Carrefour muda planos por pandemia e está no caminho para lucrar no e-commerce


Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de julho de 2020 às 08:11
Carrefour

Supermercado do Carrefour: o e-commerce disparou durante a pandemia 

Foto: Reuters/Nacho Doce

O varejo alimentar foi um dos segmentos que precisou correr para se digitalizar depois da pandemia de Covid-19. Os resultados do segundo trimestre do Carrefour, divulgados nesta segunda-feira (27), mostram que o esforço da companhia para essa guinada digital trouxe resultados. Talvez o principal deles é que o Carrefour está perto de conseguir tornar a sua operação digital rentável – um sonho de todas as empresas que vendem pela internet e que poucas conseguem.

A explicação começa pelos número fortes de vendas entre abril e junho. Segundo o balanço da companhia, o e-commerce agora é responsável por 7,7% das vendas de alimentos do Carrefour. Antes, no primeiro trimestre, a participação era de apenas 1%. 

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“Nosso e-commerce acelerou três anos em um único trimestre e os resultados são impressionantes. Nosso modelo de negócios está próximo do ponto de equilíbrio (breakeven). Se adicionarmos também os lucros que o e-commerce deixa para nossa instituição financeira, provavelmente já seríamos rentáveis”, diz o relatório. 

Em algumas regiões, a participação do online na venda de alimentos chama bastante a atenção. Curitiba e São Paulo se destacam. Na capital paranaense, o e-commerce alimentar tem penetração de 19%; em São Paulo, a taxa é de 14%. 

Os números do Carrefour representam uma quebra de paradigma para o e-commerce alimentar brasileiro e mostram um avanço sem precedentes do setor na internet. Os 7,7% de participação do online nas vendas de alimentos do grupo ficam acima dos 4,8% de participação do e-commerce em todo o varejo nacional nos patamares pré-crise. 

Além da falta de rentabilidade, os supermercados foram resistentes à digitalização por causa dos altos custos logísticos, especialmente na entrega de itens perecíveis. As margens apertadas, manutenção das plataformas, concorrência a um clique e até demanda por parcelamento tornam tarefa difícil ganhar dinheiro com uma loja online. A pandemia obrigou a empresa a mudar esse pensamento.

As vendas online também foram beneficiadas pela mudança de comportamento dos consumidores que estavam mais receosos de visitar as lojas físicas e aprenderam a confiar no e-commerce. Segundo o Carrefour, houve redução no número de tickets, mas aumento no ticket médio. Ou seja, o consumidor visita as lojas com menor frequência, mas faz compras maiores para abastecer a dispensa. 

O e-commerce não alimentar também apresentou crescimento muito forte, atingindo 52,3%, suportado tanto pelo canal físico quanto pelo online, que em meio a medidas de isolamento social se beneficiaram pela localização dos hipermercados de formato one-stop-shop. Categorias como têxteis e eletrodomésticos aumentaram mais de 60% durante o trimestre. O maketplace da empresa, que consiste na utilização do site do Carrefour para que lojistas terceiros vendam seus produtos, cresceu 157%. 

As vendas online de produtos não-alimentícios têm participação de 31% no total da categoria. “Esses números mostram a importância do nosso negócio online e o peso dele em nosso ecossistema, que está se tornando um participante relevante no e-commerce e está acelerando rapidamente”, diz o relatório. 

Aquisição e fidelização ganham relevância

Durante os meses de maior rigidez das medidas de isolamento social pelo Brasil, o e-commece se ocupou em adquirir novos clientes e preparar as plataformas para atendê-los. Entre abril e junho, 5,7% milhões de brasileiros fizeram sua primeira compra no comércio digital, segundo dados da Neotrust/Compre&Confie. 

No Carrefour, a aquisição de clientes também foi destaque: 60% das vendas foram feitas para clientes novos. Depois de conquistar o consumidor, fidelização foi a palavra-chave: houve aumento de 12 pontos percentuais na taxa de recompra entre novos clientes e crescimento de 11 pontos percentuais para aqueles que já compravam da marca. 

Além do esforço natural para fazer do consumidor um cliente fiel, o Carrefour precisou se preocupar em dobro com aqueles que já havia adquirido. A competição pela carteira do consumidor ficou mais acirrada no primeiro semestre.

Players de peso do e-commerce, como Magazine Luiza e Mercado Livre, também investiram na venda de alimentos. A Uber Eats, braço de alimentação da Uber, entrou no segmento em parceria com a Cornershop. Rappi e iFood ampliaram as vendas de mercado. Fidelizar ficou mais difícil. 

Atacadão segue sendo estrela

Porém, o Atacadão ainda permanece como o braço mais lucrativo do Carrefour. No segundo trimestre, as lojas da bandeira renderam um Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 862 milhões. Enquanto isso, os formatos de varejo, frente que inclui o e-commerce, teve Ebtida de R$ 424 milhões. 

Isso acontece porque o atacarejo caiu no gosto popular. Com vendas em quantidade e lojas organizadas de maneira espartana – sem muitos cuidados com a decoração das unidades e das próprias prateleiras de produtos –, é possível reduzir gastos logísticos e de manutenção. Consequentemente, menores preços e mais consumidores querendo gastar menos durante a pandemia. 

Apesar de dar lucro 100% menor que o Atacadão, a frente de varejo do Carrefour também teve crescimento expressivo dos Ebitda: 78,2% na comparação anual. Enquanto isso, as lojas da bandeira de atacarejo avançaram 28,3% no quesito. 

“As vendas e a rentabilidade tanto no varejo quanto no Atacadão aumentaram fortemente em dois dígitos e as nossas operações de e-commerce apresentaram crescimento impressionante”, disse o CEO do Grupo Carrefour Brasil, Noël Prioux.

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