Como a venda da Oi para a Highline pode mudar o setor de telefonia e suas ações


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
23 de julho de 2020 às 15:29 | Atualizado 23 de julho de 2020 às 17:39

O destino da “ex-campeã nacional” Oi pode estar perto de ser traçado. Na noite da última quarta-feira (22) – bem tarde, na verdade –, a empresa de telefonia soltou um fato relevante informando que está negociando exclusividade na venda de sua operação móvel para a empresa Highline do Brasil, que pertence à gestora americana de private equity Digital Colony Management. A exclusividade vai até o dia 3 de agosto, mas pode ser estendida.

O anúncio pegou muita gente de surpresa. Afinal, tudo indicava que uma negociação envolveria as operadoras Claro, TIM e Vivo, interessadas em fatiar a operação de redes móveis da Oi, considerada a joia da coroa da companhia, que passa por problemas financeiros há anos. Os investidores, pelo menos, gostaram: as ações dispararam mais de 16% durante o pregão desta quinta-feira.

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Segundo especialistas, o plano da Highline ao comprar a Oi é utilizar a robusta rede de infraestrutura da empresa para criar uma espécie de “rede neutra”, algo que ainda não existe no Brasil. Dessa maneira, a Oi poderia ceder parte da sua rede para as suas concorrentes utilizarem em áreas onde elas não são fortes. Nas redes móveis, por exemplo, a empresa possui quase 15 mil torres de conexão espalhadas pelo Brasil.

“Seria uma boa alternativa para a Oi e a empresa parece dar um valor maior aos ativos de infraestrutura do que os outros – e poderia usar a rede da empresa para ser usada por outros concorrentes”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco.

A Oi tem uma grande cobertura nas regiões Norte e Nordeste – em alguns estados, possui até uma fatia de mercado maior do que a de suas principais rivais.

Além disso, nada impede de que a Highline, caso realize a aquisição de fato, venda a operação de serviços (excluindo a infraestrutura) depois da compra, a fim de diminuir o endividamento da companha – que é bem alto. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, a dívida bruta consolidada da companhia subiu 34,1%, a R$ 24,4 bilhões. Para piorar, mais prejuízo: R$ 6,25 bilhões de janeiro a março de 2020.

Analistas divergem

Mas, pensando no futuro da empresa, isso poderia ser um bom negócio para a empresa? Ainda é difícil de saber, na visão de analistas ouvidos pelo CNN Brasil Business. Em um relatório divulgado para clientes, o Credit Suisse acredita que Claro, Oi e TIM continuam como favoritos para a compra dos ativos de telefonia móvel. A visão é compartilhada por outros analistas.

“O mais racional seria vender para as concorrentes, mas no caso sempre vale a oferta maior”, diz Pedro Galdi, analista da corretora Mirae. “A Oi precisa de recursos para aumentar a sua estrutura de capital, mas a questão que fica no ar é que a Highline não tem experiência em telefonia móvel.”

Mas uma das avaliações é a de que esse negócio com a Highline pode ser menos problemático para ser aprovado por órgãos reguladores. Explica-se: uma compra conjunta das principais operadoras pela Oi poderia ser barrada tanto na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) quanto no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Com uma novata na área, as chances de o negócio não sair diminuem.

“Esse seria um ponto de receio para a Oi e a companhia já está mostrando bons resultados na área de fibra ótica”, diz Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos.

E o foco na infraestrutura da Highline pode ser muito benéfico para o futuro da Oi, que já vem colocando esse plano em prática com o atual presidente da companhia, Rodrigo Abreu. O crescimento na área de fibra ótica, por exemplo, é muito destacado pelos analistas. No último ano, por exemplo, a empresa já cresceu mais de 700% nesse segmento.

“Uma projeção divulgada no ano passado previa que a companhia pudesse chegar a 4 milhões de usuários em fibra até 2022. Com o aditamento do plano, a ambição cresceu. Queremos olhar para 2025 e ter 7 milhões de casas conectadas com fibra”, disse Abreu em entrevista recente ao CNN Brasil Business.

A maior parte dos analistas, no entanto, ainda não crava se vale a pena ou não comprar ações da empresa – que há algum tempo sofrem com a volatilidade. Além disso, a fotografia atual pode mudar em breve. Mesmo depois do anúncio de exclusividade, o convênio das operadoras pode voltar a fazer uma contraproposta pela divisão móvel de telefonia da Oi. Depois, é claro, a Highline pode fazer uma outra oferta. Logo, o jogo ainda está bem aberto.

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