Frota brasileira de veículos é a mais velha dos últimos 25 anos

Estudo indica que carros conduzidos no país têm, em média, 10,2 anos – pior resultado desde 1995; trajetória de renovação foi interrompida na crise de 2014

Cleide Silva, do Estadão Conteúdo
21 de março de 2021 às 09:21
Segundo estudo, idade média dos carros brasileiros chegou a 10,2 anos
Segundo estudo, idade média dos carros brasileiros chegou a 10,2 anos
Foto: José Cruz - 9.jun.2015/Agência Brasil

A idade média dos automóveis conduzidos pelos brasileiros passou de uma década, atingindo 10,2 anos, o pior resultado dos últimos 25 anos. Quanto mais velhos, maior a chance de se envolverem em acidentes e de emitir mais poluição se não forem bem cuidados.

O envelhecimento tem a ver com o “pífio” crescimento da frota de automóveis no ano passado por causa da crise sanitária, explica Elias Mufare, diretor do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), entidade responsável pelo estudo que é atualizado anualmente.

Segundo ele, se diminui a entrada de modelos novos no mercado, a idade média da frota aumenta. A pandemia do coronavírus levou a uma queda de 28,6% nas vendas de automóveis novos no ano passado. Descontando-se a taxa de mortalidade (carros com perda total ou desmanches), o total de carros em circulação soma 38,1 milhões de unidades, aumento de apenas 0,5% em relação a 2019.

É o menor porcentual de crescimento desde o início dos anos 2000 quando o Sindipeças começou a publicar esse indicador no relatório sobre a frota brasileira. “Carros mais velhos têm maior possibilidade de apresentar defeitos e provocar acidentes, lentidão no trânsito e emitir mais poluentes se não forem feitas as manutenções corretas”, explica Mufarej.

Em 1995, a idade média dos automóveis bateu em 10,3 anos. Desde então, seguiram-se 18 anos de rejuvenescimento, chegando a 8,6 anos em 2013. A trajetória de renovação foi interrompida na crise econômica de 2014 e seguiu até o ano passado, mesmo com a pandemia derrubando as vendas. Fábricas e revendas ficaram fechadas no período mais crítico de contaminações.

O consumidor se retraiu diante do aumento do desemprego e das incertezas para o futuro.

O músico e professor José Ivo Silva, de 60 anos, planejava trocar seu Hyundai HB20 2015 em meados do ano passado por um modelo zero quilômetro. Morador da capital paulista, ele e a esposa – que é microempresária – utilizam o carro com frequência para trabalho e lazer, mas ficaram com receio de usar o dinheiro poupado para o carro novo num momento de incertezas.

“O número de alunos diminuiu, assim como o de clientes da minha esposa, então decidimos deixar a compra para meados deste ano”, diz Silva. “Mas agora não sabemos se será possível, pois está batendo a insegurança novamente.”

Já a consultora de cosméticos Michele Capua, de 43 anos, viu o desejo de ter um BMW se desfazer em razão da alta dos preços. Ela e o marido tinham escolhido o modelo no início do ano passado, mas veio a pandemia e decidiram esperar. 

“Recentemente, voltamos à loja e o preço está quase o dobro de antes, em razão da alta do dólar, então vamos continuar com o carro atual mesmo", diz.

Venda de carros novos diminuiu com a pandemia do novo coronavírus
Venda de carros novos diminuiu com a pandemia do novo coronavírus
Foto: Lucy Nicholson - 28.mar.2018/Reuters

Sexta maior frota do mundo

Um ano antes da crise de 2014, a participação na frota dos automóveis com até três anos de uso, considerados seminovos, era de 27%, número que caiu para 15% em 2020. A fatia daqueles com mais de dez anos passou de 35% para 44%, enquanto a dos intermediários, com quatro a dez anos, subiu de 38% para 41% do total em circulação.

A frota total, incluindo comerciais leves, caminhões e ônibus, soma 46,2 milhões de veículos, alta de apenas 0,7% em relação a 2019 e também o menor crescimento da série. 

Ainda assim, é a sexta maior entre todos os países, atrás de EUA, China, Japão, Rússia e Alemanha. A idade média do total de veículos que rodam pelo país é de 10 anos.

Mufarej lembra que o envelhecimento da frota circulante, por outro lado, permite melhor desempenho do mercado de reposição de peças. O estudo tem o objetivo de subsidiar fabricantes de autopeças, pois, sabendo a quantidade e a idade média dos veículos, facilita programar a produção para o ano.