Ação da Vale pode subir 48% com avanços no ESG pós-Brumadinho, dizem analistas


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
09 de outubro de 2020 às 05:00
Brumadinho barragem

Desastre de Brumadinho, em 2019: segundo analistas, a Vale avançou na agenda ESG após seguidas quebras de barragens 

Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil

Apesar de ter passado não por um, mas dois acidentes de grandes proporções com suas barragens em 2015 e 2019, a mineradora Vale (VALE3) está entrando com força nas recomendações de investimentos de vários analistas. 

De um lado, está o reconhecimento dos esforços da companhia no sentido de melhorar sua imagem e seu comprometimento com segurança após os acidentes de Mariana e Brumadinho.

Do outro – e principalmente – pesam as perspectivas de que o preço de seu principal produto, o minério de ferro, deve seguir em alta pelo menos até 2021 e gerar bons resultados para a empresa e também para seus acionistas. 

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A mineradora é destaque de recomendações em relatórios aos clientes enviados nesta semana pelos bancos Bradesco (BBDC3 e BBDC4), BTG Pactual (BPAC11) e Inter (BIDI3 e BIDI4). Eles acreditam que as ações da companhia têm potencial para chegar até os R$ 91, o que significa uma alta de 48% ante os R$ 61,29 do fechamento desta quinta-feira (8). 

O Bradesco revisou a projeção de R$ 85, na avaliação anterior, para R$ 90 agora. O preço-alvo do Inter é de R$ 91. O BTG fez a projeção para as ADRs da companhia, que são seus papéis listados na bolsa de Nova York. Eles têm potencial para chegar a US$ 14 nos próximos 12 meses, na visão do banco, alta de 27% sobre os US$ 11 do último fechamento.

Pesa a favor da expectativa de alta o fato de que o preço da Vale nas bolsas está ainda muito barato tendo em vista as altas consistentes do minério de ferro e também o quanto as principais concorrentes se valorizaram nesse meio tempo. 

“A Vale está sendo comercializada com um desconto de 40% em comparação a seus pares australianos”, escreveu o Bradesco em seu relatório. A medida leva em consideração o valor de mercado da empresa em relação ao Ebitda, que é uma medida do quanto ela gera de caixa (EV/Ebitda). Quanto menor o preço dela no mercado em relação ao que ela tem de resultados, mais barata está a empresa. 

Para muitos analistas, esse desconto da Vale em relação às outras gigantes globais da mineração, como Anglo American, Rio Tinto e BHP, e em um período em que o preço do minério disparou, já é resultado do passo atrás que os investidores deram em relação a ela após a sucessão de acidentes

Em abril deste ano, por exemplo, o fundo soberano da Noruega, o principal do país, cortou a mineradora de sua lista de investimentos, por conta dos riscos ambientais e potenciais novas perdas de valor no mercado com isso. 

“Vemos um esforço contínuo da empresa para recuperar sua imagem junto à sociedade após os acontecimentos de Mariana e, mais recentemente, Brumadinho”, escreveu o banco Inter em seu relatório, mencionando a criação recente pela Vale de um portal ESG, sigla em inglês para as iniciativas de gestão voltadas para meio ambiente, sociedade e governança. 

Redução das emissões de carbono, aumento da participação de mulheres nas equipes e estruturas mais rígidas de cumprimento às normas (compliance) estão entre as novas metas da Vale mencionadas pelo Inter. 

“Com inúmeros questionamentos sobre sua lucratividade e o quanto disso retorna para a sociedade, a Vale se comprometeu em entregar resultados, porém sem abrir mão da responsabilidade que uma companhia de sua magnitude tem para com a sociedade”, diz o texto. 

“A Vale deu muitos detalhes e exemplos de sua preocupação com segurança, de esforços contínuos de reparação e de transformação cultural”, afirmou o BTG, mencionando as lives frequentes que o alto escalão da mineradora têm feito com investidores para falar de suas iniciativas ESG. 

“Está mudança de percepção pode ainda levar algum tempo, mas acreditamos que a gestão está na trilha de fazer uma empresa mais segura e confiável.” 

Os riscos

Colocar o alvo nos R$ 90 não significa, entretanto, que não haja riscos e imprevistos no caminho que possam turvar a expectativa. É sempre importante que os investidores tenham esse lado em conta quando decidir com quais empresas vai deixar seu dinheiro.

Em seu relatório, o Inter cita, entre outros, a possibilidade de desaceleração da economia chinesa (maior compradora da Vale), quedas não previstas no preço do minério de ferro, maior aperto regulatório sobre a mineração no país, e também a possibilidade de o discurso ESG da companhia não vingar, "o que poderia comprometer sua imagem junto à sociedade e aos investidores". 

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