Influenciadores negros traduzem finanças a seguidores fora do eixo 'Faria Lima'


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
26 de junho de 2020 às 10:43 | Atualizado 26 de junho de 2020 às 21:07
Criadores de conteúdo negros

Criadores de conteúdo negros democratizam temas relacionados à finanças pessoais e empreendedorismo na web. Da esquerda para direita: Alan Soares, Geórgia Barbosa e Gabriella Safe, Gabriela Mendes e Amanda Dias 

Foto: Divulgação

Ficar milionário da noite para o dia não está na pauta dos criadores de conteúdo negros e negras que vêm conquistando espaço nas redes sociais. Mais preocupados em ajudar pessoas do ‘Brasil real’, ou seja, de classe média e baixa, eles se dedicam a temas mais urgentes do dia a dia, como organizar as contas, sair do endividamento e dar os primeiros passos para investir.

Ainda que estejam de fora do alto escalão de influenciadores de finanças, que ostentam milhões de seguidores, ocupam uma posição necessária, que reforça a identidade com outras pessoas pretas e ajudam a aproximar temas econômicos que impactam suas vidas direta e cotidianamente.

No total, 56,4% da população brasileira se declara preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, referente ao primeiro trimestre de 2020. Entre os 210 milhões de brasileiros, há quase 100 milhões de pardos e 20 milhões de pretos.

Apesar de serem maioria, são os menos favorecidos economicamente: 33% vivem abaixo da linha de pobreza (com menos de US$ 5,50 por dia), contra 15% de brancos, e ocupam apenas 30% de cargos gerência, contra quase 70% de brancos, também segundo o IBGE.

É também para parte dessa parcela da população, que falam influenciadores como Gabriela Mendes, da No Front, plataforma digital que utiliza músicas de rap para ensinar sobre educação financeira.

“Discussões sobre educação financeira são ainda dominada por homens, brancos, de classe média alta, que não tem uma vivência e empatia com a realidade da maioria do povo brasileiro. É muito importante que consigamos resgatar nossas trajetórias, vivências e realidades para conseguir elaborar um lugar que ainda é pouco trabalhado”, diz a economista, de 25 anos, de São Paulo.

Em Porto Alegre, o publicitário Alan Soares, de 24 anos, decidiu criar o Boletinhos com um propósito parecido: tornar palatável a pessoas com menor renda a organização de suas finanças — sem se tornar refém dos próprios gastos.  

“A maioria dos conteúdos que eu via sobre finanças era sobre como investir em ações ou se tornar milionário, a partir de uma linguagem imediatista ”, avalia. “Sempre tive outra referência, que é fazer com que as pessoas olhem para sua realidade e adaptem os ensinamentos a ela, sem muita cobrança. Primeiro elas têm que pagar a conta de luz, por exemplo, e depois, pensarem se tornar milionários”, acrescenta.

Na área do empreendedorismo, a baiana Amanda Dias, de 27 anos, criou o Grana Preta, que tem como objetivo tornar pessoas autônomas a partir de capacitação profissional e treinamento. “Precificação, ou dar preço, é algo muito importante. As pessoas têm dificuldade de precificar seus produtos e serviços, e daí começa um todo problema para a gestão financeira”, exemplifica.

Para Ana Paula Passarelli, COO da Brunch, agência que assessora esses criadores de conteúdo, é necessário que, em um momento de crise, as discussões sobre finanças cheguem a todos os brasileiros. “As conversas sobre finanças precisam ser democratizadas e todos os novos integrantes do time são reconhecidos por levar conceitos de economia e finanças de maneira simples e real.”

Saiba mais sobre esses e outros criadores de conteúdo que têm ajudado a democratizar o acesso à educação financeira entre pessoas pretas.

Gabriela Mendes, do @nofrontempoderamento

Gabriela Chaves

Gabriela Mendes, do No Front, criou uma plataforma para ensinar finanças através do rap 

Foto: Divulgação

Um show do grupo Racionais MCs visto aos seis anos de idade marcou a vida da paulistana Gabriela Mendes. Esta foi a sementinha do No Front, projeto que ensina educação financeira a partir de músicas de rap.

