JPMorgan apostou R$ 23 bilhões na Superliga. Como o banco conseguiu errar tanto?

Ao financiar competição, banco não se antecipou às reações negativas que arranhariam sua imagem na Europa

Julia Horowitz, do CNN Business
23 de abril de 2021 às 18:53
Campo de futebol
Campo de futebol
Foto: jgareri / Getty Images

 

Quando o JPMorgan concordou em financiar a Superliga Europeia, uma competição exclusiva dos clubes de futebol mais ricos do mundo, o banco já esperava discussões acaloradas.

Mas o que a instituição não contava era com as reações que de fato aconteceram: revolta dos fãs, de dirigentes esportivos, do primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson, do presidente francês Emmanuel Macron, além da família real britânica. Assim, os esforços para formar a competição ruíram em questão de dias.

 

Na última terça-feira (20), seis clubes da Premier Liga inglesa anunciaram sua retirada do projeto (Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham Hotspur). No dia seguinte, a baixa veio da Itália (Inter Milan e AC Milan) e da Espanha (Atlético de Madrid). “Não acho que o projeto ainda esteja funcionando” foram as palavras de um dos arquitetos do plano, o presidente do italiano Juventus, Andrea Agnelli.

Os 12 times que tentaram formar a competição foram acusados de tentar orquestrar uma grande tomada de dinheiro se valendo do esporte, o que vai contra as próprias tradições do futebol europeu.

E veio do JPMorgan, maior banco da América Latina, um empréstimo de 3,5 bilhões de euros (cerca de R$ 23 bi) para dar início aos trabalhos da Superliga. Agora, a instituição está sendo pintada como cúmplice dos bilionários donos dos clubes por alinhar sua marca à tentativa de acabar com um dos ativos culturais mais importantes da Europa, que tem suas raízes na classe trabalhadora.

Nesse contexto, o banco tem sofrido repetidas críticas e sido alvo de postagens irônicas nas redes sociais. Uma delas expõe uma carta recente da corporação aos acionistas, na qual o CEO Jamie Dimon afirma que “as empresas devem agir de forma ética e moral para ganhar a confiança de seus clientes”. Também houve quem criticasse os esforços americanos para dominar o esporte europeu.

Mas como o banco errou tanto?

Nesta sexta-feira (23), o JPMorgan quebrou o silêncio e se pronunciou sobre o assunto. "Está claro que avaliamos mal como este acordo seria visto pela comunidade do futebol como um todo e como poderia impactá-la no futuro. Aprenderemos com isso", disse um porta-voz do banco.

Fontes internas afirmam que o envolvimento do banco nesta trama foi examinado por um comitê de negócios que avaliou potenciais problemas para a reputação ou riscos de crédito. Na avaliação, previu-se que poderia haver alguma controvérsia, mas que, no final, seria algo “para o futebol decidir”. 

 

“Há sempre um grande componente emocional [nos esportes]”, disse a fonte à CNN americana. “Quando você está tomando uma decisão financeira sobre um empréstimo, você tem que tentar colocar a emoção de lado”.

Ao que tudo indica, as discussões sobre a formação desta nova liga já estavam em andamento há alguns anos, mas o banco não estava envolvido nas negociações dos clubes. A relação do JP com os clubes é algo antigo, exemplificada pelo financiamento do estádio do Real Madrid, cujo presidente Florentino Perez também estava definido para liderar a Super Liga.

O contrato dos bilhões de euros foi uma aposta de longo prazo, com financiamento previsto para ser pago ao longo de 23 anos. A garantia ainda incluía os futuros direitos de transmissão, que, como previam os clubes, seriam extremamente lucrativos.

Ao aceitar participar do projeto, o banco subestimou a magnitude das reações, que foram classificadas internamente como “extraordinárias”. Embora o banco não sofra perdas financeiras com a interrupção da liga, teve sua imagem arranhada entre os fãs do esporte.   

Nos tabloides britânicos, essa participação teve grande repercussão. “O risco para a reputação em ser o principal financiador é enorme. Os golpistas de bancos verão isso como um presente”, escreveu o comentarista Ben Marlow no The Telegraph.

Já o The Guardian observou que é uma sorte do JP ainda não ter lançado seu banco digital no Reino Unido. "Se tivesse, provavelmente já seriam ouvidos os pedidos de boicote", escreveu o editor financeiro Nils Pratley.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original)