China apaga luzes da 'Cidade do Natal' para cumprir metas de energia

O esforço para reduzir o consumo de energia trouxe transtornos para milhões de cidadãos

Nectar Gan , CNN Business, em Hong Kong
31 de dezembro de 2020 às 09:09
Pessoas usando máscaras de proteção na China (28.fev.2020)
Foto: Reuters

 

Durante meses, as fábricas na cidade de Yiwu, conhecida como a “Cidade do Natal” da China, produziram a maior parte dos enfeites, decorações e outros itens festivos que agora estão pendurados em árvores em todo o mundo. No entanto, a produção quase parou em meados de dezembro, quando as autoridades locais apagaram as luzes da cidade.

Ma Hairu, que trabalha para um fabricante de enfeites de papel para o Natal e o Ano Novo, disse que sua fábrica lutou para atender à demanda, já que todos só podiam trabalhar meio período. “Temos muitos pedidos, mas não temos tempo suficiente para cumpri-los”, disse.

O corte de energia aconteceu porque autoridades da província chinesa de Zhejiang estão correndo para cumprir as metas de consumo de energia de cinco anos estabelecidas pelo governo central, que expiram em 31 de dezembro.

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No início deste mês, uma diretiva local instruiu as empresas a só usarem elevadores do terceiro andar para cima e a usar o aquecimento apenas quando as temperaturas externas caíssem para abaixo de 30ºC.

“Não há falta de fornecimento de eletricidade [em Zhejiang]. Mas alguns lugares da província adotaram medidas para restringir o uso de eletricidade para economizar energia e reduzir as emissões”, disse Zhao
Chenxin, secretário-geral da Comissão de Reforma e Desenvolvimento da China, na segunda-feira (28).

O esforço para reduzir o consumo de energia trouxe transtornos para milhões de cidadãos. Em Yiwu, uma cidade de um milhão de habitantes, o aquecimento foi desligado em escritórios, shoppings, escolas e hospitais, apesar das temperaturas diurnas de cerca de 100ºC.

Até a iluminação das ruas se apagou, deixando motoristas e pedestres se atrapalhando no escuro, de acordo com os moradores locais e notas do governo. O aquecimento também foi restrito na cidade vizinha de Wenzhou, lar para mais de 9 milhões de pessoas, de acordo com o governo local.

O corte abrupto de Zhejiang no consumo de eletricidade destaca a força e as armadilhas do sistema político da China. Embora o Partido Comunista possa fazer promessas ambiciosas de redução das emissões de carbono, a implementação rígida de metas pode ter um custo para as pessoas que elas deveriam beneficiar.

“Um ano difícil”

A restrição de energia em Yiwu chamou a atenção pela primeira vez na semana passada, quando fotos e vídeos de ruas escuras como breu começaram a circular nas redes sociais chinesas. No Weibo, uma plataforma chinesa semelhante ao Twitter, os residentes de Yiwu reclamaram de lâmpadas de rua sendo desligadas e tendo que dirigir para casa no escuro em meio ao caos do trânsito.

O tema rapidamente ganhou força, atraindo 120 milhões de visualizações na quarta-feira (23) e milhares de comentários. Alguns acusaram o governo de Yiwu de sacrificar a segurança pública para marcar pontos na arena política.

Após a reação online, as autoridades voltaram a acender algumas luzes. “As luzes ficaram apagadas por apenas alguns dias. A maioria delas está acesa agora”, disse um operador do governo à CNN na semana passada. Mas outras restrições permanecem em vigor. Yin Mingfei, gerente de um café em um shopping center no distrito central de negócios da cidade, disse que o aquecimento foi desligado há quase duas semanas e os outdoors eletrônicos e escadas rolantes não estavam funcionando.

Uma recepcionista do Hospital Central de Yiwu disse que o aquecimento nas áreas comuns foi desligado e que ela teve que colocar camadas extras de roupa para se manter aquecida. Na rede social Weibo, funcionários de escritórios reclamaram sobre trabalhar tremendo de frio em suas mesas.

As fábricas e oficinas da cidade, cujos negócios já sofreram com a pandemia do coronavírus no início deste ano, receberam ordens para reduzir ou interromper a produção em um momento em que estão
inundadas de pedidos.

Dezembro teria sido a época mais movimentada do ano para Liu Lei, que dirige uma pequena oficina com sua esposa em um subúrbio de Yiwu, fazendo envelopes vermelhos para o Ano Novo Lunar. Mas, para poupar energia, ele foi obrigado a trabalhar dois dias sim, dois dias não, até o final do ano.

“É claro que o impacto na minha empresa é enorme. Os pedidos estão chegando para os envelopes vermelhos, mas não tenho como fazer o suficiente”, lamentou Liu. “Tive que recusar alguns clientes”.

