A pandemia impulsionou as empresas de delivery, mas a realidade pode mudar

Setor aproveitou o isolamento causado pela pandemia e também o número alto de desempregados que atuaram como empregadores, mas as coisas podem mudar

Sara Ashley O'Brien, do CNN Business
20 de dezembro de 2020 às 05:00
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Foto: Divulgação/Alerj

No início de 2020, parecia que o setor de food delivery estava prestes a enfrentar um acerto de contas depois de anos ganhando e perdendo bilhões de dólares.

Um dos negócios originais do setor nos Estados Unidos, o Grubhub, estava considerando sua venda após perder sua posição de mercado. Seus concorrentes, DoorDash, Postmates e Uber Eats, supostamente também estavam pensando em fusões.

Nesse meio tempo, o presidente da Uber sinalizou uma mudança radical no seu serviço de entrega de refeições: foco no crescimento lucrativo.

Daí veio a pandemia e mudou tudo.

A crise sanitária acompanhada da crise econômica criou a turbulência perfeita para as empresas de entrega: um grande fluxo de recém-desempregados à procura de trabalho, inúmeras pessoas em casa pedindo refeições e restaurantes cada vez mais dependentes de comida para viagem e entrega.

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Os serviços de delivery viram a demanda disparar. A Uber se apoiou no Uber Eats quando seu negócio principal – transporte privado – despencou. A valorização do Instacart e DoorDash disparou à medida que as empresas garantiam centenas de milhões de dólares em capital e passavam a oferecer entregas de varejistas de eletrônicos e lojas de conveniência.

Um dos principais investidores na recente rodada de financiamento do DoorDash comentou que o serviço tinha "se tornado essencial para a vida das comunidades locais".

Vacina pode mudar tudo

O lançamento da vacina sinaliza o que pode ser o início do fim da pandemia e, com isso, uma outra mudança na demanda. Para empresas de food delivery como o DoorDash, a questão é o quanto o fim da pandemia o afetará.

“As pessoas ficaram muito mais acostumadas a pedir comida e outros produtos por serviços de entrega. Parte dessa demanda diminuirá quando for seguro fazer as coisas pessoalmente, é claro", comenta Scott Duke Kominers, professor associado da Harvard Business School. "No entanto, a formação de novos hábitos é poderosa", complementa.

A empresa, que também é dona da Caviar, se tornou a líder norte-americana em vendas em maio de 2019, segundo dados da Second Measure. Porém, foi necessária uma pandemia para que o DoorDash desse seu primeiro lucro no segundo trimestre deste ano, antes de reportar perdas novamente no último trimestre.

Sem dúvida nenhuma, os serviços de entrega como o DoorDash tiveram uma vantagem durante a pandemia, já que muitos restaurantes dependem de entregas, mas o pêndulo pode oscilar na direção contrária no pós-pandemia.

Kominers, que recentemente foi coautor de um artigo sobre a importância do relacionamento de um aplicativo de delivery com restaurantes e outros fornecedores, disse que as empresas de entrega precisam se concentrar em uma melhor divisão de receita e em ferramentas com os comerciantes para construir negócios sustentáveis.

As altas taxas que os serviços de entrega cobram dos restaurantes sobre as encomendas ganharam destaque durante a pandemia. Alguns estados e cidades limitaram as taxas de entrega de terceiros para ajudar os negócios locais.

As empresas exploraram novas maneiras de trabalhar com os negócios. O DoorDash introduziu o Storefront, um produto que permite aos restaurantes criar suas próprias lojas online, onde não são cobradas comissões sobre os itens vendidos, e o Self-Delivery, uma forma de os parceiros serem listados na plataforma e cuidarem de sua própria entrega.

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Olhando para o futuro, o fim da pandemia combinado com a melhoria da economia e desafios jurídicos ao seu modelo de negócios pode tornar mais difícil para empresas como o DoorDash manter seu modelo de prestadores independentes, que não têm os mesmos benefícios onerosos e respaldo trabalhista que funcionários teriam.

As empresas obtiveram uma vitória com a aprovação de um referendo na Califórnia no mês passado, permitindo que as empresas não precisassem reclassificar seus trabalhadores temporários como funcionários no estado e contornassem os custos associados a um conjunto completo de benefícios, como salário mínimo, horas extras, licença médica remunerada e seguro-desemprego sob as leis trabalhistas da Califórnia.

Contudo, a questão está longe de ser resolvida.

Esse modelo de negócio "sobrevive essencialmente de forçar os trabalhadores a competir entre si em uma corrida para o fundo do poço", afirma Rebecca Givan, professora associada de estudos do trabalho da Universidade Rutgers.

"Embora a economia esteja ruim e o desemprego esteja elevado, sempre haverá trabalhadores desesperados que provavelmente estarão dispostos a trabalhar nesses aplicativos mesmo por um pagamento muito baixo", acrescentou a professora Givan.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).