“As pessoas me perguntam como fui da economia para o rap, mas o caminho é inverso: fui do rap para a economia. Cresci ouvindo rap. O Taboão da Serra, no sudoeste de São Paulo, onde morava, é muito perto do Capão Redondo, onde nasceu o grupo Racionais.”

Economista, se formou pela PUC-SP, graças a obtenção de uma bolsa de estudos, já que não tinha condição de pagar a mensalidade de R$ 2,7 mil. Na sua turma, dos 50 alunos, apenas três eram negros.

Após ter tido experiência no mercado financeiro, se deu conta da existência de um “universo paralelo" ao pensar em como as pessoas de classes mais altas lidavam com o dinheiro.

“Descobri o universo dos investimentos e as suas possibilidades e surgiu um incômodo. Pensei em como posso traduzir isso a pessoas de onde onde vim”, afirmou a economista, que trabalhava na Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.

Durante a faculdade, ela diz ter encontrado significados para uma série de problemas levantados na discografia do Racionais. No verso da música “Vida loka parte II”, Mano Brown fala do “o olhar do parceiro feliz, de poder comprar o azul, o vermelho, o balcão, o espelho,” — que trata da relação da comunidade negra com o consumo, diz Mendes.

“Isso também é falar de economia”, conta ela, que fundou o projeto em 2018, com o dinheiro da rescisão do seu último trabalho. Atualmente, o projeto tem cinco colaboradores, todos negros, e oferece cursos, palestras, através de uma política de inclusão social, com bolsas a pessoas vulneráveis socialmente.

Alan Soares, do @boletinhos 

Alan Soares, criador do Boletinhos

O publicitário Alan Soares, do Boletinhos, usa linguagem da geração millenial para se comunicar 

Foto: Divulgação

O projeto começou como um trabalho de pós-graduação na área da comunicação. Autodefinido como “pão duro”, o publicitário gaúcho uniu a preocupação em não gastar à ideia de ajudar outras pessoas através das redes sociais. Depois publicar seis postagens, as pessoas começaram a seguir e interagir de forma espontânea, sem divulgação — o que despertou a vontade de Soares de dar continuidade ao trabalho.

O público alvo de Soares são jovens adultos, da geração ‘Z’, que têm preocupação em ter o orçamento doméstico sob controle. A estratégia passa por traduzir, de forma simples, assuntos que alimentam o noticiário econômico — mas que são comunicados, não rararamente, de forma técnica e impessoal.

Três pilares norteiam a produção de conteúdo: estilo de vida econômico, organização financeira e introdução a investimentos.

Sobre o recorte racial, Soares diz que a interlocução não se restringe a pessoas pretas, mas identifica uma importância estratégica em se comunicar com essa parcela da população.

“Empoderar financeiramente a população negra muda a realidade do Brasil como um todo. Essas pessoas não chegam nem a ter acesso a essas informações. Não é só uma questão de falta de dinheiro”, diz.

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Amanda Dias, do @pretagrana 

Amanda Dias

Amanda Dias, do Grana Preta, ajuda a mulheres negras a precificar o valor de seus trabalhos 

Foto: Divulgação

Jornalista de formação, a baiana sentia dificuldade com a matéria de economia. A disciplina era “negligenciada”, segundo ela, na faculdade que cursou no recôncavo baiano. Na prática, tomou dimensão de quão importante era ter uma reserva financeira para se manter, depois de ter tido sua bolsa de estudos suspensa, devido à crise.

Da cidade de Cachoeira, município onde estudava, Dias se mudou para a capital Salvador, onde mora atualmente, e saiu em busca de trabalho. “Nesse processo entendi a importância da educação financeira, de ter reserva, metas e ter sonhos. Comecei a me educar de forma autodidata.”

Após aplicar na prática alguns conhecimentos, economizou para fazer sua primeira viagem da vida, para a Chapada Diamantina, paga com o dinheiro do estágio: R$ 450 mensais. Em paralelo, investia o pouco que poupava em investimentos na renda fixa, como Tesouro Direto.

“Falava muito sobre isso para minhas amigas e identifiquei uma necessidade”, conta. Ainda que não tivesse uma referência de mulher preta que tratasse de investimentos no mainstream, resolveu apostar — mesmo sendo “gorda, periférica e do candomblé”, relata.

