Tesla já vale mais que todas montadoras tradicionais juntas; receita está longe

Cada ação da companhia é negociada a mais de US$ 800 --há quem diga que pode chegar a US$ 1.000 este ano--, e valor de mercado ultrapassou US$ 800 bilhões

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de janeiro de 2021 às 05:00
Tesla
Logo da empresa fundada por Elon Musk
Foto: Reuters/Brendan McDermid

Não é de hoje que o mercado está em polvorosa com as ações da Tesla (e qualquer outra coisa que o seu presidente Elon Musk toque), mas o processo segue escalando. Seus papéis cresceram mais de 700% em 2020 e já avançaram outros 20% nas primeiras duas semanas de 2021.

Com isso, cada ação é negociada a mais de US$ 800 --há quem diga que pode chegar aos US$ 1.000 este ano--, e o valor de mercado da companhia ultrapassou US$ 800 bilhões. Sabe o que isso quer dizer? O negócio de Musk vale mais que as 10 maiores montadoras do mundo juntas.

Vamos à lista: Volkswagen (e as subsidiárias Audi, Bentley, Lamborghini, Porsche, Bugatti), Toyota (Lexus), Ford (Lincoln), Honda (Acura), GM (Chevrolet, Buick, Cadillac), Fiat Chrysler (Dodge, Jeep, Maserati, Alfa Romeo), BMW (Mini, Rolls Royce), Mercedes-Benz, Nissan (Infinity) e Hyundai.

Se não estiver satisfeito, cabem ainda Peugeot (Citroen), Renault e KIA nesse balaio.

No entanto, os resultados se invertem quando analisamos as receitas anuais das companhias. Cada uma das 13 produziu, individualmente, resultados superiores aos da Tesla em 2019 e devem se manter assim em 2020. Veja a tabela:

Este movimento é explicado, pelo menos em partes, por dois fatores primordiais: o mercado sempre anda à frente da economia real, tentando adiantar tendências; e a empresa de Musk, que é do ramo automobilístico mas também é de tecnologia, foi a primeira a conseguir reserva de mercado no segmento. 

Mas será que isso é suficiente para sustentar tamanha expectativa? É verdade que o número de analistas que enxergam bolha nos papéis da companhia está cada vez mais escasso. A companhia segue precisando, no entanto, de conseguir escalar sua produção para mudar de patamar.

"Acho que eles podem atingir 1 milhão de veículos [entregues por ano] até 2022. E, seguindo essa direção, de 3 a 4 milhões ao entrarmos em 2025-26, com 40% vindo da China", disse Dan Ives, analista de tecnologia da Wedbush Securities. "Nos próximos 10 a 15 anos, podemos começar a pensar em 10 a 12 milhões de veículos por ano." 

Por enquanto, a empresa "só" vendeu 500 mil veículos no ano passado, contra 75 milhões das 10 montadoras citadas acima. Além disso, ainda não tem capacidade produtiva para ampliar a entrega e sofre para conseguir baixar os preços de suas tão famosas baterias.

Dado este cenário-base, o CNN Brasil Business ouviu um analista otimista e outro pessimista em relação aos papéis da queridinha de Wall Street. Veja abaixo alguns pontos de debate.

Reserva de mercado

Um fato inegável é que a Tesla saiu na frente no segmento e seu nome é sinônimo de carros elétricos nos Estados Unidos. Prova disso é que a empresa parece não possuir clientes, e sim fãs, que estão dispostos a te convencer a comprar um carro da marca a todo instante.

"A legislação também acaba ajudando", diz Francine Balbina, especialista em investimentos globais da Spiti. "Onze estados dos EUA já determinaram que as montadoras precisam vender carros elétricos. As que não possuem compram créditos de carbono da Tesla." Essa é, inclusive, a maior fonte de receitas da marca.

A analista, que colocou o BDR da empresa em carteira recomendada da Spiti, lembra também que a companhia está desenvolvendo sua infraestrutura antes de qualquer outra empresa --o que inclui postos de carregamento dos carros espalhados pelos países onde está presente.

Concorrência

Ok, a liderança nos EUA é inegável, mas o crescimento global pode ser mais difícil. Repare que na tabela acima há três empresas chinesas (NIO, XPeng e Li) com as mesmas premissas: valor de mercado exorbitante se comparado ao que a empresa consegue entregar hoje.

Para Guilherme Zanin, analista de investimentos da Avenue Securities, isso pode manter a empresa de Musk "presa" no mercado americano, "que tradicionalmente gosta de motores a combustão". "Se a Tesla cresceu 700% em 2020, a NIO cresceu 1.000% e está recebendo subsídios do governo chinês", diz.

Outro mercado prioritário da montadora, a Europa, também tem resposta pronta. Prova disso é que na Noruega, onde o número de carros elétricos vendidos em 2020 foi superior aos de combustão, a líder de mercado é a Volkswagen, que dá seus primeiros passos no segmento.

Preço

O que nos traz para outro potencial problema da nova estrela do S&P 500: os preços. Para conseguir escalar sua produção, precisa tornar seus preços mais competitivos. Zanin afirma que isso será essencial para entrar em mercados como o sul-americano e o africano, sem tanto poder aquisitivo.

Mais do que isso, ele entende que uma redução drástica da liderança nos próprios EUA pode ocorrer durante esse processo. "É um setor com margens cada vez mais apertadas e, como as grandes montadoras já têm escala, podem diminuir essa vantagem da Tesla quando voltarem seu foco para isso."

Casos semelhantes

Se ainda há muitas questões sobre o futuro da empresa e o foco dos negócios de Elon Musk nos próximos anos, há também diversos exemplos de papéis que sempre pareciam estar subindo demais, mas continuaram sua trajetória de alta porque as companhias deslancharam. 

"A Amazon chegou primeiro no seu setor, no fim dos anos 1990, e montou infraestrutura gigantesca", diz Balbina. "Sempre me perguntam se ainda vale a pena, e eu digo que sim. O ritmo de crescimento começa a diminuir quando chega em certo patamar, mas vai continuar crescendo."