2020 marcou o início dos voos espaciais privados. O que esperar para 2021


Jackie Wattles , do CNN Business
25 de dezembro de 2020 às 05:00
Um foguete SpaceX Falcon 9 com a espaçonave Crew Dragon da empresa a bordo

Um foguete SpaceX Falcon 9 com a espaçonave Crew Dragon da empresa a bordo

Foto: Joel Kowsky/Nasa

Austin, Texas (CNN Business) – Apesar da pandemia, 2020 foi um ano marcante para a indústria espacial comercial. A SpaceX se tornou a primeira empresa a enviar humanos ao espaço a bordo de uma espaçonave de propriedade privada. 

O governo dos Estados Unidos continuou trabalhando em estreita colaboração com startups e empresas aeroespaciais para colocar os humanos de volta à Lua. E, com a ajuda de governos que as declararam “negócios essenciais” em meio à pandemia, um grupo de jovens empresas do setor continuou trabalhando para criar novos foguetes ou serviços de satélite.

Leia também:

Richard Branson, da Virgin, quer ser o primeiro bilionário a viajar ao espaço
Água na Lua e fosfina em Vênus: o que descobrimos sobre o espaço em 2020?

Espera-se que 2021 seja ainda melhor para essa indústria emergente, já que gigantes como a SpaceX continuam buscando tecnologias futuristas –de foguetes para Marte a serviços de internet baseados no espaço e turismo extraterrestre.

Veja a seguir o que o setor privado planejou para a exploração espacial no próximo ano.

Astronautas em voos comerciais

A SpaceX, criada há 18 anos, fez história quando sua nave espacial Crew Dragon transportou astronautas da Nasa para a Estação Espacial Internacional (ISS na sigla em inglês). Ao colocar humanos no espaço pela primeira vez, a empresa chegou ao ápice da parceria de uma década com a Nasa.

Espera-se que a SpaceX torne essas viagens uma rotina. Espera-se também que outro grupo de astronautas voe a bordo de um Crew Dragon no primeiro semestre de 2021, e que um terceiro voo seja lançado no segundo semestre.

A capacidade de contar com empresas privadas para colocar astronautas norte-americanos no espaço é um grande negócio para a Nasa, depois de passar quase uma década contando com espaçonaves russas. A agência norte-americana diz que agora será capaz de manter sua estação espacial totalmente equipada, permitindo um aumento significativo na quantidade de pesquisas que os astronautas são capazes de conduzir a bordo da ISS. 

No próximo ano, a Boeing também poderá adicionar outro veículo dos EUA ao arsenal de espaçonaves dignas de humanos. A empresa está planejando realizar o primeiro voo com tripulação de seu veículo Starliner, que está sendo desenvolvido sob o mesmo programa da Nasa que o Crew Dragon da SpaceX.

O Starliner da Boeing, que se parece com o Crew Dragon da SpaceX, primeiro precisará refazer um teste de voo, já que o primeiro, de um ano atrás, foi malsucedido. A Boeing diz que tem como meta uma segunda tentativa em 29 de março de 2021 e, se tudo correr bem, o primeiro lançamento tripulado do Starliner poderá ser realizado alguns meses depois.

Turismo orbital

O acordo de desenvolvimento que a Boeing e a SpaceX assinaram com a Nasa prevê que as empresas terão a opção de vender assentos a bordo de suas espaçonaves para qualquer pessoa que possa pagar o preço de cerca de US$ 50 milhões por assento.

A SpaceX já assinou um acordo com a Axiom, uma startup fundada pelo ex-administrador da Nasa Michael Suffredini, para levar um grupo de “astronautas privados” para a ISS a bordo de um Crew Dragon no segundo semestre de 2021.

A Axiom confirmou dois dos membros da tripulação que estarão naquele voo: Michael Lopez-Alegria, um ex-astronauta da Nasa e veterano de três missões em ônibus espacial, que voará como cidadão particular, e Eytan Stibbe, um ex-piloto de caça israelense e rico investidor que supostamente está financiando sua própria viagem.

Passeio suborbital

Dois empreendimentos apoiados por bilionários –a Virgin Galactic de Richard Branson e a Blue Origin de Jeff Bezos– também estão desenvolvendo pequenos veículos movidos a foguete com o objetivo de enviar milionários caçadores de emoções em breves viagens à atmosfera superior.

A Virgin Galactic, que abriu o capital por meio de uma fusão reversa em 2019, mudou-se para seu novo e luxuoso centro de lançamentos espaciais no Novo México e está se preparando para abrir os negócios já no próximo ano. Branson está planejando estar entre os primeiros passageiros a bordo do avião espacial supersônico que a empresa passou as últimas duas décadas construindo e testando. Um voo de teste recente daquele veículo foi interrompido devido a um problema no motor, mas a Virgin Galactic ainda espera terminar seus testes finais nos próximos meses.

A Blue Origin, que desenvolveu um foguete totalmente autônomo e uma cápsula que decola verticalmente de uma plataforma de lançamento, também pode comercializar suas conquistas no próximo ano. A empresa testou sua tecnologia em um local remoto no oeste do Texas 13 vezes e passou anos exibindo aos interessados as grandes janelas e a espaçosa cabine da espaçonave.

