As startups precisam ser uma mistura de unicórnio e camelo, diz CEO da Creditas


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
11 de junho de 2020 às 14:34 | Atualizado 11 de junho de 2020 às 17:04

A fintech de crédito Creditas sempre aparece entre as apostas dos investidores brasileiros para o próximo unicórnio brasileiro. Por oferecer opções de crédito mais baratas do que os grandes bancos por optar por empréstimos com garantia (imóvel e carro) aos consumidores, os especialistas sempre acreditaram que, em breve, a empresa será mais uma daquelas com um valor de mercado acima de US$ 1 bilhão. Mas aí veio a crise do novo coronavírus e muitas dessas previsões ficaram em compasso de espera.

Isso porque até mesmo os conceitos de todo o setor estão mudando com todas os problemas globais causados pela Covid-19. Por isso, recentemente, surgiu um novo conceito: o de empresas “camelo” – sim, o setor adora criar nome de animais para definir as suas próprias empresas.

A diferença é a seguinte: enquanto os unicórnios são aquelas empresas que conseguem um crescimento acelerado (muitas vezes sem gerar caixa e, consequentemente, darem milhões em prejuízo), as startups camelos são aquelas que mostram que o seu negócio consegue sobreviver e se manter firme mesmo diante de cenários bem conturbados – tal como é a crise do novo coronavírus. É uma alusão ao fato de o camelo (o animal, nesse caso) aguentar dias andando no deserto sem tomar um pequeno gole de água.

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Com a situação complicada que diversos unicórnios do mundo está no momento, como a WeWork e o Uber apenas para dar dois exemplos, o modelo de muito crescimento e nenhum lucro foi colocado em xeque. A Creditas, portanto, quer se desvincular desse conceito para mostrar aos investidores de que é uma empresa que pode aguentar o tranco.

“O ideal é juntar os dois termos e a empresa tem que crescer independentemente do crescimento econômico”, diz o espanhol Sergio Furio, presidente da Creditas. “Consumir capital porque o negócio não fica em pé não faz sentido, mas crescer sustentavelmente é algo que os investidores gostam.”

E durante a pandemia, segundo Furio, a empresa conseguiu crescer a despeito da crise. É verdade que diminuiu bastante o ritmo, mas ele afirma estar satisfeito com os resultados. Se antes a empresa estava crescendo a uma média de 16% ao mês – o que significa que a empresa triplicava de tamanho a cada ano – no período da pandemia, entre o meio de março e início de junho, o percentual de avanço foi de 10%. “Ainda assim é um crescimento de quase 80% anual, o que é bem relevante”, diz ele.

Ao se observar uma economia em queda, com cada vez mais previsões de uma recessão acima dos 7%, o resultado pode ser visto como positivo, certo? Mas existem outras questões que ainda preocupam analistas. Uma delas é a questão da inadimplência: com o aumento da crise e do desemprego, a demanda de crédito cresce, mas, ao mesmo tempo, muitos não conseguirão pagar as suas dívidas – trazendo um grande prejuízo para instituições financeiras.

Não foi por acaso que os maiores bancos já apresentaram provisões bilionárias tendo em vista os futuros devedores. Isso quer dizer que as companhias já enxergam uma grande possibilidade de altos prejuízos em um futuro não tão distante.

“A situação ainda pode piorar porque a recessão não chegou para valer mas vai chegar”, diz Renato Mendes, professor do Insper. “E com ela, vai vir uma ressaca de inadimplência, de gente que não vai honrar seus débitos e, no caso de uma Creditas, vai entregar seu bens dados como garantia – ou não.”

Furio também admite que a crise ainda não começou de fato. “A crise ainda não começou e estamos em uma situação de disrupção. Ninguém ainda sabe como vai ser o dia de amanhã”, diz ele. A inadimplência da Creditas, segundo o executivo, não aumentou muito ainda: cerca de 2%.

Nascimento na crise

Mas essa imprevisibilidade não é algo que a empresa precisa se preocupar? Na visão de Furio, a Creditas está preparada para passar por essa crise, afinal nasceu no fim de 2013 – período em que a economia brasileira já mostrava sinais de que não ia muito bem.

Mesmo assim, a empresa apresentou um crescimento exponencial. A Creditas não divulga o faturamento, mas seu valor de mercado saiu de US$ 20 milhões em junho de 2015 para US$ 750 milhões quatro anos depois. Ela foi avaliada nesse montante com o aporte de US$ 231 milhões anunciado pelo fundo japonês SoftBank em julho do ano passado.

Para justificar a aposta dos seus acionistas, a Creditas começou a se mexer para ir além do empréstimo com garantia. Um dos principais mercados que a empresa está indo atrás é no de crédito consignado – aquele empréstimo que é descontado diretamente na folha de pagamento, ou seja, mais seguro para quem empresta. Faz sentido: dos cerca de R$ 400 bilhões concedidos nessa modalidade no Brasil, apenas 5% vem da iniciativa privada.

No início de 2020, a Creditas firmou uma parceria com a empresa de tecnologia Totvs, que fornece software de gestão para empresas. A ideia é que as companhias que são clientes da Totvs consigam oferecer esse crédito consignado com taxas que começam em 1,29% e vão até 3,49% ao mês. Em um momento de redução de jornadas – e de salários – pode ser uma boa saída para os funcionários.

O problema, no entanto, é que as demissões continuam e, consequentemente, diminuem os potenciais clientes. Especialistas acreditam que o desemprego no Brasil pode chegar a 23% – ante 11,8% antes do início da crise. Mesmo assim, a Creditas acredita que esse segmento pode ser o maior da companhia até 2022, ultrapassando o crédito com garantia de imóvel ou carro.

Se isso acontecer, a Creditas dará mais um passo para ser um camelo. 

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