Alta de juros é amarga, mas necessária para evitar inflação ainda pior em 2022

BC anunciou o primeiro aumento da Selic em 6 anos e elevou a taxa de 2% para 2,75% ao ano

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
18 de março de 2021 às 05:00
Mulher escolhe produtos em supermercado em São Paulo
Mulher escolhe produtos em supermercado em São Paulo
Foto: CNN (14.set.2020)

Colocado em uma encruzilhada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) acabou seguindo o caminho mais rígido que tinha à sua frente e anunciou, nesta quarta-feira (17), a decisão por subir a Selic, a taxa básica de juros do país, com uma margem expressiva. Ela passa agora dos 2% para 2,75% ao ano, no primeiro aumento desde 2015. 

Quase nenhum analista acreditava mais na manutenção dos 2%, mas a maioria esperava um aumento mais brando, para até 2,5%. Por trás da decisão, está um cenário bastante desafiador: de um lado, está uma economia que, de maneira muito lenta, tenta se recuperar de uma das piores recessões de sua história, e que pode ficar pior conforme a pandemia avança rápido e a vacinação, devagar. Nesse caso, quanto mais baixos os juros, maior o estímulo para que ela cresça. 

De outro lado, está um dólar que não parou mais de subir e uma inflação que acabou ficando bem mais alta do que o inicialmente calculado, o que receita aumento dos juros.

As forças opostas já estão levando até os economistas a falarem em um quadro de estagflação para o país –a amarga mistura de crescimento baixo com preços em alta e que corrói duplamente a renda das pessoas. 

Até onde vão os juros?

A dúvida, daqui para frente, é até onde vai esse novo ciclo de aumentos –as projeções de analistas falam que a Selic pode acabar 2021 em algum lugar entre os 4% e mais de 6%. O Copom se reúne a cada 45 dias para decidir se reduz, mantém ou aumenta taxa de referência.

Em sua justificativa para a alta acima do esperado, o BC citou os sinais de melhora tanto da economia no Brasil quanto no mundo, transbordada, em vários países, com pacotes generosos de estímulos. Isso, ao mesmo tempo em que aquece a economia global, também tende a puxar preços e juros para cima em países importantes, como os Estados Unidos, o que, por consequência, também eleva o dólar e os preços no Brasil

“Por um lado, o agravamento da pandemia pode atrasar o processo de recuperação econômica, produzindo trajetória de inflação abaixo do esperado”, disse o Copom, em seu comunicado sobre a decisão. “Por outro lado, um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco (…), com trajetórias para a inflação acima do projetado.”

Remédio para a inflação

A nova tendência de escalada da Selic, de fato, torna crédito e investimentos produtivos mais caros e atrapalha o consumo, o emprego e o crescimento. Para alguns, porém, o aumento não só se tornou inevitável, como tem até benefícios para a economia e, em última instância, para o consumidor. E o principal desses benefícios é evitar que o aumento de preços, que também é um inibidor de crescimento, fiquei ainda pior. Na visão de muitos, juros voltando a subir pode ajudar também a aliviar a cotação do dólar, atualmente acima dos R$ 5,50.

“O Brasil tem um passado inflacionário importante, e usar os juros para estimular a economia, à revelia da inflação, pode ter efeitos deletérios”, disse Natalie Victal, economista da gestora Garde Asset.

"Há um panorama complicado para a inflação e não se pode brincar com isso. Inflação elevada corrói o poder de compra e quem mais sente é a classe mais baixa. Então, é importante, sim, controlá-la."

Natalie Victal, economista da Garde Asset


Na visão de Victal, adiar o aumento de juros, agora, acabaria resultando em aumentos de preços que continuariam salgados também ao longo de 2022. Os efeitos de uma alteração na Selic demoram meses para se espraiar sobre a economia, e é por isso que a decisão do BC, hoje, já está tentando preservar, majoritariamente, a saúde econômica de 2022. 

A projeção da Garde é que o IPCA, o indicador oficial de inflação do país, encerre este ano em 5,5%, o que faria do resultado o pior desde 2016. Em 2022, já em resposta aos apertos de juros deste ano, esse número pode ceder para algo mais próximo dos 3,5%. A Selic, por sua vez, deve encerrar 2020 já nos 6%, na projeção da gestora, uma das mais altas do mercado. 

Alívio (limitado) para o câmbio

A economista e sócia da casa de análises Nord Research Marilia Fontes destaca também que, embora não seja a única razão, os juros extremamente baixos no Brasil foram um dos fatores que ajudaram a chutar o dólar para o nível onde chegou, já que os rendimentos baixos fazem os investidores estrangeiros da renda fixa irem embora. 

O aumento gradual da Selic, pode, em sua visão, ajudar um pouco a reduzir essa cotação. “É uma pressão a menos sobre o câmbio, que pode ficar abaixo dos R$ 5,50 com os juros subindo”, disse ela. 

"A alta é ruim para a atividade, porque não está subindo porque a economia está aquecida, mas porque o câmbio desvalorizou e nossos preços subiram muito. Mas, no caso atual, inflação seria pior; no Brasil não se pode dar mole para ela. O BC sentiu o cheiro de fumaça e agiu corretamente."

Marilia Fontes, sócia da Nord Research