As ações da Oi voltaram a ser uma boa opção de investimento? Analistas opinam


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
03 de julho de 2020 às 09:06 | Atualizado 06 de julho de 2020 às 06:34
Orelhão da Oi

Orelhão da Oi: empresa que era vista como "campeã nacional" não gera mais segurança nos investidores

Foto: Reprodução

Gigante do ramo de telecomunicações, a Oi viu seu valor de mercado derreter nos últimos anos por conta de vários fatores. Houve má gestão e um consequente endividamento da companhia; escândalos políticos que prejudicaram a imagem da empresa; avanços tecnológicos do setor, que tornaram boa parte da infraestrutura obsoleta; e uma consequente recuperação judicial que se arrasta desde 2017.

A derrocada da empresa foi especialmente chocante, pois se tratava de uma "campeã nacional", nome dado às grandes companhias apoiadas pelo governo federal para receber aportes do BNDES e competir globalmente com rivais do setor.

“Muitas pessoas pensavam que seria uma recuperação judicial curta, que a companhia colocaria suas finanças nos trilhos rapidamente, e isso não aconteceu”, aponta Henrique Esteter, analista da Guide. A empresa passou então a ser uma das mais negociadas na B3 (foi a 28ª com mais volume em junho de 2020) e a “despertar amor e ódio dos investidores”, diz Lucas Carvalho, analista da Toro. 

Enquanto alguns investidores viam o papel como um achado, outros faziam piada da situação. “É normal, na situação da empresa, que existam investidores e especuladores apostando nos dois cenários, o que gera burburinho e até memes em torno das possibilidades de alta expressiva das ações ou da sua queda”, explica Cristiane Fensterseifer, analista de ações da Spiti.

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Mas, apesar da grande volatilidade, o ambiente até começou a melhorar, ainda sem efeitos práticos, quando a empresa demonstrou a intenção de vender parte dos seus ativos para investir em fibra ótica, tecnologia que permeará o 5G e a internet de banda larga nos próximos anos. Isso permitiu que o mercado vislumbrasse um caminho para o futuro do negócio. Aí veio a crise do novo coronavírus.

Em março, as ações da empresa chegaram a ser vendidas por menos de R$ 0,50, ganhando o embaraçoso título de ‘penny stock’. Esse nome é dado para ações que são negociadas na bolsa por menos de R$ 1, o que, em circunstâncias normais, pode virar alvo de sanções da B3. A Bovespa obriga as empresas a agruparem suas ações e vendê-las em lotes de 10 caso passem mais de 30 pregões sendo comercializadas neste patamar. O mecanismo foi suspenso durante a pandemia.

Além disso, com um primeiro trimestre do ano trágico para o mercado, os resultados da Oi, empresa com problemas prévios, foram ainda piores. A companhia teve um prejuízo líquido consolidado de R$ 6,25 bilhões no período, contra lucro de R$ 679 milhões nos mesmos três meses do ano anterior. Boa parte disso, afirma Rodrigo Abreu, CEO da marca, foi por conta do câmbio.

“Quando há uma variação tão brusca de câmbio como a que aconteceu no primeiro trimestre, o resultado de qualquer companhia que tem uma dívida com parcela considerável atrelada à moeda estrangeira acaba sendo impactado artificialmente simplesmente por esse movimento”, diz. “Só nisso, foram quase R$ 4 bilhões de diferença de resultado.” 

Mesmo com as justificativas da empresa, os papéis caíram mais 4% neste dia (16 de junho), mas passaram a subir desde então. 

Boa parte disso porque, no dia anterior (15), a Oi divulgou uma proposta de aditamento da sua proposta de recuperação judicial que dá uma cara mais nítida para a ainda distante, mas agora factível, reestruturação da empresa. “Felizmente se entendeu que o impacto real da crise não era da magnitude que se via na desvalorização de ação”, defende Abreu.

Quase três anos depois de pedir RJ, a operadora pretende realizar uma nova assembleia com os credores - prevista para ocorrer em agosto - para obter o aval para realizar mudanças importantes na estrutura da companhia.

O objetivo da Oi é criar quatro unidades produtivas isoladas (UPIs), estruturas que servirão para segregar os ativos e passivos de cada um dos segmentos de telecomunicações em que atua e, com isso, abrir caminho para a venda dessas unidades. As UPIs serão divididas entre redes móveis, torres, data centers e infraestrutura de fibra.

Os recursos obtidos com a venda dos ativos servirão para pagar dívidas remanescentes e levantar o recursos necessários para realizar os investimentos nas redes de fibra ótica, que são apontadas pela direção da Oi como o foco da estratégia daqui em diante. 

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“A valorização das ações depende da aprovação de tal plano e da boa execução do mesmo por parte de seus executivos, fatores que entendemos estarem presentes na companhia nesse momento”, diz Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital. “O segundo semestre de 2020 e o ano de 2021 vão ser cruciais para a Oi”, reforça Esteter.

Mas, como tudo ainda está no planos das ideias, continuaremos por algum tempo vendo uma disputa entre entusiastas e críticos. “Entendemos que se for executada, a divisão de unidades poderá facilitar a venda de ativos, contribuindo tanto para a melhoria na sua estrutura de capital quanto para investimentos. Então, a resposta é sim, visto estes pontos, entendemos que a Oi possa gerar retorno aos acionistas no próximo ano”, diz Carvalho, da Toro. 

Um relatório publicado pela Nord Research segue a mesma linha e projeta uma valorização dos papéis da empresa, mesmo sem ainda estabelecer um preço-alvo. "Em se concretizando nossa estimativa-base, o potencial de retorno em OIBR3 se traduz em mais de duas vezes em um cenário mais pessimista, e mais de três vezes em um cenário mais otimista em relação ao que ela valia na data de divulgação da sua proposta de aditamento do RJ."

Enquanto Fensterseifer, da Spiti, prega por mais cautela. “Como é possível ver, existem muitos “ses” e incógnitas no caminho para isso acontecer de fato. Como tudo ainda está por acontecer, muita coisa ainda pode dar errado. É importante seguir minuciosamente os passos e resultados da empresa e ter noção do risco alto do investimento.”

*Com Estadão Conteúdo

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