Crédito privado aumenta juros e volta a ser opção atraente de renda fixa


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
09 de junho de 2020 às 13:06 | Atualizado 15 de junho de 2020 às 14:22
Investimentos
Foto: Jason Briscoe/Unplash

Uma das alternativas imediatas para quem busca um pouco mais de rentabilidade sem precisar sair da renda fixa, o crédito privado viveu momentos turbulentos no auge do choque dos mercados causado pela crise do coronavírus. 

Fuga de investidores em pânico, falta de compradores e, principalmente, medo de que as empresas emissoras deem calote fizeram o patrimônio de quem tinha dinheiro investido em fundos de crédito privado despencar em alguns momentos. Isso chacoalhou um dos segmentos que mais ganhou espaço no ano passado, conforme os juros caíam às mínimas históricas e pequenos e grandes investidores buscavam alternativas aos títulos tradicionais.  

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Agora, passado o tranco, o mercado tenta se rearranjar, e o investidor mais paciente – disposto a aguardar prazos longos e ciente dos riscos de crédito – pode encontrar opções de títulos de boas empresas pagando juros um pouco mais gordos do que antes da crise.

“Existe, de fato, um risco maior e não é à toa que esses papéis estão com uma remuneração mais alta”, disse o coordenador de alocação da XP Investimentos, Felipe Dexheimer. Ele menciona que empresas que, até o ano passado, ofereciam juros de até 1% sobre o CDI pelos seus papéis, hoje estão pagando 2%. Nos picos do pânico, em março, essa margem chegou aos 4%. 

“Nem todas as empresas têm riscos tão relevantes quanto foi precificado; entendemos que o mercado já deu uma normalizada e achamos que há, sim, boas oportunidades para os investidores.”

Emprestando dinheiro para uma empresa

O crédito privado corporativo é uma ala da renda fixa formada por títulos de dívidas de empresas, como debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), ou então por fundos que invistam nesses ativos (os fundos de crédito privado). 

Eles seguem a mesma lógica dos títulos do Tesouro Direto – que são um pedaço da dívida pública que o governo “vende” para os investidores em troca de uma remuneração em juros. A diferença é que as debêntures e os outros títulos de crédito são emitidos por empresas, que pegam esse dinheiro emprestado para financiar seus investimentos e negócios. 

Os papéis têm data de vencimento e oferecem juros pré-definidos, que podem ser pré ou pós-fixados (atrelados ao CDI ou à inflação, por exemplo), exatamente como os títulos públicos e a renda fixa emitida por bancos, como CDBs, LCAs e LCIs. 

Os títulos de crédito privado, entretanto, são os mais arriscados da família, porque não possuem nenhum tipo de garantia, como faz o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), por exemplo, que devolve o dinheiro do investidor de CDBs, LCAs e LCIs caso o banco dê calote. 

Isto significa que, se a empresa tiver alguma dificuldade financeira e não conseguir pagar seus credores, os investidores donos de suas debêntures correm o risco de ficar sem o dinheiro. Episódios de renegociação de juros ou atraso nos prazos de pagamentos já aconteceram entre debêntures de empresas menores, bem como problemas com companhias que entram em crise ou em recuperação judicial.

É justamente por esse risco mais alto que o crédito privado já costuma oferecer remunerações maiores. No caso das debêntures incentivadas (que são emitidas por empresas de infraestrutura e contam com incentivos), há ainda a vantagem de não haver cobrança de Imposto de Renda. 

Choque de risco na pandemia

Com o forte choque econômico causado pela pandemia do novo coronavírus, o risco de crédito das empresas tende a aumentar – quer dizer, as companhias devem ter redução de receitas e podem passar por dificuldades de caixa. Isso acendeu o alerta de investidores no mundo todo que emprestam dinheiro para elas via debêntures e outros papéis. 

A forte crise de pânico por que o mercado global passou também causou uma corrida enlouquecida de resgates, o que fez os preços desses títulos despencarem – foram fundos e grandes investidores institucionais que precisavam de dinheiro na mão e tiveram que se desfazer às pressas dos papéis de dívida que tinham em carteira. Na falta de compradores, se viram obrigados a aceitar qualquer preço por eles. 

Na prática, é como aceitar de volta R$ 800 para se desfazer de uma debênture na qual havia investido R$ 1.000 – mas na casa dos bilhões, já que foi um movimento de segurança visto principalmente entre os grandões. 

Esse desconto acontece para quem decide resgatar as debêntures antes do prazo de vencimento. Nesses casos, é necessário aceitar o preço que está sendo oferecido por elas no mercado no momento (é o chamado mercado secundário). Os investidores que carregam seus títulos até a data de vencimento seguem com o direito de receber exatamente o valor e os juros que contrataram.  

Para se ter uma ideia, essa corrida de capitais fez o preço médio das debêntures cair 5,2% só em março, de acordo com o IDA, Índice de Debêntures da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em 2019, ele havia subido 8,6%. Em abril (+0,9%) e maio (+1,3%), voltou a se recuperar.

Como investir

“O crédito privado tem boas oportunidades e segue como boa alternativa em um cenário de juros extremamente baixo”, disse Pedro Padilha, sócio e responsável pela seleção de fundos da corretora Genial, mencionando as remunerações mais atraentes que os resquícios do choque de março deixaram. 

“Mas o potencial problema agora é como as empresas vão recuperar suas atividades e ter fluxo de caixa, e, mais do que nunca, é importante fazer uma seleção criteriosa.”

O consultor Bruno Mori, planejador financeiro certificado da Planejar, explica que é importante conhecer informações da empresa dona da debênture a ser comprada, como os planos de investimentos para aqueles recursos que estão sendo tomadas e, principalmente, a nota de crédito delas – dada por agências de classificação de risco como Fitch, Moody’s e S&P. 

Quanto mais alta a nota, menor o risco de calote da empresa, e o consenso é que empresas consolidadas e com notas altas, como Petrobras ou Vale, oferecem papéis razoavelmente seguros.  

“Não existe certo ou errado, o que existe é fazer a alocação adequada ao seu perfil”, diz Mori. “Os títulos de dívida privada são normalmente indicados para quem tem um dinheiro disponível além da reserva de emergência e pode correr mais riscos”, diz. 

Ter debêntures de mais de uma empresa é regra consensual entre os analistas, de maneira a pulverizar os riscos – a chance de todas darem calote é bem menor do que apenas uma. 

Para os investidores com valores baixos para conseguir diversificar e também com pouco conhecimento do mercado, a recomendação é recorrer aos fundos de crédito privado, que são geridos por profissionais e conseguem investir em dezenas de empresas ao mesmo tempo. 

“Os fundos de crédito privado têm que ser um investimento para quem entende que é necessário abrir um pouco mão da liquidez para ter uma rentabilidade um pouco maior, e correndo menos risco do que em um fundo multimercado ou de renda variável”, disse Padilha, da Genial.

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