Dólar está 38% acima do ideal e descolamento é o maior desde 1999, diz pesquisa


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
26 de outubro de 2020 às 05:00
Notas de dóalr

Pesquisador da FGV estima que taxa de câmbio ideal seria de R$ 3,90 no 2º trimestre

Foto: Giorgio Trovato/Unsplash 

Com um valor médio de R$ 5,40, considerado o desempenho no segundo trimestre de 2020, o dólar está 38% acima do que seria o seu valor “ideal” em relação ao real – uma cotação de R$ 3,90, de acordo com cálculos feito pelo economista Livio Ribeiro, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV). Na sexta-feira (23), a moeda fechou valendo R$ 5,62.

O desvio entre a taxa de câmbio de equilíbrio e a taxa que de fato acontece mostra que o real está extremamente subvalorizado, isto é, está valendo bem menos em relação às outras moedas do que o que seria o seu preço justo. 

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Trata-se do maior descolamento cambial de que se tem notícia no Brasil desde o início do regime de câmbio flexível, em janeiro de 1999. A alta excessiva ultrapassa, inclusive, o último grande episódio de disparada do dólar por que o Brasil passou: a primeira eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.

O medo de um governo do candidato de esquerda fez o dólar sair de R$ 2 para bater os R$ 4 pela primeira vez em poucos meses. No último trimestre de 2002, quando a moeda atingiu o pico, o descolamento entre a taxa de câmbio ideal e a real chegou a 33%, de acordo com Ribeiro. São cinco pontos menos do que os 38% do desvio atual. À época, a taxa média ficou em R$ 3,54, para uma cotação que, em equilíbrio, deveria ser de R$ 2,67.  

“Que o câmbio tem se comportado mal a gente sabe, não precisa nem calcular; basta observar o comportamento do real em comparação à moeda de outros países parecidos”, disse Ribeiro. “O que não sabíamos era o tamanho desse desalinhamento e como ele se compara a outros momentos.” Em 2020, o real é a terceira moeda do mundo que mais perdeu valor em relação ao dólar

“É evidente que são momentos muito distintos [2020 e 2002]. Lá tínhamos um governo à esquerda, hoje temos um governo à direita e uma pandemia”, diz o pesquisador. “Mas em ambos pairam muitas dúvidas em relação à mudança na direção da gestão econômica e há muita incerteza de para onde as coisas vão andar.”

Exportações valendo pouco

Não há uma metodologia única para estimar qual seria a taxa de câmbio de equilíbrio de uma economia, mas, de maneira geral, é aquela que não dá vantagem nem aos exportadores nem aos importadores do país, e que deixaria as contas externas mais ou menos estáveis. 

A pandemia e a enorme recessão global que veio com ela são sem dúvida fatores que pesam, hoje, para tirar qualquer coisa de seu centro de equilíbrio. Ribeiro ressalta, porém, que há vários fatores estruturais da economia brasileira que já vêm há algum tempo colaborando para essa fuga de capitais. 

O principal deles, de acordo com ele, passa pela perda de valor paulatina das commodities no mercado global de meados da última década para cá. São produtos básicos como soja, minério de ferro e petróleo, que têm os preços definidos em dólar em bolsas internacionais e que compõem a maior parte das exportações brasileiras. 

Nenhuma delas até hoje recuperou os preços recordes dos anos de “boom” pré-2014, e, nos piores meses da pandemia, na primeira metade deste ano, essas perdas se acentuaram ainda mais. 

“Pensa em um país exportador de commodities: quando o preço do produto dele cai, ele recebe menos dinheiro pela venda, e então entram menos dólares no país”, explica Ribeiro. “As receitas [em dólar] que o Brasil gera em exportações caíram muito, e em proporção muito maior do que o preço dos produtos que importamos, que em geral são industrializados.”

Quer dizer: o país tem que produzir e entregar muito mais para conseguir trazer a mesma quantidade de dólares para dentro. Quanto menos dólares entram, mais dólares faltam na economia, e mais o preço dele - a taxa de câmbio - sobe. No acumulado até setembro, a receita em dólar com exportações do Brasil encolheu 7,7%. 

Alguns outros fatores que também colaboram para levar a uma sobrevalorização ou subvalorização da taxa de câmbio doméstica são a produtividade, o tamanho da dívida, as notas de risco e o nível de juros do país – todos sempre em comparação a outros países.

São elementos como esses que, na prática, pesam para que investidores e importadores mundo afora escolham entre ficar com ativos e produtos brasileiros ou de outros concorrentes. E o Brasil está bastante pior que seus pares em vários desses quesitos.

“A produtividade brasileira já vem caindo há muito tempo, a nossa dívida aumentou muito mais que a de outros emergentes e os nossos juros diminuíram com muito mais força”, disse Riberio. “Faz todo o sentido que a nossa taxa de câmbio se deprecie.”

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