No entanto, a Blue Origin ainda não anunciou o preço dos assentos nessas viagens espaciais e nem quando planeja começar a vendê-los.

Por sua vez, a Virgin Galactic já vendeu mais de 600 passagens com preços entre US$ 200 mil e $ 250 mil. Mais: a empresa planeja reabrir as vendas de passagens em breve, embora os executivos tenham alertado que os preços devam subir.

ULA na Lua

No negócio de lançamento de foguetes, a SpaceX pode enfrentar uma competição mais acirrada do que nunca no próximo ano. Duas empresas, a United Launch Alliance (um empreendimento com junto da Lockheed Martin com a Boeing) e a Blue Origin estão planejando lançar dois novos veículos de lançamento massivos. Eles irão competir com os foguetes Falcon da SpaceX em potência e preço de lançamento.

O imponente foguete New Glenn da Blue Origin –que é cerca de cinco vezes mais alto que o foguete de turismo espacial da empresa– deve realizar seu lançamento inaugural no próximo ano, após anos de desenvolvimento.

Leia também:

Brasil assina acordo de intenção com a Nasa para enviar a primeira mulher à lua
Nave chinesa pousa com sucesso na superfície da Lua para coletar rochas

O foguete da ULA, chamado Vulcan Centaur, deve começar com um estrondo: sua primeira missão será levar um módulo lunar até a Lua no próximo ano. O módulo, construído por uma startup chamada Astrobotic, entregará cargas de pesquisa à superfície lunar em nome da Nasa.

Os foguetes gigantescos da Blue Origin, ULA e SpaceX devem batalhar por lucrativos contratos de lançamento com o governo nos próximos anos. Os militares dos Estados Unidos, por exemplo, recentemente referendaram contratos de quase US$ 1 bilhão com a SpaceX e a ULA. A Blue Origin perdeu nessa rodada, mas espera-se que continue competindo por missões futuras.

Foguetes pequenos

Um grupo de jovens empresas estão desenvolvendo, já há alguns anos, pequenos foguetes –com uma fração do tamanho dos foguetes Falcon da SpaceX– capazes de lançar novos satélites de forma barata em bases regulares. Isso pode abrir novas oportunidades de negócios, de acordo com empresários e investidores do Vale do Silício.

A Rocket Lab é a única dessas empresas a realmente colocar um foguete no espaço até agora, tendo lançado mais de uma dúzia de missões bem-sucedidas nos últimos dois anos.

Mas 2021 pode ser o ano em que novos atores finalmente entrarão em cena.

A Astra, com sede na cidade de Alameda, Califórnia, já realizou dois lançamentos experimentais e deve colocar seu primeiro foguete em órbita no próximo ano. A Relativity, de Los Angeles, que está trabalhando para imprimir seus foguetes em 3D, também tem como objetivo fazer seu lançamento inaugural no próximo outono. E a Firefly, com sede no Texas, pode tentar colocar seu foguete Alpha de 30 metros de altura em uma plataforma de lançamento nos próximos meses.

Financiando o futuro

Não está claro de quantos pequenos veículos lançadores de foguetes o setor empresarial realmente precisa. Mas mais de 100 startups estão competindo para ter uma posição como a Rocket Labs –e isso é certamente um número excessivo, como disse Ann Kim, diretora-gerente de tecnologia de ponta do Silicon Valley Bank, à CNN Business.

O ano de 2021 pode ser aquele em que muitas dessas empresas começarão a se fundir ou fecharão.
Segundo Kim, isso não significa, entretanto, que os investidores de capital de risco não estejam mais interessados em apoiar startups com foco no espaço. Os investidores até agora desembolsaram mais de US$ 166 bilhões em 1.128 diferentes startups espaciais envolvidas em aspectos-chave da indústria, desde o lançamento de foguetes até a análise de dados coletados por satélites, de acordo com a Space Capital, o braço de análise do grupo de investimentos Space Angels.

Os fundos de capital de risco têm dezenas de bilhões para investir em 2021, de acordo com Kim, mas os investidores provavelmente colocarão seu dinheiro em empresas focadas em dados e software, em vez de empreendimentos no caro e arriscado negócio de hardware. Neste ponto, a indústria escolheu seus pioneiros para aqueles que os investidores acreditam ter negócios viáveis de foguetes e satélites, disse Kim.

SpaceX: Starship e Starlink

A SpaceX, garota-propaganda da era espacial comercial, tem dois grandes projetos que provavelmente terão muita ação em 2021: Starship –um foguete enorme que o CEO Elon Musk espera que coloque humanos em Marte– e Starlink, um enxame de satélites em órbita baixa da Terra que a SpaceX planeja usar para levar internet para as casas das pessoas a partir do espaço.

A SpaceX já implantou cerca de 1.000 satélites para a sua rede Starlink e adicionará mais à medida que for concluindo um programa de testes beta. O programa pode ser disponibilizado comercialmente no início do próximo ano.

O Starship, o foguete de Marte, ainda está em seus estágios iniciais de desenvolvimento, mas a SpaceX já conseguiu atrair bastante interesse público nesse processo. A empresa construiu vários foguetes grandes de aço e os colocou em uma plataforma de lançamento para realizar voos de teste cada vez mais altos.
Musk, que fundou a SpaceX com o objetivo de colonizar Marte, promete intensificar essa ação em 2021.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original  em inglês).