Mesmo com pressão nos mercados, BC indica continuidade de juros baixos em 2021

Banco Central reafirmou que pressão inflacionária é passageira e manteve a taxa Selic em 2% ao ano

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de outubro de 2020 às 20:28
Sede do Banco Central, em Brasília: Copom manteve Selic em 2%
Foto: Adriano Machado/Reuters

No mesmo dia em que o dólar voltou a passar dos R$ 5,70 pela primeira vez desde maio, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC) manteve a Selic, a taxa baixa de juros da economia, em 2% ao ano, nível mais baixo da história, e reafirmou a posição de que a taxa deve continuar neste patamar ainda por um bom tempo em 2021. 

A decisão vem também ao fim de um mês em que a inflação mensal seguiu galopando conforme os preços dos alimentos disparam e que os juros futuros, negociados no mercado com base na percepção de risco do país, estão disparando.

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Todas essas coisas – inflação, dólar e juros – sofrem influência ou influenciam diretamente a Selic. Embora houvesse consenso de que o BC não mexeria agora na taxa, havia a expectativa em uma parte do mercado de que poderia haver mudança nos prognósticos para os meses à frente, dada a turbulência do último mês. 

Esta segunda parte não se confirmou. No comunicado que o Copom divulga ao fim de cada reunião em que decide sobre a Selic, o colegiado manteve a avaliação de que o pico de inflação atual é passageira e de que as condições para que os juros sigam sem precisar subir estão a princípio mantidas. 

“Foi praticamente uma reedição do que ele tem dito, apesar de toda essa volatilidade e todo esse ruído”, disse o estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli. 

“O BC reafirmou a manutenção dos juros baixos por um período prolongado, em que o choque inflacionário é temporário, as expectativas para a inflação futura seguem ancoradas e o regime fiscal também não mudou. É um comunicado equilibrado e que reflete a realidade.”

Em seus comunicados recentes, o Copom tem deixado claro que a subida de juros nos próximos meses só acontece se houver sinais de que a inflação vai sair do controle por um tempo prolongado e que o regime fiscal – isto é, o controle da dívida e dos gastos públicos – também desande. “O Copom avalia que essas condições seguem satisfeitas”, diz o comunicado desta quarta-feira. 

Com isso sob controle, o sinal é de que a Selic continua parada em seus 2%, o que, por ser muito baixo, é uma injeção de estímulo a investimentos e ao crédito em uma economia que precisa de tração para sair da recessão enorme em que caiu com a pandemia. 

“O BC manteve o mesmo posicionamento, que é exatamente o que tinha que ser feito”, disse o chefe do Centro de Estudos Monetários da Fundação Getulio Vargas (FGV), FGV IBRE, José Júlio Senna. “A inflação de curto prazo está mais alta e ficará de fato acima do esperado em 2020, mas isso não pressionou as projeções para 2021 e 2022, que estão ainda distantes da meta e mostram que há bastante folga [para manter os juros baixos sem novas pressões nos preços].” 

O Copom revisou sua projeção de inflação para este ano de 1,9%, no reltatório de setembro, para 3,1% agora - é um reajuste forte, mas ainda fora da meta para o ano, que deveria ser de 4%. Para 2021 a projeção subiu de 3% para 3,2% e, parar 2022, foi mantida em 3,8%. 

As dúvidas, agora, estão concentradas em quando e em quanto a Selic deve voltar a subir.

Para o Deutsche Bank, de acordo com Giacomelli, isso deve começar a acontecer a partir da segunda metade do ano que vem, com a taxa básica encerrando 2021 em 2,75%. “Será efeito da economia se normalizando. Estamos hoje com juros reais negativos [menores do que a inflação], trata-se de um estímulo extraordinário.”

Outros acreditam que a persistente alta do dólar pode pressionar a inflação com mais força do que está sendo esperado e forçar um aumento precoce dos juros. “Acreditamos que dada a evolução recente do câmbio e os efeitos de segunda ordem na inflação ao consumidor irão alterar algumas condições”, escreveu em relatório a corretora Necton, que trabalha com uma alta de juros ainda no começo de 2021 e uma Selic a 4% ao fim do ano. 

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