Renda sobe, poupança dispara: a peculiar recessão da pandemia no Brasil


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
19 de agosto de 2020 às 15:27 | Atualizado 20 de agosto de 2020 às 12:15

O Brasil terá vivido em 2020 uma das piores recessões de sua história. A queda do PIB no ano deve passar dos 5%, fortemente impactada pelos reflexos da pandemia do novo coronavírus nos negócios, no emprego e na renda. As piores quedas de que se tem registro, nos anos 1980 e 1990, tinham sido na ordem de 4%. 

A crise deflagrada por uma doença, entretanto, tem efeitos bem próprios e que a deixam bastante diferente das outras.  

O choque do distanciamento social e a injeção de auxílios sem precedentes acabaram criando fenômenos estranhos aos manuais de economia: a renda total está crescendo, mesmo com o emprego caindo. E o consumo está caindo, mesmo com a renda crescendo. 

Leia também:
Auxílio foi essencial para amortecer queda do PIB; dilema é quando acabar
Demissão de informais é o dobro de formais e quem ganha menos perdeu mais
Governo estuda auxílio emergencial até dezembro

Loja

Loja limita entrada de clientes em meio à reabertura gradual do comércio e serviços por conta da pandemia de coronavírus

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Contra todas as possibilidades, a massa de rendimentos está conseguindo a façanha de ficar maior basicamente por conta das ajudas bilionárias do governo, caso do auxílio emergencial de R$ 600, dos saques extraordinários do FGTS e da complementação de salário dos que tiveram jornada reduzida. No conjunto total, esses auxílios, de um lado, mais que compensaram as perdas de salários do outro.  

Outro fenômeno bastante peculiar desta crise antes sanitária que econômica é que, na média, as pessoas estão poupando mais – e bastante mais – do que antes, sendo que o esperado em uma recessão é que elas queimem as reservas, e não aumentem.  

O nível de poupança das famílias, o quanto elas guardam em relação ao que ganham, pode ter mais do que dobrado nas estimativas de alguns economistas. O problema é que dinheiro que vai para a poupança, por definição, é dinheiro que deixou de ir para o consumo. E se o consumo cai, o PIB também cai. 

O efeito do medo e da incerteza é uma das razões naturais para isso e quem pode deixa uma reserva extra "no colchão". Mas, para muitos, há uma parte de economia forçada também, já que as idas a serviços e comércios foram reduzidas e, para os que podem trabalhar de casa, gastos como transporte ou alimentação em restaurantes ficaram zerados. Tudo isso é renda que está sendo guardada em vez de usada. 

Mais isolamento que falta de renda

“Há sinais muito fortes de que as causas da crise estejam muito mais ligadas a restrições por conta do isolamento do que por restrições de renda”, disse o economista do Itaú Unibanco Luka Barbosa. “A renda e o consumo geralmente andam juntos, mas, neste ano, há uma quebra entre eles, porque teve esse aumento da poupança, essa parte da renda que não está sendo gasta."  

Nas projeções do Itaú, a renda total deve crescer 1% neste ano, mas o consumo das famílias deve cair 4%. Será a primeira vez que um vai andar para baixo enquanto o outro sobe. O PIB, na estimativa do banco, cairá 4,5%. 

Um forte indício desse represamento de dinheiro, de acordo com Barbosa, está no fato de que serviços como bares, restaurantes, hotéis ou salões de beleza estão ainda andando bem devagar, mesmo com várias frentes do comércio e da indústria já começando a retomar os patamares pré-crise. Os serviços são as atividades que mais dependem da presença física do consumidor. 

Alguns setores já estão até mais fortes hoje do que antes da crise, caso do crédito imobiliário. “Não faz sentido que essas pessoas tenham dinheiro para comprar casa e carro e não tenham para ir ao restaurante ou a um hotel”, disse Barbosa.  

Nível de poupança dobrou 

Enquanto alguns gastos minguam, as economias estão disparando. Não à toa, as cadernetas de poupança estão recebendo aplicações recordes nos últimos meses.  

“A poupança das famílias gira historicamente entre 11% e 13% da renda e, em junho, chegou a 24%”, disse Barbosa. Na média do segundo trimestre, essa taxa foi de 18%, nas estimativas do Itaú. Quer dizer, é como se as pessoas tivessem chegado a guardar um quarto de tudo o que receberam.  

Os números, entretanto, mostram apenas o retrato amplo, que é como eles chegam ao PIB: a massa de renda é a soma de tudo que as pessoas ganham, bem como o volume poupado considera a soma de tudo que foi guardado. Não significa necessariamente que sejam fenômenos comuns a todos os brasileiros.  

Leia também: 
Nem trabalho, nem auxílio emergencial: os “nem-nem” do coronavírus

“O mais provável é que tenha uma parte grande da população guardando zero e se endividando enquanto outra está poupando”, disse Barbosa. “Talvez não seja um número maior de pessoas, mas, em volume de dinheiro, a participação do que elas têm é grande.”  

Também provável é que esse grupo de superpoupadores de ocasião esteja concentrado especialmente nas classes de rendas mais altas. São elas que têm mais trabalho formal, mais emprego preservado e que podem trabalhar de casa. São elas também que costumam gastar mais com serviços, como salão de beleza, passeios ou viagens – justamente as categorias nas quais estão os gastos mais represados pelo distanciamento social.

No caso do aumento da renda, por outro lado, o fenômeno tende a estar mais concentrado nas classes mais baixas, que é para onde foi o grosso dos benefícios extras via auxílio emergencial.

Salário cai 5%, auxílios crescem 47%

“Uma parte bem importante da demanda foi segurada pelo auxílio emergencial”, disse o economista Cosmo Donato, analista de mercado de trabalho da LCA Consultores. 

Projeções feitas pela consultoria estimam que a renda total do país - a soma de tudo o que as pessoas recebem com o trabalho e com benefícios - deve sair 5% maior neste ano que no ano passado, mesmo com as demissões disparando e milhares de empreendedores tendo ficado com as vendas à mingua.

Pelas contas, a renda do trabalho – de salários ou serviços prestados, por exemplo – deve perder R$ 113,1 bilhões, queda de 5,6% na comparação com o ano passado.  

Por outro lado, os benefícios pagos durante a pandemia devem colocar R$ 253 bilhões a mais diretamente no bolso das pessoas, sendo quase R$ 200 bilhões só do ‘coronavoucher’. É esse o valor estimado para as 5 parcelas de R$ 600 a R$ 1.200 do benefício que estão indo para mais de 50 milhões de pessoas de baixa renda.  

É um aumento de 41% sobre o total dos benefícios pagos no ano passado. Esta parte da renda é geralmente formada por repasses como aposentadorias, seguro-desemprego e programas como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). 

“Além do auxílio, há a perspectiva de liberação de R$ 47 bilhões em saques do FGTS e um aumento também nos benefícios do INSS [Instituto Nacional de Seguridade Social], com mais pessoas se aposentando", disse Donato, da LCA. "Tudo isso colabora para a massa de renda acabe crescendo neste ano.”  

Clique aqui para acessar a página do CNN Business no Facebook