Disney reabre parques na Flórida em meio ao aumento de casos de coronavírus

O complexo tem mais de 75 mil funcionários e é visitado por milhões de pessoas todos os anos

Frank Pallotta, do CNN Business, em Nova York
10 de julho de 2020 às 12:02
Personagens da Disney em frente a parque: complexo vai reabrir no sábado (11)
Foto: Aly Song/Reuters (11.mai.2020)

O Castelo da Cinderela ficou em silêncio por 116 dias. Foi esse o tempo que o Walt Disney World se manteve fechado por causa da pandemia de coronavírus. No sábado (11), a Disney receberá visitantes de volta ao seu principal parque temático em Orlando, Flórida, reabrindo um dos pilares do seu negócio.

A Disney (DIS) planeja iniciar uma reabertura em fases no sábado para seus parques Magic Kingdom e Animal Kingdom, seguidos pelo EPCOT e pelo Hollywood Studios em 15 de julho.

Embora a companhia esteja implementando várias medidas de segurança, a reabertura de um parque temático denso e do tamanho da cidade de São Francisco traz riscos, perguntas e críticas num período em que os casos da doença estão aumentando na Flórida.

Mesmo em tempos normais, operar a Disney World não é tarefa fácil. O complexo tem mais de 75 mil funcionários (ou “membros do elenco”, como a empresa prefere chamá-los) e é visitado por milhões de pessoas todos os anos. Somente o Magic Kingdom, que abriga atrações de marcas registradas como o Castelo da Cinderela e a Space Mountain, foi responsável por mais de 20 milhões de visitantes em 2018, de acordo com um relatório da AECOM.

A Disney World é “o coração da marca”, de acordo com Trip Miller, acionista da Disney e sócio-gerente da Gullane Capital Partners. “Quando você pensa em Disney, e acho que isso vale para muita gente, a Disney World imediatamente vem à mente”, disse.

“O ativo mais importante da Disney”

O império de mídia da Disney é vasto. A empresa acumula franquias de filmes que são sucesso de bilheteria, um serviço de streaming popular em ascensão e um canal de TV a cabo forte, a ESPN. Ainda assim, todas essas coisas podem não ser tão vitais para os resultados da empresa no curto prazo quanto seus parques e resorts.

E nenhum parque da Disney é tão essencial quanto o Walt Disney World.

“Ele tem três vezes o tamanho da Disneyland em termos de receita", disse à CNN Business Michael Nathanson, analista de mídia e sócio fundador da Moffett Nathanson, comparando o complexo da Flórida com o da Califórnia.

Nathanson estima que a Disney World sozinha gerou US$ 11,2 bilhões, ou cerca de 16% da receita total da empresa em 2019. “É o ativo mais importante da companhia”, enfatizou o analista.

Com arrecadação de mais de US$ 26 bilhões no ano fiscal de 2019, a unidade de Parques, Experiências e Produtos da Disney foi esmagada financeiramente no último trimestre por causa da pandemia. O lucro operacional do segmento caiu 58% em relação ao ano anterior, e a Disney registrou a perda de 1 bilhão de dólares apenas algumas semanas após a paralisação global.

Segundo Nathanson, a pandemia de coronavírus atingiu todas as áreas de negócios da Disney, mas os parques foram o segmento mais atingido por causa do fechamento.

“A TV é impactada pela falta de produção, falta de esportes, fraqueza na publicidade, cancelamento de assinaturas. Isso não é bom. Tem a unidade de filmes, que possui um ótimo conteúdo, mas não há salas de cinema abrindo no curto prazo. Isso é um problema. E daí vêm os parques, que foram muito impactados pela Covid-19 e fechamentos”, listou. “Portanto, desses três, o que dá para controlar é o negócio no parque. Há controle sobre as questões de segurança, a abertura. Isso está sob controle, para que se possa fazer o que puder lá”.

Apesar dos muitos protocolos de segurança e medidas de saúde da Disney, que incluem a reabertura dos parques com capacidade reduzida e a exigência de que todos os funcionários e convidados usem máscaras, uma coisa que a Disney não pode controlar é o próprio coronavírus.

“Como planejar algo que muda todos os dias?”

O Departamento de Saúde da Flórida relatou mais de 10 mil novos casos de coronavírus na terça-feira (7), elevando o total do estado para mais de 220 mil.

O aumento significativo de casos nas últimas duas semanas levou a abaixo-assinados de funcionários pedindo para adiar a reabertura. O chefe do sindicato que representa os trabalhadores da Disney World alertou que a Disney “precisa fazer direito” a reabertura.

“Para mim, o risco não é apenas um surto potencial nos parques, mas a rápida evolução do vírus”, afirmou o acionista Trip Miller. “Mesmo que a Disney tenha feito todo o possível para combater a disseminação do vírus, o que parece ser o caso, como planejar algo que aparentemente muda todos os dias?”

Bob Chapek, CEO da Disney, disse à CNN Business em maio que seria seguro voltar ao parque.

“Podemos dizer que fizemos todo o possível para abrir os parques com responsabilidade”, afirmou o CEO da Disney na ocasião. “Estamos seguindo a orientação das autoridades de saúde locais, estaduais e nacionais, além de nossos próprios médicos bem qualificados, para criar um ambiente com novos procedimentos operacionais, novas políticas, novos treinamentos e novos padrões de higiene.”

Mas muita coisa mudou desde maio.

Quando procurado para comentar, um porta-voz da Disney indicou uma postagem de blog da doutora Pamela Hymel, diretora médica da Disney Parks. Na mensagem, Hymel garante que a Disney continua “profundamente comprometida” com o bem-estar de visitantes e funcionários.

“Do aumento da limpeza e desinfecção em nossos parques e resorts, à atualização das políticas de saúde e de segurança, reinventamos a experiência da Disney para que todos possamos aproveitar a mágica com responsabilidade”, escreveu Hymel. “Implementamos nossas medidas de saúde e de segurança depois de considerar a orientação do governo e das autoridades locais de saúde”.

“Esse é o futuro da indústria de viagens neste momento”

A Disney World não é o único parque temático a reabrir na Flórida. Outros parques populares, como o Universal Orlando e o SeaWorld Orlando, já receberam visitantes. A própria Disney reabriu alguns de seus parques temáticos no exterior, como o Shanghai Disneyland, em operação desde 11 de maio. A Disneyland, o resort da Disney na Califórnia, também deveria reabrir este mês, mas a companhia adiou essa decisão.

Em Orlando, a questão é diferente. O Disney World não é apenas o parque temático mais popular dos Estados Unidos, mas do mundo inteiro, grande a ponto de dar o tom para toda a indústria do turismo, de acordo com Robert Niles, editor da ThemeParkInsider.com.

“Ele indica o futuro da indústria de viagens neste momento”, comentou Niles. “Nesta fase, o setor inteiro são só destroços... Então, alguém precisa descobrir uma maneira de fazer isso funcionar para o setor sobreviver, e a Disney tem mais recursos do que qualquer outra companhia. Esta é uma oportunidade e óbvia de liderança para a Disney”.

Mas o que o futuro reserva para a Disney e seus parques? Niles não tem certeza.

“Meu melhor palpite é que este é um avanço lento para a Disney”, opinou. “Mesmo que façam o melhor trabalho possível para manter as coisas em segurança, as pessoas ainda precisam chegar lá, ainda precisam ir de avião e os parques ainda precisam de fronteiras internacionais para abrir. Portanto, a Disney está à mercê de muitas outras coisas fora de seu controle”.

Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês