Bitcoin e criptomoedas: entenda o que são e como investir

O bitcoin atingiu a marca história de US$ 20 mil; saiba quais os riscos na compra da criptomoeda e como se proteger deles

Mariangela Castro, da CNN Brasil Business, em São Paulo*
17 de dezembro de 2020 às 05:00 | Atualizado 18 de dezembro de 2020 às 08:31

 

O mercado de criptomoedas teve um dia de euforia nesta quinta-feira (17). Isso porque, pela primeira vez na história, o bitcoin superou a marca dos US$ 23 mil. No acumulado do ano, a criptomoeda valorizou mais de 170%.

Alguns fatores ajudam a explicar esta alta exponencial. Diversas empresas estão apostando na utilização da criptomoeda como ativo e reserva de valor. O banco americano JPMorgan, por exemplo, está fazendo testes de transferências com a sua moeda própria, a JPM Coin. Além disso, o sistema de pagamentos PayPal, um dos maiores do mundo, está adotando o bitcoin como opção de pagamento.

Leia também:
Bitcoin supera US$ 23 mil em meio à interesse de investidores institucionais
Efeito bitcoin: S&P lançará índices de criptomoeda em 2021
Bitcoin sobe no ano, assim como outras criptomoedas – vale investir?

Bitcoin
Moedas com símbolo do bitcoin, um dos criptoativos mais conhecidos
Foto: Dmitry Demidko/Unsplash


Mais recentemente, outra notícia chamou atenção, desta vez no Brasil. A plataforma mexicana de criptomoedas Bitso anunciou recebimento de US$ 62 milhões em investimentos para tornar o país o seu maior mercado. A corretora já é a maior na América Latina.

Apesar desta onda de boas notícias, não são todos os investidores que se arriscam a entrar no mundo das criptomoedas. Motivos não faltam. Talvez os principais ainda sejam o receio sobre a segurança destes investimentos e o medo de perder dinheiro com a alta volatilidade do bitcoin. 

Para entender melhor o universo das criptomoedas, o CNN Brasil Business conversou com Safiri Felix, diretor-executivo da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto), e com Fabrício Tota, diretor de novos negócios da corretora Mercado Bitcoin. 

O que são criptomoedas?

Criptomoedas são representações digitais de valor. O conceito surgiu com a intenção de descentralizar a produção de moedas. 

“A ideia foi criar uma espécie de dinheiro eletrônico criptografado que pudesse fluir pela internet sem a dependência de bancos ou de agentes centralizadores”, diz Tota. Ou seja, um dinheiro independente dos bancos centrais de todo o mundo.

Felix acrescenta que cada criptomoeda possui o seu próprio protocolo, que é responsável por definir seu algoritmo e também estabelecer suas regras de funcionamento. 

Como começar a investir?

Diferentemente de ações de empresas, criptomoedas não são negociadas nas bolsas de valores. Assim, uma das formas de se investir neste mercado é por meio de uma corretora especializada em criptomoedas, também conhecidas como "exchanges". 

Estas entidades atuam como uma plataforma responsável para aproximar vendedores e compradores. Através delas, é possível comprar o ativo. O mecanismo é similar à compra e venda de ações. 

“Após a compra, você pode manter suas criptomoedas na corretora, guardá-las em uma carteira digital ou até imprimir o código [uma espécie de QR Code]”, explica Tota. 

Para investidores que estão iniciando agora neste mercado, Felix orienta que seja escolhida uma corretora com bom histórico e reputação, a fim de se proteger de possíveis transtornos. Ele também sugere que os investidores realizem backups periódicos para salvar seus ativos. 

Para aqueles que não querem abrir conta em uma exchange, também é possível investir comprando cotas de fundos de criptomoedas, disponíveis em corretoras 'comuns' (que possibilitam aplicar em ações e CDBs, por exemplo) ou mesmo em bancos. 

O problema, no entanto, é que, nestes casos, o investidor tende a pagar mais taxas, pela existência de mais um intermediador nesta operação. Por outro lado, ele conta com um profissional dedicado a encontrar oportunidades de compra e venda de criptoativos.

“A escolha do tipo de investimento depende do perfil do investidor e do interesse dele em criptomoedas”, explica Felix. 

Vale ressaltar também que cada corretora especializada possui seu próprio número de ofertas e de moedas disponíveis aos investidores – e também taxas.

Portanto, antes de escolher abrir uma conta, é importante analisar a liquidez da exchange (capacidade e velocidade de compra e venda) e os custos que serão cobrados. 

Como escolher a melhor criptomoeda e quanto investir nela?

Assim como no mundo real, onde dólar, euro e libra são ativos distintos, também há uma série de criptomoedas disponíveis para compra e venda no mundo digital. A recomendação dos especialistas, no entanto, é que investidores iniciantes comecem comprando bitcoin. 

“O bitcoin é apenas um tipo de criptomoeda, porém é com certeza o principal, o mais maduro e o que tem mais liquidez no mercado”, afirma Felix. Para ele, outros tipos de criptomoedas, como Ethereum e Litecoin devem ser comprados apenas quando o investidor já tiver mais familiaridade com o mercado. 

Tota também pontua que as criptomoedas são criadas para “resolver problemas existentes”. Segundo ele, o bitcoin por exemplo foi criado para resolver os problemas de centralização do dinheiro físico. Já o litecoin foi criado para que as transações possam ser feitas de forma mais rápida que as transações do bitcoin. 

“Qualquer pessoa ou empresa pode criar uma nova criptomoeda, a dificuldade é que este ativo seja bem aceito pelo mercado, e que tenha aderência. É necessário ter uma grande lógica e programação por trás”, diz Tota. 

Para se ter noção da diferença de uso de cada criptomoeda, a Capital Research realizou em maio de 2020 um levantamento de valor dos principais ativos do mercado. De acordo com esta pesquisa, entre as 10 criptomoedas mais valiosas, o valor do bitcoin é três vezes maior do que o valor somado das outras nove. 

A respeito da diversidade da carteira de investimentos, os especialistas também afirmam que a quantidade de dinheiro investido em criptomoedas depende do perfil do investidor. 

Aqueles mais conservadores, tendem a investir de 1% a 5% neste mercado. Já investidores de perfil de maior risco costumam aportar até 10%. O importante, no entanto, é manter a carteira de investimentos diversificada. 

Quais os principais riscos e como se proteger deles?

Por se tratar de um dinheiro eletrônico e criptografado, os principais riscos são operacionais, como sofrer um ataque de hacker e perder os ativos.  

Para se proteger deste tipo de problema, Tota recomenda que os investidores mantenham uma rotina de segurança digital. Isto é, além de se conectar a uma corretora de boa reputação, é importante usar um e-mail seguro e senhas seguras e complexas para realizar as compras. 

“É fundamental que ninguém conheça sua senha e que ela não seja usada em nenhum outro serviço”, orienta. 

Para aqueles que preferem retirar os ativos das corretoras e guardá-los em uma carteira de papel (famoso, imprimir o código), existem também alguns cuidados adicionais de segurança que devem ser tomados. Um deles, é referente à impressão das criptomoedas. 

“É preciso se preocupar inclusive com o papel e com a tinta que serão utilizadas nesta impressão, de modo que o impresso não se deteriore e que o investidor ainda possa recuperar suas criptomoedas daqui a 10 anos, por exemplo”, diz. É necessário cuidado, portanto, até mesmo com a possibilidade de roubarem os dados da impressora — caso ela funcione com internet.

Ainda sobre segurança, outra recomendação importante — e que serve para absolutamente todos os tipos de investimentos — é nunca se conectar a redes de internet públicas para abrir a carteira digital ou conta de corretora. Isso pode aumentar facilitar o trabalho dos hackers. 

A alta volatilidade das criptomoedas também pode ser um risco?

Quanto mais volátil for um ativo, maior e mais rápida é a mudança de seu valor no mercado. Porém, para o diretor da ABCripto Safiri Felix, os investidores não deveriam confundir risco com volatilidade. 

