Dólar a R$ 5,20 e Bolsa em 115 mil pontos: as previsões da XP para o fim de 2020


Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
05 de agosto de 2020 às 16:30 | Atualizado 06 de agosto de 2020 às 10:41
Bolsa de SP abriu estável

Investidor fotografa telão da B3, em São Paulo: Ibovespa pode crescer cerca de 15% até 2020

Foto: Nacho Doce/Reuters

O Ibovespa vai alcançar os 115 mil pontos e o dólar será negociado a R$ 5,20 ainda durante este semestre. Quer dizer, isso se os analistas da corretora XP estiveram certos. A injeção explosiva de estímulos nas principais economias globais e o andamento da agenda de reformas, no cenário interno, são duas das principais razões para a projeção otimista, de acordo com o relatório Panorama de Mercado XP publicado nesta semana.

Na pesquisa, 82% dos assessores entrevistados disseram acreditar que o Ibovespa vai superar os 110 mil pontos até o fim do ano. Já entre os clientes desse público, 38% dos investidores estão interessados em aumentar as aplicações em renda variável — um número expressivo, apesar de representar uma redução de 26 pontos percentuais em relação a junho —, enquanto 55% pretendem manter a carteira de ações como está.

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Em meio ao diagnóstico positivo, o interesse em investimentos internacionais se manteve alto e os fundos imobiliários, multimercados e de renda variável continuam em destaque. Também de olho nos setores que permaneceram aquecidos na crise, a XP revisou ainda sua carteira de recomendações, reforçando a posição de compra de ações do varejo digital e do setor financeiro. Entre as recomendações, estão os papéis de empresas como a Vale, Via Varejo e Banco do Brasil.

O otimismo também vem embalado pela expectativa de que a pandemia de coronavírus recue no mundo (embora os entrevistados não descartem a possibilidade de uma segunda onda) e de que uma vacina contra a doença possa ser aprovada em breve. Ou seja, ainda está tudo muito aberto.

Além disso, existe uma crença de que a economia brasileira deva se recuperar bem dados os “claros sinais de recuperação econômica”, conforme afirma o documento. 

Mas, até agora, os dados da economia real não comprovam essa teoria. Apesar de uma melhora nas tendências e na confiança da indústria e do consumo, demonstrada pela última pesquisa Índice de Gerentes de Compras (PMI), o setor ainda sofre em termos de resultados. O crescimento da indústria de quase 9% em julho não chega nem perto de compensar a perda de mais de 26% entre março e abril, por exemplo.

“Eu concordo que não é um ‘V’ claro e que não é uma recuperação perfeita. Mas a verdade é que os dados têm mostrado uma retomada mais rápida do que os economistas esperavam. É lógico que vai haver impactos de longo prazo e que alguns setores vão sofrer mais, mas o mercado olha muito para o ritmo de melhora, mais até do que os níveis, num momento como esse”, diz o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira.

Outros pesquisadores do mercado também trabalham com esse cenário. “Durante o mês, foram divulgados muitos dados econômicos ainda bastante ruins, mas muitos deles não tão ruins quanto o esperado, o que trouxe otimismo quanto a uma recuperação um pouco mais rápida do que o previsto”, comenta Felipe Silveira, da casa de análises em investimentos Capital Research.

Até agora, o desempenho do mercado de ações, de fato, tem demonstrado uma melhora. Ainda assim, os resultados não inspiram muito ânimo. Se, há cerca de dois meses, a performance da bolsa brasileira era a pior do mundo, agora somos o quinto pior resultado de 2020, a frente dos vizinhos colombianos e de países como Zâmbia e Ilhas Maurício, com mais de 31% de queda no acumulado.

Riscos no radar

Também por isso, analistas e investidores ainda temem a incerteza. A desaceleração econômica global foi apontada por 28% dos entrevistados como maior fator de preocupação neste período. Outros fatores de instabilidade, como a guerra comercial e as crescentes tensões entre as duas maiores potências econômicas do mundo, também foram lembrados na pesquisa. 

Citado por outros 28% dos assessores como principal fator de risco ao longo desse semestre, o conflito entre China e Estados Unidos preocupa pelas eventuais consequências tanto geopolíticas quanto para a economia global como um todo, por conta da codependência dos dois países.

