Salto nos preços da carne bovina afeta consumidores de Buenos Aires à Califórnia

Globalmente, o salto nas cotações está contribuindo para que os preços dos alimentos atinjam o maior nível desde 2014, segundo a agência das Nações Unidas

Por Agustin Geist e Tom Polansek e Ana Mano, da Reuters
27 de maio de 2021 às 19:43 | Atualizado 27 de maio de 2021 às 20:09
Carne argentina sendo servida
Carne argentina sendo servida
Foto: Rodrigo Dias / EyeEm / Getty Images

 

Os preços da carne bovina estão em disparada em todo o mundo, tirando a proteína dos cardápios de Buenos Aires --cidade conhecida por seu amor ao bife-- e prejudicando os churrascos de verão nos Estados Unidos, em meio a um aumento das importações pela China e à alta nos custos da ração animal.

Globalmente, o salto nas cotações está contribuindo para que os preços dos alimentos atinjam o maior nível desde 2014, segundo a agência das Nações Unidas para o setor. O movimento afeta especialmente os consumidores mais pobres, que lutam para se recuperar das paralisações econômicas causadas pela pandemia de Covid-19.

A alta nos preços da carne bovina tem sido desencadeada pelo aumento na demanda chinesa, pela oferta limitada de gado em alguns países, por uma escassez de mão-de-obra nos frigoríficos e pelo salto nos custos com ração. A tendência está começando a sacudir os mercados fornecedores e a impactar políticas para o setor.

Em 17 de maio, a Argentina, segunda maior fornecedora de carne bovina da China --atrás apenas do Brasil--, interrompeu seus embarques por um mês para tentar conter o aumento da inflação. O país culpou a demanda asiática pela redução das ofertas, que fez com que os preços domésticos subissem.

"O preço da carne subiu muito, é uma loucura", afirmou Fernanda Alvarenga, 38 anos, funcionária administrativa em Buenos Aires.

Ela disse ter reduzido o consumo doméstico de carne a apenas um dia por semana, ao invés de uma vez a cada dois dias. Ela também começou a preparar milanesa, um prato popular de carne empanada, com cortes mais baratos.

"Custa algo em torno de 4 mil a 5 mil pesos (42 a 53 dólares) por mês para comprar carne. Antes, com a mesma quantia você conseguia comprar muito mais."

Os preços da carne bovina na Argentina, onde o consumo da proteína é visto como um direito humano básico e as zonas rurais são lotadas de ranchos, dispararam mais de 60% em um ano. O consumo per capita despencou, atingindo uma mínima de 100 anos em abril, segundo relatório de uma câmara do setor de carnes.

Memes compartilhados em grupos de WhatsApp lamentam como a carne bovina se tornou inacessível. Entre eles, estão piadas de que a pandemia levou as pessoas a comer polenta, em vez de carne --uma crítica irônica aos esforços do governo para alimentação durante a pandemia.

Apetite chinês 

Nos primeiros meses de 2021, a China importou 178.482 toneladas de carne bovina da Argentina, ante 152.776 toneladas em igual período do ano passado, de acordo com dados da Administração Geral de Alfândegas do país asiático.

A maioria das importações são de animais mais velhos que não são consumidos internamente, segundo a câmara do setor de carnes da Argentina, que se opõe à proibição governamental aos embarques do país. Em protesto contra a medida, produtores interromperam o comércio local de animais.

A China aumentou as importações de carne após um surto de peste suína africana dizimar seu rebanho de porcos a partir de 2018. Mais recentemente, Pequim suspendeu algumas importações de carne bovina provenientes da Austrália, sua terceira maior fornecedora do produto entre 2018 e 2020, após as relações entre os dois países se deteriorarem. Desde então, os importadores chineses têm dependido mais de outras nações.

"A carne bovina geralmente era consumida fora de casa, como em restaurantes. Mas o consumo doméstico está cada vez mais popular", disse Pan Chenjun, analista sênior do Rabobank.

Enviar carne bovina a importadores como a China é mais lucrativo para países como Argentina e Brasil, devido à desvalorização das moedas locais e à redução na demanda interna, disse Upali Galketi Aratchilage, economista sênior da Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas.

O resultado, porém, é que as elevadas exportações podem reduzir a oferta doméstica, empurrando os preços para cima, acrescentou Aratchilage.

