Brasil deve decidir se chinesa Huawei entra no leilão do 5G; o que está em jogo?

Mariangela Castro, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
20 de dezembro de 2020 às 05:00
Huawei
Foto: Reuters/Marko Djurica

O Brasil precisa decidir até o próximo mês se a empresa chinesa Huawei Technologies vai poder participar do leilão da tecnologia 5G no país, previsto para ocorrer em junho do ano que vem. Em comparação com outros países, o território nacional já está atrasado para implementar o 5G, o que resulta em atraso também da modernização das cadeiras produtivas. 

Os EUA pressionam para barrar a empresa chinesa, alegando que defeitos nos equipamentos podem facilitar ataques cibernéticos e até espionagem. Até o momento, porém, nenhum país conseguiu comprovar essas falhas, nem mesmo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). 

A Huawei já atua no mercado brasileiro há duas décadas, sendo hoje responsável por mais de 50% dos equipamentos das sete operadoras de telecomunicações do país. Quando analisadas as duas maiores operadoras, a porcentagem é ainda maior: a Huawei representa 65% dos equipamentos da Telefônica e 55% da Claro.

Impactos econômicos

Segundo Pedro Bites, professor do curso de Relações Internacionais da FGV, banir a Huawei do leilão pode causar grandes problemas para a economia brasileira. O mais direto seria o custo financeiro de substituir todos os equipamentos que já são da Huawei por equipamentos de outras empresas. "A tecnologia 5G demanda uma grande capacidade de infraestrutura, cabo de fibra ótica, antenas. É muito mais fácil adaptar as estruturas já instaladas da Huawei do que substituir", diz.

Além disso, a gigante de tecnologia é justamente tão presente no mercado brasileiro por sempre apresentar preços bastante competitivos para seus serviços. Portanto, excluí-la do leilão pode fazer com que o Brasil pague mais caro pela tecnologia. 

Problemas diplomáticos

Mas há também problemas diplomáticos graves que podem evoluir da decisão de barrar a Huawei. Bites explica que, como não há nenhum parecer técnico que justifique essa decisão, o Palácio do Planalto teria de realizar uma declaração semelhante à dos Estados Unidos, de que estaria barrando a empresa por medidas de segurança. "O problema é que essa seria uma decisão com caráter político, não do setor técnico. Acusar a China de espionagem é uma alegação muito grave e pode resultar em retaliação chinesa", explica o professor.  

De acordo com ele, essa medida poderia afetar a exportação de produtos agrícolas do Brasil para a China. Há também a possibilidade de a Huawei, se barrada do 5G, remover toda sua participação do 3G e 4G do país, o que resultaria em altos custos. "Em outros países, a China apelou por judicializar essa questão. No Brasil, por exemplo, não haveria medidas jurídicas para impedir a participação de apenas uma empresa", diz. 

Para barrar a Huawei do leilão, o governo poderia exigir que as empresas tenham capital aberto no Brasil. O problema é que, assim, barraria também outras empresas, como coreanas e europeias.  

Sem consenso no governo

Impedir a participação da Huawei do leilão de 5G não é um consenso nem dentro do próprio governo Bolsonaro. Por exemplo, o vice-presidente, Hamilton Mourão, manifestou-se durante um evento na Associação Comercial de São Paulo. Segundo ele, excluir a Huawei "vai custar muito mais caro". 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, também se reuniu no último mês com uma série de executivos da empresa chinesa para discutir a questão.

No entanto, o presidente Jair Bolsonaro já afirmou mais de uma vez que a decisão final partiria dele. 

Impactos em outros países 

A pressão dos Estados Unidos para frear o crescimento da chinesa Huawei afeta não só o Brasil, como também outros países aliados. A Suécia, por exemplo, impediu a empresa de participar da implementação do 5G com base na segurança de dados nacional e em questões militares. 

O mesmo aconteceu no Reino Unido. Neste caso, foi solicitado que todos os equipamentos da Huawei fossem removidos do país até o final de 2027. De acordo com Bites, a diferença entre os cenários é de que tanto o Reino Unido quanto a Suécia possuem relações “bastante esporádicas” com a China --diferentemente do que acontece com o mercado brasileiro. 

"É importante lembrar também que, por mais que haja uma aproximação ideológica do governo Bolsonaro com o de Trump, nós não representamos para os Estados Unidos a mesma importância estratégica que o Reuno Unido representa, por exemplo", disse o especialista. 

Guerra comercial entre China e EUA

Além da Huawei, outras empresas chinesas sofreram com a política do governo Donald Trump nos EUA. Em 2020, um dos exemplos foi a guerra do governo contra os aplicativos TikTok e WeChat, que, de acordo com o presidente, deveriam ser banidos do país. O próximo alvo pode ser o site de e-commerce Alibaba, que também possui grande presença em solo americano. 

Porém, Donald Trump perdeu a reeleição, e quem decidirá por essas e outras questões em 2021 será Joe Biden, do partido Democrata. O especialista Pedro Bites defende que, ainda que ambos os candidatos possuam perfis de liderança distintos, a relação com a China costuma ser consenso entre os dois. 

"A China está muito consolidada na sociedade e no espectro político estadunidense como o rival do país. É pouco provável que pressão com o Brasil mude por conta da eleição de Biden. Pode não ser uma pressão tão declarada publicamente, mas ela continuará existindo", afirma.  

Para Bites, caso o novo governo americano também exerça pressões a respeito da política climática brasileira, do desmatamento ou das queimadas, isso pode levar o Brasil a se aproximar da China como reação. 

(Com supervisão de Natália Flach)

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