Crédito não chega às PMEs, mesmo com liberação de recursos do governo


Tiago Abech, da CNN, em São Paulo
01 de julho de 2020 às 18:35
Ruas do bairro da Liberdade, em São Paulo, ficam vazias durante quarentena

Ruas do bairro da Liberdade, em São Paulo, ficam vazias durante quarentena: pequenos empresários sofrem para conseguir crédito

Foto: Rovena Rosa - 30.mar.2020/Agência Brasil

Dono de uma loja de colchões em Guarulhos, na Grande São Paulo, Marcelo Bueno De Godoy passou 80 dias com as portas fechadas. Nesse período, o comerciante calcula que deixou de faturar R$ 250 mil. Sem dinheiro em caixa, suspendeu os contratos dos dois funcionários e não conseguiu pagar fornecedores.

Nas contas dele, um crédito entre R$ 40 mil e R$ 50 mil seria suficiente para dar fôlego para a empresa pagar contas básicas e ter capital de giro. Mas o empresário conta que os bancos não estão liberando empréstimos.

“Quando você fica inadimplente, passa a não ter acesso ao crédito. Eu tive cheque devolvido, protesto. A pandemia te fez parar de vender e consequentemente parar de pagar”, desabafa Marcelo.

Pequenas e médias empresas, como a do Marcelo representam mais de 90% do comércio nacional segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). E também são as mais dependentes de crédito, principalmente depois de passarem quase 3 meses sem receita (o comércio no Estado de São Paulo fechou em 24 de março e só começou a reabrir, em algumas regiões, a partir de 1º de junho).

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“Quando essas empresas voltam a funcionar, elas não retornam ao patamar pré-pandemia. Então, a única maneira de sobreviverem é se tiverem acesso ao crédito. É o único jeito de minimizar os efeitos negativos do novo coronavírus no negócio”, avalia o assessor econômico da FecomercioSP, André Sacconato.

O problema, de acordo com ele, é que os bancos veem nas pequenas e médias empresas uma chance alta de quebrar e estão restringindo o acesso aos empréstimos.

Prova disso é uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que, entre 7 de abril e 2 de junho, cerca de 6,7 milhões de empresários tentaram obter crédito, mas apenas 1 milhão (15%) conseguiu os recursos.

A principal razão (19%) para que não tenham tido êxito junto aos bancos foi o CPF negativado. A maioria (41%) dos empresários afirmou ter dívidas em aberto e em atraso, enquanto 32% declararam não ter dívidas e 27% disseram estar com o pagamento de débitos em dia.

Ainda de acordo com o levantamento, os bancos públicos, como Caixa e Banco do Brasil, foram os mais procurados pelos empresários.

Não por acaso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu na terça-feira (30) que os programas para liberação de crédito não foram suficientes para dar conta da demanda. Para o economista da Fecomércio, é necessário que o governo seja mais atuante para que os bancos comecem a repassar os recursos.

“Nos Estados Unidos, o governo garante 100% dos empréstimos. Hoje, é impossível fazer um programa de crédito sem que o governo ofereça as garantias necessárias”, afirma Sacconato.

O economista defende também uma desburocratização na análise dos pedidos de financiamento que, hoje, chegam até 50 dias.

O governo tenta se mexer com o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que prevê a garantia do governo para os empréstimos de até R$ 18,7 bilhões. Segundo o Banco do Brasil, 23 instituições financeiras já demostram interesse no programa.

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