Solidário e digital: as 10 características do consumidor no pós-pandemia


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
11 de junho de 2020 às 15:00 | Atualizado 11 de junho de 2020 às 16:05
Consumo

Cliente paga conta com celular: consumo no pós-Covid tende a ser mais digital, analisa agência

Foto: @claybanks/Unsplash

Menos materialista, mais autônomo e cuidadoso com a saúde. Essas são algumas características do novo consumidor da era pós-pandemia, segundo um estudo da agência de publicidade Lew’Lara/TBWA, compartilhado com exclusividade com o CNN Brasil Business. Após o período de quarentena imposto pela Covid-19, é esperado ainda um fortalecimento de compras por canais digitais, além de uma ênfase por marcas mais acessíveis, já que a crise trará sequelas econômicas de proporções ainda indefinidas.

“A ênfase ao produtor local é global. Ao mesmo tempo que tem a preocupação com o ‘pequeno’ e ‘próximo’, tem um maior cuidado com o incentivo ao emprego e economia dos países”, avalia Renata Serafim, CSO (chief strategy officer) da agência. No curto prazo, exemplifica, não haverá espaço para restaurantes que cobram "três dígitos" por uma refeição: "A alta gastronomia será repensada."

O perfil do consumidor será mais solidário e cuidadoso com o entorno mais próximo e também privilegiará a voz de especialistas com aval cientifico na hora de comprar. “Há também uma solidariedade mais legítima, que já existia antes, em uma esfera mais segmentada, e que, ainda bem, ficou mais natural em uma dimensão mais ampla”, acrescenta Serafim.

Segundo ela, os hábitos apontados já estão sendo vistos, mesmo antes da reabertura em alguns países. Algumas atividades, no entanto, podem não se manter por tanto tempo, como o costume de cozinhar em casa. “Vamos nos conectar de novo com o hábito de ir a restaurantes e bares”, prevê. 

Para as marcas o desafio é aliar utilidade e legitimidade para além de causa e propósito, valores repetidos à exaustão por especialsitas em marketing. "As empresas precisarão a buscar legitimidade. Precisa ser verdadeiro", diz. Quem não se adaptar a esse novo contexto, acrescenta, sairá prejudicado. "Precisamos aproveitar o momento atual para sairmos melhores e maiores."

O raio-x foi feito com base em uma rede de coletores de cerca de 280 buscadores de tendências global (sendo 30 no Brasil), distribuídos em 50 escritórios, a partir de uma plataforma chamada Backslash.

A partir de análises qualitativas, em veículos de comunicação, redes sociais, entrevistas, entre outras técnicas de apuração, esta espécie de “hub de conteúdo” fez um esboço analítico do consumidor no pós-Covid. As informações foram condensadas pelo escritório da empresa em Los Angeles, e distribuídas ao restante do mundo — já que se tratam de tendências mundicais, aceleradas por uma pandemia global. 

Confira as 10 principais características destacadas no levantamento.  

1. Busca por marcas mais acessíveis 

Diante da perspectiva de retração econômica e as incertezas sobre sua magnitude e o momento de retomada, é esperado uma procura maior por marcas de maior custo-benefício. “Algumas categorias deixarão de ser consumidas. Das que continuarão em evidência, será comum uma busca por produtos mais acessíveis”, diz o estudo. 

2. Prioridade ao produtor local 

O pequeno comércio sobrevivente da crise sairá fortalecido, e continuará em foco, ao menos em um primeiro momento. O diagnóstico é de que o incentivo ao consumo local ajuda a recuperar a economia, com mais controle da cadeia de suprimentos e apoio ao varejista de menor porte. Segundo o levantamento, marcas conhecidas e testadas serão as primeiras opções das pessoas, que recorrem a produtos familiares. Em outros setores, como o turismo, destinos próximos ganham prioridade, diz Serafim. 

3. Relação menos materialista 

As restrições impostas pela quarentena aguçou a sensibilidade das pessoas para o “valor das pequenas coisas”, segundo os caçadores de tendências. “Passamos a reavaliar nossas prioridades, vendo valores em simples prazeres e enxergando que a saúde é o nosso bem mais valioso”, apontam. Nesse contexto, é esperado que as pessoas estejam menos focadas em posse e status, e que deem mais importância ao singelo da vida. 

4. Protagonismo científico 

Vozes conspiratórias que desacreditam da ciência, como as que pregam o terraplanismo (teoria de que a Terra é plana), perderão força. Em compensação, reconquistam credibilidade os profissionais especialistas em cada assunto. “Ouvir a voz de um expert hoje passa a ser uma prioridade antes de tomar uma decisão. Além disso as pessoas vão querer saber qual é a solução que cada produto traz para suas necessidades.”

5. Mais cuidado com a saúde 

Os consumidores do pós-pandemia também são mais cuidadosos e pró-ativos com a saúde e bem-estar. “Começamos a entender que centenas de decisões que tomamos sobre nossa saúde diária podem trazer grandes consequências positivas e negativas”, aponta a agência.

De acordo com a análise, as pessoas passam a se dar conta de que a saúde é algo que extrapola o individual. “Hoje as pessoas estão cuidado da saúde dela e de seus familiares”, diz. Nesse contexto, serviços compartilhados, de viagens ou mobilidade, por exemplo, saem perdendo. “Tudo que é compartilhado, ou que junta uma multidão, é um risco”, alerta Serafim.

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6. Compra multicanal 

Mesmo após a atenuação do contágio pela Covid-19, os hábitos de consumo devem seguir sendo afetados pelo medo de tocar nas coisas e de estar em lugares fechados, respirando o mesmo ar que outras pessoas. Diante da barreira emocional para fazer atividades fora de casa, ganha relevância a segurança de compra por canais variados, sobretudo o digital.

“Em vez de perguntar: “Por que devo fazer isso online?, vamos nos perguntar “Por que devo fazer isso pessoalmente?”, questiona o estudo. Para Serafim, esta mudança veio para ficar. 

7. ‘Feito em casa’ 

Na quarentena, consumidores aproveitaram o tempo em casa para desenvolver novas habilidades, como cozinhar, artesanato, panificação, entre outras. Resultado: passou a ser mais independente, o que reforça a cultura do “faça você mesmo”, com um maior controle da cadeia de produtos e da segurança dos ingredientes. 

8. ‘Luxo acessível’

Após a reabertura econômica, a expectativa é de que haja um “pico de busca por escape e auto-compensação” para a privação imposta no período de clausura. Como a recessão econômica será um fator limitante, a busca será por uma espécie de “luxo acessível”. “Crises anteriores mostraram que alimentos que oferecem conforto emocional, como doces, devem sofrer impacto positivo, em compensação a luxos maiores, que precisarão ser cortados.”

9. Maior senso comunitário 

O novo consumidor também terá um senso comunitário mais desenvolvido, já que a pandemia trouxe a sensação de um “inimigo comum”, que exige união e maior responsabilidade social. “Estamos vendo diversas marcas se unido para ajudar as pessoas”, diz o estudo — sobretudo àquelas que são mais vulneráveis e afetadas pela crise sanitária. 

10. Digital mais saudável 

Na pandemia, o digital passou a ser um aliado da saúde das pessoas, com a disponibildiade de videoaulas de yoga e ginástica, por exemplo. Diante da possibilidade de um estresses pós-traumático, a busca foi por equilíbrio e serenidade para além de puro entretenimento, o que dá margem para empresas e marcas que oferecem esses tipo de serviço.

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