Navio encalhado aprofunda caos na navegação -e impacto pode chegar ao seu bolso

As despesas crescentes com frete em breve podem significar preços mais altos para os consumidores

Por Hanna Ziady , CNN Business
27 de março de 2021 às 05:00
Imagem de satélite do Ever Given, navio encalhado no Canal de Suez
Imagem de satélite do Ever Given, navio encalhado no Canal de Suez
Foto: CNES 2021/AIRBUS DS/Reuters

O canal de Suez, uma das artérias comerciais mais vitais do mundo, foi bloqueado pelo navio Ever Given, de 400 metros de comprimento, que encalhou e gerou um congestionamento de mais de 200 embarcações que pode levar semanas para ser resolvido.

Mas, antes mesmo do acidente, ocorrido no início desta semana, cadeias de abastecimento globais já estavam funcionando no limite, encarecendo o transporte internacional de mercadorias e causando a escassez de praticamente tudo, de bicicletas ergométricas a queijo, em um momento de demanda sem precedentes.

Um fechamento prolongado da principal rota entre ocidente e oriente pode piorar ainda mais as dificuldades de abastecimento. Atrasos dispendiosos ou desvios para rotas mais longas aumentarão a pressão sobre as empresas que já enfrentam escassez de contêineres, congestionamento portuário e restrições de capacidade.

O encalhe do Ever Given está atrasando remessas de bens de consumo da Ásia para a Europa e a América do Norte, e de produtos agrícolas na direção oposta. Na sexta-feira (26), cerca de 237 navios, incluindo petroleiros e dezenas de embarcações porta-contêineres, como o próprio Ever Given, aguardavam a liberação da passagem pelo canal, por onde escoa cerca de 12% do comércio global.

“Tem havido uma grande e inédita convergência de restrições nas cadeias de abastecimento”, declarou ao CNN Business Bob Biesterfeld, CEO da CH Robinson, uma das maiores empresas de logística do mundo. Segundo ele, os gargalos são generalizados, afetando o transporte aéreo, marítimo e rodoviário. “É algo de fato sem precedentes”, observou.

Custos de frete em alta

Mais de 80% do comércio global em volume é movido por mar, e as interrupções estão adicionando bilhões de dólares aos custos das cadeias de suprimentos. O custo médio para enviar um contêiner de 12 metros do norte da Ásia para o norte da Europa disparou de US$ 1.040 (cerca de R$ 5.950) em junho passado para US$ 4.570 (cerca de R$ 27 mil) em 1º de março, de acordo com a S&P Global Platts.

Em fevereiro, os custos de transporte de contêineres para importações marítimas de mercadorias dos EUA totalizaram US$ 5,2 bilhões (cerca de R$ 29,7 bilhões), em comparação com os US$ 2 bilhões (cerca de R$ 11,4 bilhões) gastos no mesmo mês de 2020, de acordo com a consultoria S&P Global Panjiva.

As despesas em breve podem significar preços mais altos para os consumidores, adicionando pressão de alta à inflação. É um cenário de pesadelo para Wall Street, que já teme que uma alta nos preços possa forçar o Federal Reserve (banco central americano) a aumentar as taxas de juros nos Estados Unidos mais cedo do que o esperado.

“No momento, muitos desses custos estão sendo absorvidos pelas cadeias de abastecimento”, afirmou Chris Rogers, analista de pesquisa da S&P Global Panjiva. “Mas acho inevitável que seja repassado aos consumidores, só vai levar tempo”, acrescentou.

O coronavírus causou estragos nas cadeias de suprimentos globais no ano passado, conforme lockdowns fechavam temporariamente as fábricas e interrompiam o fluxo normal do comércio. A atividade econômica desacelerou drasticamente no início da pandemia, e a rápida recuperação nos volumes de comércio que se seguiu pegou as empresas desprevenidas.

Um aumento na produção industrial e uma demanda aparentemente insaciável de consumidores domésticos para bens como televisores, móveis e bicicletas ergométricas tem sobrecarregado os fornecedores e comprometido a disponibilidade dos produtos.

