Flexibilização de política fiscal pode afastar investidores, diz Campos Neto


Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
13 de outubro de 2020 às 22:57

A política fiscal do Brasil é hoje o tema que mais aflige investidores estrangeiros interessados em aportar recursos no país e pode afetar a atração de investimentos para os próximos anos, disse à CNN nesta terça-feira (13) o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

"Qualquer solução que passe a percepção para o investidor de que nós estamos mudando o regime fiscal ou estamos fazendo de uma forma que vamos levar muito mais tempo para atingir uma convergência fiscal, eu acho que vai refletir nos mercados, na credibilidade do pais e, por consequência, na vontade dos investidores de aplicarem recursos", disse o presidente do BC.

A questão colocada a Campos Neto, na entrevista ao âncora William Waack e à analista Raquel Landim, era a possibilidade de as medidas emergenciais para o orçamento e o teto de gastos serem prorrogadas para além de dezembro de 2020.

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O presidente ponderou que o BC "não faz política fiscal, mas usa as variáveis no dia a dia para a tomada de decisão".

Ele afirma que o adiamento da discussão de reformas pelas eleições municipais de 2020 não é problema, caso a sinalização sobre o rumo seja mantida.

"O importante não é o tempo, mas sim a incerteza que gera, sobre como vai ser a nossa convergência fiscal daqui para frente", argumenta.

O que é política fiscal?

Quando o presidente do BC Roberto Campos Neto fala em política fiscal, está em debate o controle das contas públicas, principalmente o déficit público e a evolução da dívida.

Na visão do presidente do BC, o Brasil "já tem uma fragilidade fiscal muito grande" e uma "situação de dívida muito elevada comparada à média do mundo emergente".

Na prática, isso significa dizer que investidores externos temem a sustentabilidade das contas brasileiras e os impactos para eventuais investimentos que façam no Brasil.

Um dos reflexos no horizonte é o câmbio, com uma saída de recursos derivada dessa situação, dos juros mais altos, e como apontou Campos Neto, também da questão ambiental.

"O Banco Central usa as variáveis de fluxo, de entrada e saídas no país, como instrumento de política. E o que começou a ficar mais aparente, e eu venho falando isso há um tempo, é que essa percepção em relação à tudo que é uma agenda de sustentabilidade, às vezes pela narrativa, às pelo que tinha acontecido, fato é que essa percepção estava fazendo com que os fluxos não estivessem voltando na mesma proporção que outros países emergentes", disse.