O plano deu certo. Em 2019, teve o projeto aprovado em um edital de projetos de impacto social, o Pense Grande, da Fundação Telefônica Vivo junto à Aliança Empreendedora. Hoje o perfil, no Instagram, conta com quase 17 mil seguidores, com o mote “educação financeira para emancipar”, com o foco em mulheres negras, entre 25 e 32 anos.

Ela também oferece cursos e palestras. Entre os principais questão buscadas pelas seguidoras estão: “como cobrar (ou precificar)”, “como organizar o dinheiro”, “como ter dinheiro sobrando” “como ter dinheiro para começar a investir”.

Nathália Rodrigues, do @nathfinancas 

Nath Finanças

Nathália Rodrigues, mais conhecida como Nath Finanças, é um dos rostos mais populares quando o assunto é finanças pessoais para a baixa renda na internet 

Foto: Divulgação

Inspirada por um professor de matemática financeira, a fluminense Nathália Rodrigues, de 22 anos, criou o Nath Finanças, em julho do ano passado. Atualmente com 201 mil seguidores, a estudante de administração de Nova Iguaçu é um dos rostos mais conhecidos quando o assunto é finanças pessoais para pessoas de baixa renda.

Ela não se restringe a falar a pessoas pretas, mas não subestima o valor da representatividade. “No Twitter, principalmente, a maioria que quer tirar dúvidas, são pessoas pretas. No Instagram, 85% são mulheres, e grande parte, pretas — trabalhadoras, como diaristas, auxiliar de serviços gerais, entre outras profissões.”

Segundo ela, falta ainda um grande representante negro com milhões de seguidores, ou mesmo com perfil verificado, que trate de finanças pessoais nas redes sociais.

O ponto fora da curva, mas que trata mais de empreendedorismo é Rick Chesther, que ficou conhecido em 2018 com um vídeo em que ensina vender água, e que tem 1,5 milhão de seguidores. A falta de representantes pretos em volume na área de finanças é justificada, segundo Nath, pelo racismo.

No momento, o assunto que mais tem demandado os perfis de Nath é o auxílio emergencial do governo federal, tema que diz respeito à realidade de muitos de seus seguidores. Para dar conta da criação regular de conteúdo conta com uma equipe de cinco pessoas, incluindo sua mãe, funcionária CLT, que ganha um salário mínimo. Além das atividades do canal, também é colunista do jornal El País Brasil, e prepara, para o fim do ano o lançamento de um livro, ainda sem nome, pela editora Intrínseca. 

Gabriella Safe e Geórgia Barbosa, do @afroricas

Geórgia Barbosa e Gabriella Safe, do Afroricas

Geórgia Barbosa e Gabriella Safe, do Afroricas, têm objetivo de empoderar mulheres pretas através do compartilhamento de saberes e experiências 

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Com o foco em trabalhadoras e empreendedoras negras, o Afroricas nasceu com o objetivo de torná-las autônomas a partir de conhecimentos na área da economia e bem-estar social. O ponto de partida é o entendimento que o contexto social de pessoas pretas é totalmente distinto da maioria das pessoas brancas.

“Sempre levantamos a questão do empreendedorismo preto (…) A maior parte dos empreendedores do Brasil é negra. Mas não significa que elas têm um CNPJ, um fluxo de caixa. É um empreendedorismo pela sobrevivência”, alerta a cofundadora, Georgia, formada em engenharia química.

Segundo a cientista social Gabriella Safe, o foco em mulheres negras é justificado pelo senso de coletividade, que tende a ser maior, assim como os efeitos na economia.

“É muito comum elas se preocuparem em ajudar pessoas próximas: filhos, vizinhos, netos e amigos (…) E fazem parte da pirâmide social, que, se fortalecida com acesso a educação, saúde, emprego. No longo prazo, teremos uma sociedade mais educada como um todo.”

O projeto foi viabilizado por um edital, o Negras Potências, mas hoje caminha com as próprias pernas. A importância, segundo Barbosa, é dar voz a um grupo que, via de regra, não ganha o devido protagonismo, em uma sociedade com “inabilidade de escuta e acomodada em seus próprios privilégios.” “O diálogo está complicado. O país está muito polarizado, e a voz negra não chega em qualquer lugar.”

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