Vendas online de produtos de luxo crescem durante a pandemia


Bruno Oliveira e Talis Mauricio, da CNN em São Paulo
23 de julho de 2020 às 14:44 | Atualizado 23 de julho de 2020 às 15:59

Na contramão do cenário econômico mundial, prejudicado pela pandemia da Covid-19, o mercado de luxo vem registrando crescimento considerável dos negócios. Segundo uma pesquisa da consultoria Bain & Company, as vendas on-line de produtos como bolsas, joias, vinhos e sapatos estão em alta, e podem representar 30% do mercado até 2025.

Marcelo Abrileri, fundador da Eniwine, clube que comercializa vinhos pela internet, disse que o volume de compras cresceu mais de 100% no segundo trimestre deste ano em comparação aos três meses anteriores. Os preços dos rótulos mais procurados variam entre R$ 40 e R$ 2.800.

"A gente nunca imaginou, quando começaram as notícias da pandemia, que seria bom. Eu achei que muitas pessoas iam segurar o dinheiro, com medo do desemprego. No entanto, para muitas pessoas que têm uma gordura financeira, essas pessoas mergulharam no vinho", comemorou.  

O mesmo vem acontecendo na joalheria Milton Sayegh, localizada na rua Oscar Freire, endereço comercial de luxo em São Paulo. Os leilões online de pulseiras, brincos, anéis e colares estão com alta procura. O que chama a atenção, de acordo com o fundador da empresa, Milton Sayegh, é que muitos clientes estão dispostos a pagar valores elevados pelos produtos.

"Esse ano nós vendemos de 10% a 15% a mais no valor total de joias. E foram vendidas mais peças de alto padrão. A média de vendas do ano passado foi de R$ 6 mil, e este ano está, mais ou menos, em R$ 7 mil por joia", explicou.

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O mercado global de luxo deve cair mais de 20% em 2020, ainda segundo pesquisa da Bain & Company. No entanto, alguns itens do setor, como bolsas, sapatos, vinhos e joias, seguem em crescimento.

Mas o que explica, em meio à uma crise econômica mundial, uma pessoa pagar, por exemplo, R$ 99 mil em uma pulseira de ouro branco com 14 quilates de brilhantes, comercializada na joalheria Milton Sayegh? Segundo especialistas, esse tipo de público não deixou de consumir, apenas mudou a forma de fazê-lo.

"O mercado de luxo, com viagens ao exterior, turismo, restaurantes caros, casas noturnas, entre vários outros, ficou fechado. Não está disponível para o público de luxo. Então, esse público acabou trazendo essa experiência do luxo para dentro de casa. O que está ocorrendo é uma transferência do tipo de consumo", avalia Fabio Mariano Borges, professor da ESPM e sociólogo do consumo. 

Borges explica que o público que faz girar o mercado de luxo tem mais de 35 anos e possui renda familiar a partir de 30 salários mínimos. Não há uma média de valor para que o produto seja considerado de luxo.

"Às vezes ele nem é tão inacessível, mas a pergunta que temos que fazer é: estou disposto a pagar tanto dinheiro? No setor de restaurantes, a gente vai encontrar, por exemplo, um jantar de luxo, por pessoa, de R$ 1.000. Não é um valor que algumas pessoas tenham restrição a pagar. Elas até têm esse poder de compra, mas elas não vão estar dispostas a pagar. Elas vão pensar ‘nossa, mil reais num jantar é muito’. Por isso que é difícil a gente falar em valores de gasto." 

O publicitário Lucas Amadeu é um dos consumidores do mercado de luxo. Enquanto boa parte dos brasileiros corriam atrás do auxílio emergencial do governo, ele comprava uma garrafa de uísque (R$ 3.500), três vinhos (R$ 800 cada) e um par de tênis de uma grife de luxo (R$ 4.500). Segundo Amadeu, essa foi a forma que encontrou para aliviar o estresse psicológico de ficar tanto tempo sozinho em isolamento social. 

"Eu moro sozinho, naturalmente quando você mora sozinho você está mais sujeito ao estresse psicológico da quarentena. E você perde aqueles prazeres, aquelas válvulas de escape. Eu sou um cara que adora viajar, agora não posso mais. Adorava ir a restaurantes, que estão fechados. Então eu precisei encontrar uma forma de me presentar e psicologicamente me manter equilibrado. E você acaba recorrendo às compras", disse. 

Ainda no período da quarentena, o publicitário comprou uma cafeteira por mais de R$ 2 mil, uma assistente virtual (R$ 1.500) e passagens aéreas para o exterior, todas com preços promocionais bem abaixo dos valores comerciais antes praticados. 

Apesar de alguns itens apresentarem resultado surpreendente, principalmente devido às vendas online, o mercado global de luxo só deve retomar o crescimento a partir de 2023, atingindo cerca de 330 bilhões de euros em 2025, segundo a Bain & Company.