Os fabricantes também têm lutado para assegurar a compra de componentes cruciais. As principais montadoras, incluindo a Ford e a Volkswagen, foram forçadas a deixar as fábricas ociosas devido à escassez de chips de computador, causada pela alta demanda por smartphones, sistemas de jogos e outros equipamentos.

“Um ano atrás, o comércio global desacelerou completamente quando a pandemia de Covid-19 atingiu a China e depois se espalhou pelo mundo”, lembrou Gene Seroka, diretor executivo do porto de Los Angeles, em uma apresentação este mês. “Hoje, estamos no sétimo mês de um aumento histórico das importações, impulsionado por uma demanda sem precedentes por parte dos consumidores norte-americanos”, acrescentou.

As importações marítimas dos EUA foram quase 30% maiores em fevereiro do que no mesmo mês do ano passado e 20% acima de fevereiro de 2019, de acordo com a S&P Global Panjiva.

O aumento das importações nos Estados Unidos e em outros lugares levou a uma escassez mundial de contêineres. Tudo, de carros e máquinas a roupas e outros produtos básicos de consumo, é despachado nessas caixas de metal, fabricadas principalmente na China. Muitas dessas fábricas de contêineres interromperam a produção no início da pandemia, diminuindo o ritmo de entrada de novas cargas, de acordo com Rogers.

Nos lugares errados

As exportações da China se recuperaram com bastante rapidez, em comparação com o resto do mundo. Ao mesmo tempo, as principais companhias marítimas cancelaram dezenas de viagens para responder à calmaria anterior no comércio. O resultado foi que os contêineres vazios se amontoaram em todos os lugares errados e não puderam atender à demanda repentina na Europa e na América do Norte por produtos feitos na Ásia.

A Hapag-Lloyd, uma das maiores transportadoras marítimas de contêineres do mundo, disponibilizou 52 navios apenas para mover centenas de milhares de contêineres vazios para onde eram mais necessários. Em tempos normais, haveria menos de dez embarcações nesse tipo de operação.

“Na verdade, isso é cerca de um navio por semana que não faz nada mais do que mover contêineres vazios”, afirmou o CEO Rolf Habben Jansen a investidores na semana passada.

O afluxo de importações agravou os problemas nos portos congestionados, que lutam com a escassez de mão de obra devido à Covid-19 e com uma desaceleração nas operações causada por medidas de distanciamento social e quarentenas.

Na quarta-feira (24), havia duas dúzias de navios fundeados aguardando autorização para desembarque no porto de Los Angeles ou no porto vizinho de Long Beach, de acordo com o porta-voz do porto de Los Angeles, Phillip Sanfield.

“No porto de Los Angeles, estamos trabalhando ativamente em mais de 17 navios porta-contêineres por dia”, disse Sanfield ao CNN Business. “Antes da pandemia, estaríamos trabalhando com cerca de dez desses navios por dia, e nenhum deles estaria esperando na fila para entrar”.

O porto californiano processou o equivalente a quase 800 mil contêineres de 6 metros no mês passado. Foi o mês de fevereiro mais movimentado em seus 114 anos de história.

Empresas sentem a tensão

Empresas como a Under Armour, Hasbro, Dollar Tree, Urban Outfitters e Crocs alertaram sobre a crise da cadeia de abastecimento recentemente, apontando para a escassez de contêineres, congestionamento portuário, aumento dos custos de transporte e desafios de logística.

A Costco disse no início deste mês que estava tendo problemas para estocar queijos importados devido à escassez de contêineres e gargalos no transporte.

Em uma análise de 7.000 resultados de empresas globais, divulgados em janeiro e fevereiro, a S&P Global Panjiva descobriu que mais de um quarto deles mencionou a palavra “frete”, 37% abordaram o tema “logística” e metade debateu sobre cadeias de suprimentos.

