BC não cortará juros antes de adaptação do setor financeiro a novo cenário


Isabel Versiani, da Reuters
04 de setembro de 2020 às 14:24 | Atualizado 04 de setembro de 2020 às 14:24
Fachada do Banco Central

Prédio do Banco Central, em Brasília: novo corte de juros só ocorrerá quando houver a certeza de que o setor financeiro está sólido

Foto: Adriano Machado/Reuters

O Banco Central só promoverá novo corte de juros depois de avaliar que o sistema financeiro está bem adaptado ao cenário de juros baixos, afirmou nesta sexta-feira o diretor de Política Econômica da autarquia, Fabio Kanczuk, frisando que a postura era de cautela.

"O comitê tem que ter a confiança de que o sistema financeiro já está adaptado à nova situação de juros bem mais baixos, então está parando para observar, notar que tudo está funcionando de forma sólida", afirmou, ao ser questionado sobre o que determinaria uma nova redução da Selic, hoje em 2%.

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Kanczuk frisou que a autoridade monetária está acompanhando o funcionamento do sistema financeiro de perto e não detectou nenhum problema, mas entende que deve atuar com cuidado, diante das implicações do novo patamar de juros baixos para os produtos de investimento e o setor financeiro como um todo.

"É mais uma questão de cautela, de conservadorismo, a gente prefere ir devagar mesmo", disse.

"Pode ter queda de juros? Pode. É provável? Não, a gente também colocou isso na ata (da última reunião do Copom), a barra para queda de juros é muito mais alta do que era antes, por questões prudenciais", acrescentou.

O diretor também afirmou que o Banco Central só avaliaria recorrer à compra de títulos (quantitative easing) em caso de disfuncionalidade do mercado, e não vê a alternativa, já autorizada pelo Congresso, como um instrumento de política monetária para estimular a economia.

Manutenção dos juros

Ainda na live do jornal Valor Econômico, Kanczuk destacou que o compromisso feito pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em sua última reunião de não elevar os juros é condicionado à manutenção da regra do atual regime fiscal, que inclui o mecanismo do teto de gastos, de forma que, mesmo que um eventual desarranjo fiscal se desse em um cenário de inflação baixa, os juros poderiam voltar a subir.

"(Se) você entra em uma situação em que o teto foi rompido, mas você ainda não tem uma visão clara de que a inflação vai subir, a cláusula fala que não importa. Mesmo que eu esteja obtendo inflações baixas por enquanto, se eu não tiver o fiscal em ordem, eu não quero ter o compromisso de manter o estímulo monetário", afirmou o diretor.

"Eu sei que, se eu não tiver o fiscal em ordem, minha confiança nas projeções de inflação, no meu próprio modelo, cai muito, eu sei que em algum momento vai dar em inflação isso, não tem saída", acrescentou.

O Copom adotou no mês passado o chamado "forward guidance" (orientação futura), por meio do qual se comprometeu a não elevar os juros à frente. O compromisso foi condicionado à manutenção do atual regime fiscal, à ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo e às expectativas e projeções para a inflação nos anos de 2021 e 2022.

Kanczuk afirmou que essa nova ferramenta de política monetária não tem data para acabar, mas que é um instrumento temporário. Ele frisou que, diferentemente de outras economias, o Brasil ainda não está em um estágio de vislumbrar inflação estruturalmente baixa por um período prolongado.

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