram 50%.

“Nós já estamos favorecendo as exportadoras em nossa carteira; mineração, como a Vale, e frigoríficos, com a JBS e a Marfrig, estão nas nossas recomendações”, disse Legat.

Elétricas: fortes nas crises

No caso das companhias de energia elétrica, o que ajuda é o fato de estarem em um dos setores mais estáveis e previsíveis que há – e o fato de terem caído menos nesta crise confirma o por que de sempre estarem presentes como parte defensiva nas carteiras de corretoras e fundos.

Essa “segurança”, entretanto, é desigual entre os diferentes segmentos do setor de energia, dividido em geração (onde estão as donas de hidrelétricas e termelétricas), transmissão (responsáveis pelos linhões que ligam os parques geradores às cidades) e as distribuidoras, que são as concessionarias de eletricidade que atendem nossas nossas casas. 

“Nesta escala, as mais resilientes são as transmissoras, que não têm risco praticamente nenhum além dos custos e manutenção”, explica Legat, da Necton.

Elas trabalham com contratos de concessão longos, superiores a 20 anos, que têm remuneração fixa e reajustes periódicos, e o negócio muda independentemente de o país consumir mais ou menos energia. Taesa e a Transmissão Paulista (ou Cteep) são algumas das mais recomendadas pelas casas de análises, inclusive como tradicionais pagadoras de dividendos.

As geradoras, como a Cesp, vêm na sequência – elas também têm a segurança de contratos longos, mas ficam mais suscetíveis a intempéries como falta de chuva. Por fim, na ponta dos riscos, estão as distribuidoras, cuja receita está diretamente ligada à inadimplência e ao consumo maior ou menor dos clientes. Cemig, Light e Copel são algumas delas. 

No meio do caminho, estão grupos que possuem atividades em mais de uma área, como Eletrobras, CPFL ou EDP.

“As elétricas possuem papéis bastante defensivos e devem estar em qualquer carteira, mas não devem subir muito mais agora”, disse Legat. “O ideal é sempre ter um portfólio bastante diversificado, em número de empresas e também em setores, com ativos que não se correlacionem tanto uns com os outros.”

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