Entenda por que o home office deve continuar prevalecendo à volta ao escritório


Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo
04 de junho de 2020 às 13:47
Av. Faria Lima

Avenida Faria Lima, em São Paulo (SP): A volta ao trabalho no centro financeiro deve demorar

Foto: Sergio Souza/Unplash

O trabalho presencial nos escritórios foi uma das cinco atividades incluídas na fase 2 da reabertura da economia pelo governo do Estado de São Paulo. Isso significa que, em tese, nos próximos dias milhares de trabalhadores estarão liberados para deixar de lado o home office. 

Uma das razões para a liberação do trabalho nos escritórios é a expectativa de dar impulso ao comércio e ao setor de serviços – como restaurantes –, que dependem do movimento dos trabalhadores, especialmente em regiões que concentram prédios corporativos. 

Em São Paulo, dois exemplos são as avenidas Faria Lima, que concentra bancos e gestoras de investimentos, e Berrini, com perfil mais diversificado. São duas regiões recheadas de edifícios de médias e grandes empresas. Mas a volta ao trabalho não vai ser imediata.

É o que afirma Alessandro do Carmo, diretor de Operações da CB Richard Ellis (CBRE), empresa americana que é a maior do mundo em gestão e locação de imóveis comerciais. No Brasil, a CBRE administra o equivalente a 1,5 milhão de metros quadrados em escritórios.

"Os condomínios que administramos estão com todas as medidas de segurança da saúde instaladas, de acordo com as premissas do protocolo global da CBRE, da OMS e da Anvisa para a reentrada nas edificações. Ou seja, estamos prontos para receber os locatários", afirma o executivo.

Mas em seguida ele faz a ressalva: "Até o momento, o que temos visto nos condomínios que administramos são empresas aguardando condições mais seguras, baseadas no controle da pandemia, e um melhor controle de todas as variáveis para voltar aos escritórios." 

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Carmo se refere a variáveis que não dependem das condições de saúde do escritório em si, mas do entorno e da cidade, como taxas de contágio e redução do número de novos casos.

Há empresas que decidiram não esperar pelas autoridades ou pela melhoria das condições de saúde para adotar o caminho contrário: adiaram a volta ao escritório para 2021.

É o caso do QuintoAndar, startup que se tornou a maior empresa de locação de imóveis do país. Seus cerca de mil colaboradores poderão trabalhar de casa até o fim do ano, segundo anúncio feito nesta quinta-feira. São profissionais que já trabalhavam remotamente desde 13 de março.

"Como a situação da pandemia ainda não se estabilizou e estamos funcionando bem com o trabalho remoto, vamos continuar em casa para manter todo mundo protegido”, diz Gabriel Braga, co-fundador e CEO do QuintoAndar. A empresa se tornou no ano passado um dos unicórnios brasileiros, como são chamadas as startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.

Foi também a escolha feita pela XP Investimentos, maior corretora independente do país: seus 2.550 funcionários poderão trabalhar de casa até o fim do ano, deixando desocupados sete andares em uma das torres comerciais mais caras do país, a São Paulo Corporate Towers, no coração do bairro nobre da Vila Olímpia. Outros dois andares na Faria Lima terão o mesmo fim. 

Vontade dos empregados

A cautela das grandes empresas é respaldada pelo desejo dos profissionais. Uma pesquisa da empresa de recrutamento e recursos humanos Robert Half dá a dimensão do sentimento – foram entrevistados mais de 800 trabalhadores com perfil de média e alta gerência em maio.

Nove em cada dez entrevistados (91% do total) disseram que as empresas deveriam permitir que os funcionários trabalhassem em casa com mais frequência; e 67% dos profissionais afirmaram entender que o seu trabalho pode ser realizado de casa. 

Questionados sobre atitudes que podem ser repensadas nos próximos seis meses, 77% dos entrevistados citaram a realização de reuniões presenciais cujos assuntos tratados podem ser resolvidos por meio de videoconferências ou até mesmo por e-mail. 

"Os resultados da pesquisa mostram uma necessidade maior de flexibilização no mercado de trabalho", afirma Maria Eduarda Silveira, gerente da Robert Half.  "Muitos profissionais estão preocupados com a saúde e a segurança no ambiente de trabalho. Além disso, muitos possuem filhos, e não há uma data para que as escolas voltem a funcionar", diz.

Uma pesquisa realizada pela XP com seus funcionários ajudou a fundamentar a decisão de adotar o home office até o fim do ano: apenas 5% disseram que gostariam de trabalhar os cinco dias da semana no escritório. Houve aumento da satisfação interna nas últimas semanas. 

Segundo Maria Eduarda, as empresas precisam levar em consideração o bem-estar e a segurança dos trabalhadores na retomada. "É a forma de garantir que eles estejam mentalmente saudáveis e motivados para produzir, permitindo que as empresas tenham resultados sustentáveis na volta ao escritório", afirma. Ou seja, nem que isso signifique que a volta leve mais tempo.

Para o QuintoAndar, o trabalho em regime de home office vai além da permissão para ficar em casa. Os funcionários receberão ajuda de custo mensal para cobrir gastos com internet e terão reembolso na compra de equipamentos necessários para apoiar o trabalho de casa.

O retorno gradual é um fenômeno global. Pesquisa da CBRE em maio com mais de 200 empresas que empregam mais de 38 milhões de trabalhadores em diversos países revelou que apenas 20% delas pretendiam reabrir os escritórios assim que os governos locais liberassem. 

Para 72% das companhias globais, a volta ao trabalho presencial seria realizada em fases, de forma gradual. E metade delas afirmou que pretendia oferecer aos empregados a alternativa de trabalhar em casa no futuro próximo, embora isso varie conforme o setor de atuação.
  
Para quem esperava a volta à normalidade no escritório, portanto, é melhor ter um pouco mais de paciência.

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