“Sabemos que a pressão do frete no varejo veio para ficar e incluímos isso em nossos planos futuros”, pontuou Mark Tritton, CEO da Bed Bath & Beyond, aos investidores em janeiro.

A Aston Chemicals, uma empresa do Reino Unido que fornece insumos a fabricantes europeus de produtos de higiene pessoal, disse que seus custos de remessa foram 6,5 vezes mais caros em janeiro em comparação com novembro de 2020.

“Pagamos quase US$ 14 mil (cerca de R$ 80 mil) por um contêiner em janeiro”, disse o diretor Dani Loughran, citando um carregamento da Malásia para o porto de Felixstowe, na Inglaterra. Apenas dois meses antes, a mesma operação havia custado US$ 2.100 (cerca de R$ 12 mil).

A Peloton culpou os atrasos no porto da Costa Oeste dos Estados Unidos por causar “tempos de espera mais longos do que o aceitável” para a entrega de suas bicicletas ergométricas de alta qualidade. A empresa disse aos acionistas em fevereiro que está investindo mais de US$ 100 milhões (cerca de R$ 571 milhões) para agilizar as entregas por via aérea e marítima nos próximos seis meses, a fim de melhorar os prazos de entrega.

Não é a única empresa que recorre a aviões para transportar mercadorias que normalmente viriam de navio, já que as empresas lutam para atender à demanda dos clientes.

De acordo com Biesterfeld da C.H. Robinson, vários bens duráveis normalmente transportados em contêineres estão sendo levados em aviões, como brinquedos e jogos. As empresas estão “escolhendo o frete aéreo porque os estoques estão muito baixos”.

O frete aéreo é mais caro do que o frete marítimo, mesmo em circunstâncias normais e, portanto, reservado para mercadorias de alto valor. Os custos estão ainda mais altos no momento, porque menos voos transportando viajantes significa menos capacidade disponível para carregar mercadorias, uma parte das quais normalmente é acomodada nos porões dos aviões de passageiros.

Isso só aumentará os custos enfrentados pelas empresas e poderá chegar aos consumidores em breve.

Futuro mais caro

As empresas até agora falaram muito pouco sobre como planejam responder às altas nas taxas de frete, mas há sinais iniciais de que os preços de importação estão subindo. De acordo com o Escritório de Estatísticas de Trabalho dos EUA, os preços de importação do país tiveram seu maior aumento mensal em janeiro desde março de 2012.

“Prevemos que a forte demanda dos consumidores continuará nos próximos meses e não vemos mudanças significativas na capacidade nesse curto período de tempo”, disse Biesterfeld.

Segundo ele, o custo para mover mercadorias por via aérea, marítima, caminhão e trem está agora “estruturalmente alto” em relação a 2019 e os contratos refletem isso. “Acho que os custos são reais e serão repassados para os consumidores”.

A extensão em que isso afeta os preços ao consumidor varia de um produto para outro. Os bens que dependem mais de componentes importados provavelmente custarão mais. Ao mesmo tempo, se o custo dos produtos importados aumentar significativamente ou se esses produtos se tornarem menos disponíveis, isso poderia dar aos produtores domésticos uma maior margem de manobra para aumentar os preços, segundo Joanna Konings, economista sênior do ING.

Analistas do Commerzbank disseram em uma nota aos clientes na sexta-feira (26) que a confusão do canal de Suez poderia fazer com que o petróleo se tornasse mais caro para os consumidores por causa das taxas mais altas dos petroleiros como resultado do incidente.

Para a Aston Chemicals, os aumentos de custos foram tão graves que a única opção foi repassá-los aos clientes, em geral empresas que fazem produtos de uso diário, como xampus, hidratantes e cosméticos.

Se essas companhias, por sua vez, decidirem aumentar os preços para seus clientes, neste caso os varejistas e os consumidores podem começar a sentir o aperto em breve, segundo Konings. “A maioria dos preços ao longo da cadeia de suprimentos seguiu em uma direção, que foi de alta, então isso vai se refletir em algum lugar”, afirmou.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).