Número de depósitos na poupança em abril foi o maior já registrado

Incertezas geradas pela pandemia do novo coronavírus estão entre os motivos para o recorde histórico

Lara Mota e Juliana Colombo, da CNN, em São Paulo
27 de maio de 2020 às 23:27

Considerada um investimento conservador, a poupança está em alta. Em abril os saques nesse tipo de investimento foram de R$ 184.905 bilhões. Já os depósitos chegaram a R$ 215,364 bilhões. A diferença, os depósitos líquidos, somaram mais de R$ 30,5 bilhões. Esse movimento de retomada da poupança começou em março, quando a pandemia do novo coronavírus fez com que o isolamento social se intensificasse, gerando insegurança. 

A especialista em desenvolvimento social Ester Gomes fez a opção pelo menor risco. Os rendimentos dela caíram muito desde que começou a quarentena e ela decidiu colocar o dinheiro na poupança. "Tudo o que eu recebo eu pago as minhas contas essenciais e guardo na poupança. Por que eu escolhi a poupança? Porque eu prefiro algo mais seguro nesse momento em que a economia está instável. Prefiro algo mais conservador", afirmou Ester.   

Para o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Andrew Storfer, o medo foi o que gerou esse movimento. "As pessoas estão receosas com relação a emprego, renda, com relação a retomada", disse. "Com esse medo, muita gente acaba indo para a poupança", conclui Storfer.

Na cultura do brasileiro, a poupança sempre foi a melhor forma de guardar dinheiro. Mas existe uma diferença entre poupar e investir para ter lucro. Por ano, a poupança paga um rendimento de 70% da taxa Selic, que está em 3% ao ano e pode chegar a 2%. Mais a TR (taxa referencial) que está em zero. O que faz com que muitos analistas desaconselhem a poupança.

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'Quando você olha para o relatório Focus e vê que tá caindo pra 2,25% (a taxa Selic), você pensa: Quanto que eu vou ganhar se eu investir na poupança? E o que você ganharia líquido seria 1,57% sem considerar inflação. Então para quem está pensando em colocar o dinheiro na poupança para que ele dê retorno e se torne algo maior no futuro, não é o produto certo", diz Laio Santos, CEO da Rico Investimentos. 

Esse foi o fator preponderante para o economista Marcos José de Oliveira mudar o perfil de investimento. Ele deixou só o mínimo na poupança e migrou para renda variável. "Não quero voltar para a poupança. Quando a economia voltar a melhorar e ficar aquecida, talvez. Mas hoje estou totalmente confortável em renda variável, em ações", afirmou.  

Quem tem valores baixos para investir e precisa do dinheiro na mão, não consegue variar tanto e a poupança acaba sendo a saída. O risco é baixo, não paga imposto de renda e a liquidez é grande, já que quem poupa pode sacar o dinheiro a qualquer hora. O movimento atual, de retomada, vai depender do andamento da crise.

"Se a gente tiver uma crise que perdure mais, com reflexos mais fortes, não vai sobrar dinheiro. Então a gente pode ter uma inversão disso, de gente sacando da poupança para fazer frente a gastos, porque não tem aquela receita para poder honrar seus compromissos", conclui Andrew Storfer, da Anefac.