Cultura política orientada para objetivos

Conflitos semelhantes aconteceram no passado, em uma escala muito maior e por muitos mais meses. Em 2010, o último ano do 11º plano quinquenal da China, Zhejiang e mais de meia dúzia de outras províncias implementaram medidas para restringir o uso de eletricidade.

Alguns começaram já em julho daquele ano a limitar ou interromper a produção em fábricas que consomem muita energia e banir o ar condicionado em escritórios e escolas, de acordo com relatos da mídia da época.

Desde que chegou ao poder, o presidente chinês Xi Jinping empreendeu uma “guerra contra a poluição”, dobrando os esforços para desviar o país de sua dependência do carvão, que em 2019 ainda representava quase 60% da matriz energética da China. Mais recentemente, o presidente fez a promessa ambiciosa de que a China se tornaria neutra em carbono até 2060.

Mas tais esforços bem-intencionados às vezes causam sofrimento devido ao mau planejamento e implementações agressivas. Em 2017, uma grande campanha de retrofitting no norte da China para mudar o aquecimento de movido carvão para gás natural, de queima mais limpa, deixou alguns residentes tremendo em temperaturas congelantes em pleno inverno. As autoridades locais haviam proibido o uso do carvão antes que os fornos a gás fossem devidamente instalados ou o suprimento de gás estabilizado.

“Isso é comum na China. É o resultado de uma cultura política orientada para objetivos”. afirmou Trey McArver, sócio da consultoria Trivium, com sede em Pequim.

Sem eleições democráticas, a maioria das autoridades chinesas sobe na carreira política em um sistema de avaliação baseado em desempenho, onde as metas de crescimento econômico, estabilidade social e, cada vez mais, proteção ambiental desempenham um papel importante em suas chances de promoção.
Sob o regime autoritário de Xi, as autoridades locais são colocadas sob ainda mais pressão (filtrada do governo central) para cumprir as metas políticas de Pequim, como as estabelecidas nos planos quinquenais do país.

Em setembro, autoridades da Mongólia Interior foram convocadas pela Comissão de Reforma e Desenvolvimento da China para discutir os “graves problemas” da sua situação de poupança energética, após o seu consumo e intensidade energética ultrapassarem os limites fixados no 13º plano quinquenal.

Os planos de cinco anos são um legado da economia de comando da China durante a era de Mao Tse tung, que governou o país entre 1949 e 1976. Esses planos de política de alto nível estabelecem as metas de desenvolvimento social e econômico do país para o próximo período. O 13º plano de cinco anos cobre 2016 a 2020.

Metas concorrentes

Zhejiang deve cortar a intensidade energética (a quantidade de eletricidade necessária para produzir por unidade de produção econômica) em 17% em comparação aos níveis de 2015, de acordo com um projeto do 13º plano quinquenal de economia de energia lançado pelo Conselho de Estado da China.

Até 2020, a província só pode consumir o equivalente a 23,8 milhões de toneladas de carvão acima dos níveis de 2015. No entanto, há indicações de que estava usando muito além do necessário. De acordo com um aviso lançado pela Comissão Provincial de Desenvolvimento e Reforma de Zhejiang em 2019, Zhejiang consumiu 87% de sua cota de energia extra durante os primeiros três anos do plano.

Em outubro, o governo central enviou uma equipe de investigadores a Zhejiang para avaliar o gasto de energia. A equipe instruiu Zhejiang a “fazer seu melhor” para cumprir suas metas, de acordo com o Comissão de Reforma e Desenvolvimento Provincial de Zhejiang.

O problema com as metas é que muitas vezes há mais de uma para as autoridades cumprirem e nem sempre elas são complementares, como explicou o consultor McArver. “O motivo de haver uma luta para cumprir essas metas aqui no final [do plano quinquenal] é porque as autoridades locais têm se concentrado principalmente em outras metas a partir de agora”, disse ele, citando entre elas o crescimento do PIB, empregos e receitas do governo.

Segundo analistas, os lockdowns causados pelo coronavírus ajudaram inicialmente as metas de emissões, mas a pressa em reviver a economia as atrasaram. A rápida recuperação econômica da China após a pandemia se baseou fortemente em indústrias pesadas com uso intensivo de energia, disse Li Shuo, um conselheiro sênior de política climática do Greenpeace Leste Asiático.

O aumento na produção de aço contribuiu para uma recuperação nas emissões de carbono da China após uma queda durante o lockdown, segundo escreveu Lauri Myllyvirta, analista do Centro de Pesquisa em
Energia e Ar Limpo, em uma análise. Para os fabricantes de Yiwu, também houve recuperação na produção após um aumento nos pedidos no segundo semestre.

Mas a alta teve vida curta. Ma, que faz e vende decorações festivas, disse que foi um ano particularmente difícil para os negócios, primeiro por causa da pandemia e agora pelas restrições de eletricidade. “A gente costumava ter uma receita de mais de um milhão de yuans (R$ 798 mil), mas com todas as interrupções neste ano, realmente não sabemos quanto podemos ganhar”, contou o empresário.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)

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