Os EUA e o Brasil ainda enfrentam dificuldades para reabastecer seus estoques domésticos de carnes bovina, suína e de frango congeladas, após um salto nos embarques para a China no ano passado, que ocorreu mesmo diante de surtos de Covid-19 em frigoríficos, que levaram trabalhadores a adoecer e prejudicaram a produção.

Preços "astronômicos" 

Em Clovis, no Estado norte-americano da Califórnia, o veterano aposentado do Exército Darin Cross disse que ficou chocado com o custo de um pacote de 0,9 kg de carne moída no Walmart --antes vendido a 8 dólares, o produto vale agora 10 dólares. Como resultado, o homem de 55 anos está consumindo mais vegetais.

"Para nós que temos uma renda fixa, esse é um aumento bastante acentuado em questão de algumas semanas", disse Cross. "Meu medo é que (o preço) simplesmente continue subindo."

O preço unitário médio da carne bovina in natura nos EUA avançou 5% em abril ante março, e cerca de 10% em relação ao mesmo mês do ano anterior, conforme dados da NielsenIQ. Os preços da carne suína e de frango estão cerca de 5,4% acima do patamar visto no ano passado.

Nos arredores de Nova Orleans, Tina Howell, 45 anos, disse que parou de comprar bifes a granel para abastecer seu freezer porque os mercados deixaram de vendê-los. Ela destacou que os cortes de "New York strip steak" têm sido vendidos por cerca de 12 dólares o quilo --antes, custavam 7 dólares.

"Os preços estão astronômicos", disse Howell, que trabalha no setor imobiliário.

A alta dos preços está beneficiando frigoríficos como a Tyson Foods, maior processadora de carne dos EUA em termos de vendas. A empresa disse que os cheques distribuídos pelo governo norte-americano como forma de estímulo estão dando impulso a uma demanda excepcional, já que fazem com que os consumidores tenham mais dinheiro para comprar alimentos.

Embora as ofertas de gado nos EUA sejam amplas, a produção de carne bovina tem sido limitada por uma escassez de mão-de-obra e pela capacidade de processamento dos frigoríficos, de acordo com produtores de carne.

As companhias do setor têm lidado com custos mais altos com a alimentação do gado, já os preços de soja e milho operam ao redor de máximas de oito anos. Algumas delas estão repassando esses custos aos consumidores. O aumento da demanda por parte de restaurantes também dá suporte aos preços, à medida que restrições relacionadas à Covid-19 são flexibilizadas.

A Omaha Steaks, de Nebraska, que vende carne bovina premium, acredita que a demanda nos EUA permanecerá forte durante o verão (do Hemisfério Norte), já que as pessoas estão dispostas a ter reuniões maiores e a pagar por alimentos de alta qualidade, disse o CEO da empresa, Todd Simon.

As brasileiras JBS e BRF, por sua vez, afirmaram que têm enfrentado dificuldades para repassar os custos mais elevados com ração aos consumidores no mercado doméstico, embora a JBS tenha se beneficiado de suas operações nos EUA.

Os preços de alguns cortes de bovinos no Brasil subiram até 30% no último ano, devido à oferta restrita de gado e à forte demanda por exportações, disse Guilherme Malafaia, pesquisador do setor de bovinos da Embrapa. Junto com Hong Kong, a China compra 60% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil.

Para os brasileiros, no entanto, os altos preços levaram o consumo doméstico a cair 14% frente aos níveis pré-pandemia, ao menor patamar em 25 anos. Os consumidores voltaram seu foco para as carnes suína e de frango, além dos ovos, que são historicamente mais baratos.

Em 2020, o consumo per capita de carne suína no Brasil cresceu 5%, enquanto o consumo de frango avançou 6%, ambos em comparação anual, segundo Marcelo Miele, pesquisador para aves e suínos da Embrapa. Os brasileiros agora comem 251 ovos por pessoa por ano, o maior nível da história, disse ele.

Os açougues, enquanto isso, sofrem com a queda nas vendas, à medida que alguns consumidores cortam a carne bovina do cardápio ou passam a consumir cortes mais baratos.

Com os preços de "carnes médias" --como bifes T-bone e filés de costela-- aumentando de forma acentuada nos EUA, o açougueiro Shawn Smith disse que mais pessoas estão comprando carne moída em sua loja em Albany, Oregon.

Já o açougueiro argentino Pablo Alberto Monzón, de 26 anos, afirmou que as vendas de carne diminuíram em um terço em sua loja, localizada em um bairro de classe trabalhadora em Buenos Aires. