Walmart se junta à Microsoft para tentar comprar o TikTok


Brian Fung, do CNN Business, em Nova York
27 de agosto de 2020 às 16:18 | Atualizado 27 de agosto de 2020 às 17:56

O Walmart está fazendo uma parceria com a Microsoft na tentativa de comprar o TikTok. O aplicativo de vídeo de formato curto busca um comprador nos Estados Unidos em meio a uma intensa investigação política.

A gigante do varejo disse ao CNN Business na quinta-feira (27) que está participando das negociações com a Microsoft sobre um possível acordo. A CNBC foi a primeira a relatar as conversas das duas empresas.

O Walmart disse que seu interesse no TikTok deriva da maneira como o aplicativo “integrou recursos de e-commerce e publicidade em outros mercados” e pode aumentar seu acesso aos consumidores.

Leia também:
CEO do TikTok, Kevin Mayer deixa cargo após ameaças de Trump ao aplicativo
TikTok: 'não temos escolha a não ser processar o governo Trump'

“Acreditamos que um relacionamento potencial com o TikTok US, em parceria com a Microsoft, poderia adicionar esta funcionalidade chave e fornecer ao Walmart uma forma importante de alcançarmos e atendermos clientes omnichannel, bem como expandir nosso mercado de terceiros e os negócios de publicidade”, disse o Walmart em um comunicado.

“Estamos confiantes de que uma parceria entre o Walmart e a Microsoft atenderia às expectativas dos usuários do TikTok nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, às preocupações dos órgãos reguladores do governo dos Estados Unidos”,

O anúncio vem horas depois do anúncio de demissão do CEO do TikTok, Kevin Mayer. O aplicativo de vídeos enfrenta críticas do presidente Donald Trump por ser propriedade de uma empresa chinesa, a Bytedance.

“Nas últimas semanas, com a mudança drástica no ambiente político, fiz uma reflexão significativa sobre o que as mudanças estruturais corporativas exigirão e o que isso significa para a função global com a qual me comprometi”, disse Mayer em um memorando aos funcionários que foi obtido pela CNN Business.

“Neste contexto, e como esperamos chegar a uma resolução muito em breve, é com o coração pesado que informo a todos que decidi deixar a empresa”. 

Em sua carta, Mayer disse esperar "uma resolução muito em breve" – uma frase indicando que um acordo poderia ser alcançado na próxima semana, de acordo com uma pessoa a par das negociações.

O TikTok contratou Mayer, um ex-alto executivo da Disney, há menos de quatro meses para cuidar do aplicativo, o primeiro de propriedade de uma empresa chinesa a ganhar força significativa nos países ocidentais. Além de CEO, Mayer também se tornou diretor de operações da ByteDance, empresa controladora do TikTok.

No entanto, desde então, o TikTok está sob o fogo cerrado do governo dos EUA, e Trump tem ameaçado banir o aplicativo caso ele não seja vendido pela ByteDance.

“Reconhecemos que a dinâmica política dos últimos meses mudou significativamente o escopo do papel de Kevin no futuro e respeitamos totalmente sua decisão”, escreveu um porta-voz do TikTok em um comunicado.

Em seu próprio memorando aos funcionários, o fundador da ByteDance, Zhang Yiming, disse que entendia “que as circunstâncias políticas nas quais operamos podem ter um impacto significativo no trabalho [de Mayer] em qualquer cenário”.

Zhang disse que Mayer falou com ele antes de deixar o cargo e que deseja o melhor ao executivo. 

“Quero que todos vocês saibam que realmente aprecio as horas intermináveis que você trabalhou conosco, silenciando o ruído ao nosso redor para nos concentrarmos em nossa missão e no que estamos construindo para aqueles que dependem de nossa plataforma”, escreveu Zhang.

“Toda a equipe está fazendo um trabalho incrível, competindo de forma eficaz contra algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo para conquistar os corações e mentes dos usuários e marcas, oferecendo uma experiência online verdadeiramente única”.

Mesmo antes de Trump emitir decretos presidenciais pedindo a proibição do TikTok, a empresa já vinha repensando sua estrutura corporativa. O Wall Street Journal revelou no início de julho (citando uma fonte familiarizada com o assunto) que a ByteDance estava pensando em estabelecer uma sede para o aplicativo de vídeo fora da China ou ter um novo conselho de administração para distanciar o serviço do país.

Um porta-voz do TikTok disse à CNN Business na época que a empresa estava “avaliando mudanças”.

A saída de Mayer é um “grande revés para a empresa”, disse Edith Yeung, que passou anos investindo em empresas chinesas com o fundo de capital de risco 500 Startups. Ela é sócia da Race Capital, hoje investindo principalmente em empresas norte-americanas.

“Um líder não pode abandonar o navio no momento mais crítico para uma empresa”.

De acordo com os decretos presidenciais de Trump, o TikTok representa uma ameaça à segurança nacional porque o aplicativo coleta muitos dados sobre os usuários, o que “ameaça permitir que o Partido Comunista Chinês tenha acesso às informações pessoais e reservadas dos norte-americanos”.

O movimento contra o TikTok é parte de uma guerra crescente de tecnologia entre os EUA e a China que já enredou outros aplicativos e empresas de tecnologia chinesas, como o WeChat e a Huawei, de propriedade da Tencent.

O TikTok processou o governo Trump por causa do primeiro decreto presidencial, chamando-o de "fortemente politizada". A empresa disse que a ordem de Trump se baseia ilegalmente em leis de emergência de maneiras que não se aplicam ao TikTok.

Além disso, o TikTok explicou que armazena dados sobre seus usuários norte-americanos nos Estados Unidos e em Cingapura e que recusaria qualquer pedido do governo chinês sobre dados de usuários norte-americanos.

O TikTok tem 100 milhões de usuários nos Estados Unidos. A empresa está avaliando a venda de seus negócios no país – que, segundo especialistas do setor, valem entre US$ 40 e US$ 50 bilhões – para a Microsoft e, segundo consta, para a Oracle também.

A Microsoft disse que está estudando um acordo para comprar as operações do TikTok no Canadá, Austrália e Nova Zelândia, bem como os negócios nos Estados Unidos.

“A posição que assumi – incluindo dirigir o TikTok globalmente – ficará muito diferente como resultado da ação do governo dos Estados Unidos de pressionar pela venda dos negócios dos EUA”, relatou Mayer no comunicado aos funcionários. “Sempre estive focado globalmente em meu trabalho. Liderar uma equipe global que inclui o TikTok US foi um grande atrativo para mim."

A ByteDance lançou a versão chinesa do TikTok, chamada Douyin, em 2016. A versão internacional estreou no ano seguinte e cresceu para se tornar um dos aplicativos de mídia social mais populares do mundo. Em julho, o TikTok disse que tinha quase 690 milhões de usuários ativos mensais globais.

O número fica longe dos 2,7 bilhões de usuários ativos mensais do Facebook, mas o aplicativo também é consideravelmente mais jovem que seu rival norte-americano. Em agosto de 2020, o TikTok disse ter ultrapassado dois bilhões de downloads globais.

De acordo com o comunicado de Mayer, Vanessa Pappas, a ex-executiva do YouTube que ingressou no TikTok no ano passado para se tornar gerente geral da América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, atuará como chefe interina do TikTok globalmente.

Pappas tuitou na quinta-feira (27) que se sentia “orgulhosa e humilde” ao assumir seu novo papel.

“É realmente incrível o que conquistamos em dois anos, não tenho dúvidas do que poderemos realizar nesse próximo capítulo!”, exaltou-se.

Se Mayer tivesse resistido, “ele estaria comandando uma das maiores empresas de mídia social do mundo”, opinou a consultora Yeung, embora tenha acrescentado que "nenhum norte-americano o culparia por desistir".

“Eu gostaria que ele aguentasse firme. Ele poderia mudar o curso da história na relação envolvendo tecnologia entre China e EUA. Mas, fazer o quê?”

Sara Ashley O'Brien, da CNN Business, contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)

Clique aqui para acessar a página do CNN Business no Facebook