“A volatilidade é inerente ao mercado de bitcoin e eu não vejo isso mudando no futuro. O risco é a perda de capital. Ainda que seja volátil, comprar bitcoin pode ser menos arriscado do que ter uma participação grande em ações de uma empresa que foi muito afetada pela pandemia”, afirma o especialista. 

Discurso semelhante é adotado por Tota. Ele lembra que, por mais que o bitcoin seja extremamente volátil, ele também é muito líquido. Isto é, um investidor não terá dificuldade em vendê-lo nem em comprá-lo, ainda que seu valor de mercado tenha mudado bastante. 

Leia também:
Já é possível investir em água, assim como em petróleo e soja, em Wall Street
Maioria dos novos investidores da Bolsa é jovem, diz estudo da B3

“Investir em criptomoedas não deve virar sua vida de ponta cabeça, existem outros investimentos que também podem desvalorizar muito rapidamente, como comprar um carro zero ou mesmo ter um imóvel”, diz. 

Caso a volatilidade das criptomoedas deixe o investidor ansioso ou preocupado, Tota sugere evitar entrar na carteira digital todos os dias ou toda semana. Assim, não vai ver o vaivém de curtíssimo prazo.

Se isso não for suficiente (ou não for possível), talvez o bitcoin não seja para esse investidor. Nesse caso, é importante traçar um plano para escolher bem o momento do resgate do ativo.

Como o mercado de criptomoedas é regulamentado?

Assim como outros investimentos, a regulamentação de criptomoedas varia a depender do país ou região. No Brasil, a primeira entidade que se adiantou a regulá-las foi a Receita Federal, que há um ano e meio emitiu uma função normativa. 

“Este documento diz o que é uma criptomoeda, o que é uma corretora de criptomoedas e também como estes ativos devem ser informados ao Leão. É uma legitimação importante que dá mais segurança ao investimento”, diz.  

O dólar influencia o bitcoin?

Com a expectativa de que, aos poucos, o dólar volte para a casa dos R$ 4, há um receio de que o bitcoin deixe de ser tão atrativo — ao menos no Brasil. Afinal, se o real se fortalece frente ao dólar, o bitcoin vai automaticamente perder valor em reais. 

Tota lembra que o bitcoin é mundialmente vendido em dólar. Assim, ao comprar a criptomoeda no Brasil, o investidor está submetido a duas exposições: a variação do dólar e a variação do bitcoin. 

Apesar disso, comprar bitcoin pode ser uma forma de proteger grandes fortunas de possíveis inflações no dólar. Isso porque sua emissão é diferente da emissão de ativos tradicionais. 

"Nos Estados Unidos, por exemplo, a emissão de dinheiro é feita através de especulações. Os investidores precisam lidar com a expectativa de como será a inflação e de quanto dinheiro será injetado no mercado, a depender dos estímulos”, diz.  

Mas é bom lembrar que a inflação nos Estados Unidos está longe de ser alta, ao contrário do Brasil. Não por acaso, o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, estima que a inflação deste ano será de 1,2%, mesmo com tanto dinheiro injetado pelo governo. Para o ano que vem, deve ser de 1,7%. Para se ter uma base de comparação, no Brasil, é possível que fique acima de 4,3% já em 2020. 

É possível pagar por serviços ou por produtos utilizando criptomoedas? 


Atualmente, as criptomoedas são utilizadas como estratégias de diversificação de carteiras ou mesmo de proteção de grandes fortunas. Não é comum realizar compras em estabelecimentos e pagar com bitcoin, por exemplo.

Para Tota, é provável que este ativo nunca se torne uma moeda de fato e siga como um ativo de proteção.  

Já Felix acredita que o surgimento de novas criptomoedas pode fazer com que elas sejam mais utilizadas no dia a dia das pessoas. Ele cita por exemplo a criptomoeda diem, idealizada pelo Facebook e antes chamada de libra. 

“Acredito que com ela podem começar um movimento em 2021 para o surgimento de novas iniciativas voltadas para o pagamento com criptomoedas. O bitcoin deve continuar como um ativo de diversificação e reserva de valor”, prevê o diretor-executivo da ABCripto. 

Clique aqui para acessar a página do CNN Business no Facebook