Goldman Sachs: 'verdadeira' taxa de desemprego em junho no Brasil é 22,8%


Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
07 de agosto de 2020 às 11:44
rua de comércio popular em São Paulo durante pandemia de Covid-19

Pessoas com máscaras faciais caminham em rua de comércio popular em São Paulo durante pandemia de Covid-19

Foto: Amanda Perobelli/Reuters (15.jul.2020)

Os dados sobre o desemprego no país coletados pelo IBGE podem não refletir a realidade de fato. Um relatório do Goldman Sachs, divulgado na quinta-feira (6), calcula que a “verdadeira” taxa de desemprego no país em junho chegaria a 22,8% — e não 13,3%, como mostra a PNAD — se a mão de obra economicamente ativa não tivesse diminuído no mesmo período. 

E o banco explica o motivo: em junho, a força de trabalho em atividade recuou 9,4% em relação ao mesmo mês do ano passado — uma queda de 6,8 pontos, de acordo com o relatório. Além disso, no mês, houve um aumento de mais de 20% no contigente de pessoas com idada para trabalhar, mas que estão sem emprego. "Isso representara 13 milhões a mais de pessoa desocupadas, quando comparado com o memo período de 2019", aponta o documento. O que inflaria o dado apresentado pelo IBGE.

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Outro ponto que chama atenção da multinacional americana é que, mesmo entre os que permanecem em atividade, o banco calcula que mais de um quarto da força de trabalho ativa está sendo subutilizada, o que representaria 28%. Esse dado inclui os desempregados que procuram ativamente um emprego, os “parcialmente desempregados” e ainda as pessoas que já desistiram de procurar emprego.

Para o Goldman Sachs, o principal fator de influência é a própria crise, que atinge empresas de forma generalizara. O número de vagas caiu em 10,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, dado que representa 10 milhões de empregos a menos, mesmo com o amortecimento da criação de 700 mil vagas no setor público. 

Também por isso, a taxa de participação no mercado de trabalho recuou 56,8% — ou 680 pontos, comparada a 2019. Esse declínio, explicam os analistas, reflete o fato de que muitos dos desempregados não estavam procurando ativamente um emprego, justamente por conta das medidas de isolamento social. A dificuldade de encontrar uma vaga na área em que gostariam de trabalhar também foi apontada como motivo.

Ainda de acordo com o documento, as classes mais baixas da população saem mais prejudicadas nessa crise. É possível perceber isso pelo cálculo da média salarial, que cresceu em 6,9% durante o mês de junho, já que a maioria das pessoas que perderam o emprego foram trabalhadores com salários abaixo da média, geralmente informais.

Força de trabalho potencial

O próprio IBGE reconhece que o número de desempregados pode ser o dobro do divulgado pela última PNAD, por uma questão metodológica. No segundo trimestre de 2020, a chamada “força de trabalho potencial” alcançou um novo recorde de 13,5 milhões de pessoas, superando pela primeira vez na história o total de desempregados, que foi de 12,7 milhões.

Isso porque a taxa de desempregados não considera essas pessoas da força potencial, que inclui os que realizaram busca efetiva por trabalho, mas não se estavam  disponíveis para trabalhar na mesma semana e também os que não procuraram ativamente por uma vaga, mas que gostariam de ter uma ocupação e estavam disponíveis para começar a trabalhar na semana da pesquisa.

Além disso, a forma como são contabilizados os “desalentados” — desempregados que precisam de um trabalho mas desistem de procurar emprego — ainda pode estar distorcida. Esse contingente atingiu um ápice de 5,6 milhões no segundo trimestre do ano, mas o número poderia ter sido ainda maior se a pesquisa considerasse pessoas que afirmam não estar procurando emprego por “outros motivos”, uma das opções no interrogatório, e não apenas as que desistem por desacreditarem no mercado. 

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