Itaú vê inflação maior e antecipa cenário de alta de juros para maio

O Copom abandonará o 'forward guidance' ao anunciar na próxima semana sua decisão de política monetária, segundo a área de pesquisa macroeconômica do banco

José de Castro, da Reuters
15 de janeiro de 2021 às 12:39
Alimentos e bebidas puxam a inflação (28.nov.2020)
Foto: Reprodução / CNN

O Banco Central começará a subir a Selic mais cedo, em maio, "em razão do ambiente inflacionário", com chances de a alta dos juros ocorrer já em março, e o Copom abandonará o forward guidance ao anunciar na próxima semana sua decisão de política monetária, disse o Itaú Unibanco em relatório de revisão de cenário divulgado nesta sexta-feira (15).

A antecipação da projeção ocorreu, segundo o Itaú, devido ao ambiente de alta de preços de commodities não compensada pela apreciação da taxa de câmbio. Antes, a equipe de economistas previa que o colegiado do Banco Central iniciaria um ciclo de alta de juros em agosto.

"Reconhecemos que, em caso de novas surpresas altistas no IPCA ou piora do balanço de riscos, a taxa Selic poderia subir ainda antes, já na reunião de março", disse a área de pesquisa macroeconômica do banco, chefiada por Mario Mesquita, ex-diretor do Banco Central.

O forward guidance é uma espécie de orientação que o BC dá em relação aos seus próximos passos e que tem sido usado durante a crise para indicar o compromisso da instituição em não subir os juros.

 

Mas o Itaú segue estimando que a Selic fechará 2021 em 3,5%, ante os atuais 2%, mínima histórica.

A inflação será mais alta em 2021, de 3,6%, ante previsão anterior do banco privado de 3,3%, após alta recente nos preços de commodities agrícolas, em especial da soja e do milho, e seus respectivos impactos nos preços locais de proteínas.

"O cenário climático segue adverso, com chuvas e qualidade do cultivo sendo impactadas na América do Sul e ajudando a manter preços em patamares elevados neste começo de ano", disse o Itaú.

Entre outras variáveis macro, o Itaú manteve projeção de dólar a 4,75 reais ao fim de 2021 --número revisado para baixo em dezembro (ante prognóstico de 5 reais) e que também é a previsão para o término de 2022.

Os economistas avaliaram que a moeda brasileira começou o ano afetada pelo cenário internacional e, "em especial", por incertezas domésticas --com a pressão podendo seguir no curto prazo--, mas ponderaram que os fundamentos indicam apreciação.

"Com a manutenção do teto de gastos nos próximos anos, a incerteza fiscal e o prêmio de risco devem diminuir. Isso, somado à retomada do crescimento econômico, aos preços de commodities mais elevados, fluxos comerciais favoráveis, e ao aumento da taxa básica de juros, abre espaço para uma volta do fluxo de dólares para o país e consequente apreciação cambial."

Os superávits na balança comercial brasileira serão maiores em 2021 e 2022 do que o antecipado antes pelo banco privado --com saldos positivos de US$ 77 bilhões em 2021 e de US$ 70 bilhões em 2022 (ante US$ 70 bilhões e US$ 65 bilhões, respectivamente), apoiados em preços mais altos das commodities.

O banco passou a ver também sobra de dólares na conta corrente, de US$ 3 bilhões, contra cenário anterior de déficit de US$ 3 bilhões.

Do lado fiscal, o Itaú avaliou que o teto de gastos, apesar do cenário "ainda desafiador", deve ser cumprido nos próximos anos. O banco projetou déficits primários de 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 e de 1,5% do PIB em 2022.