"Não é como a uma guerra fria, porque as potências dependem uma da outra. O que estamos vendo é uma disputa pela hegemonia tecnológica, que vai demorar para muito além das eleições americanas. Isso tem sérias consequências geopolíticas. Hoje, a balança comercial entre EUA e China é mais de US$ 500 bi por ano, a China investe em títulos americanos. A tensão vão ficar alta, mas, no fim do dia, eles precisam chegar a um acordo", analisa o estrategista-chefe da XP.

Apesar dos riscos, na leitura do especialista, o Brasil pode se beneficiar de duas formas dessa disputa. Em primeiro lugar, pode se beneficiar como fornecedor de commodities para o gigante asiático, exportanto proteínas e produtos agrícolas no lugar dos americanos. Em segundo lugar, e no longo prazo, pode se sobressair como alternativa a outros países emergentes nas cadeias de produção.

"Em meio à pandemia, muitas multinacionais perceberam que é arriscado depender tanto de um país só. A China parou completamente por conta da coronavírus e, consequentemente, as cadeias todas pararam. A discussão sobre criar hubs de produção e diversificar fornecedores entre outros emergentes está muito forte", lembra ainda Ferreira.

Reformas

Já no cenário político interno, investidores ainda olham com empolgação para a agenda de reformas. No mês passado, o Ministério da Economia finalmente encaminhou uma proposta para a melhoria no sistema tributário, que segue em análise no Congresso. Apesar disso, as expectativas do mercado quanto a isso são dosadas pela cautela.

A proposta do governo federal, no entanto, foi vista como muito tímida perto das que já estão em tramitação no Congresso. Porém, uma coisa anima o mercado: a volta da discussão das reformas. Segundo Ferreira, a expectativa dele e de parte dos agentes era que esse tipo de pauta só seria discutida em 2021. Ou seja, mesmo que não seja a reforma dos sonhos, a retomada da agenda já é um fator positivo. 

“Todo mundo quer ver a reforma avançando, mas o compasso ainda é de espera, sem grandes expectativas. Do que a gente viu até agora, tem vários pontos que ainda não estão claros: o governo fala em tributação de dividendos, mas não coloca isso na proposta. Tem também a discussão sobre a nova CPMF, e outras questões que poderiam afetar os ativos, mas não está claro como isso vai ocorrer”, explica Ferreira.

Resta, entretanto, uma esperança no aumento da liquidez global. De acordo com o boletim da XP, esse fator foi apontado por 42% dos respondentes como o maior propulsor para a bolsa em 2020. Enquanto as maiores potências econômicas já injetaram o equivalente a mais de US$ 20 trilhões na economia, o que representa cerca de 23% do PIB global, analistas acreditam que esse bolo ainda deve crescer.

A expectativa é de que os estímulos se mantenham, pelo menos, até o fim do ano, especialmente como suporte ao setor de serviços — um dos mais abalados pela crise e que interfere diretamente em dados de desemprego. “Os governos, em todo o mundo, estão com medo de uma espiral deflacionária e querem que a inflação volte. Não na economia real, mas nos preços de ativos”, analisa Ferreira.

Nesse sentido, as eleições americanas também entram como um fator na disputa por “quem ajuda mais”. Nos Estados Unidos (EUA), republicanos debatem um novo pacote de US$ 1 trilhão, enquanto os democratas pedem a aprovação de um plano de pelo menos US$ 3 trilhões. Isso depois de quatro iniciativas já aplicadas pelo governo.

Dólar

Também por conta da impressão massiva de dinheiro americano, a projeção para o dólar é de desvalorização. Depois de encostar no patamar dos R$ 6, em abril deste ano, em pleno auge da pandemia, o dólar finalmente passou a recuar no mês passado. Mas não só frente ao real: o índice que mede o preço do dólar em relação a uma cesta de outras moedas perdeu 4% em valor.

Ao mesmo tempo, o euro se valorizou 4,8% no período, e as moedas de mercados emergentes subiram 1,4% frente ao dólar. Ou seja, as comemorações no câmbio não se devem à valorização, mas sim ao recuo do dólar, que perde força. Para Ferreira, estrategista-chefe da XP, o equilíbrio deve ficar no patamar dos R$ 5 pelos próximos meses.

"O Fed já imprimiu muito mais dólar do que qualquer outro banco central. Isso deveria pressionar o dólar, mas só agora a gente começou a ver esse movimento", explica. E ressalta também a questão da remuneração. "O dólar estava apreciado demais, tinha crescido muito contra todas as outras moedas. Agora, com as economias da Ásia e Europa se recuperando, ao mesmo tempo em que o Fed corta a taxa, há uma perda no diferencial de juros", diz.

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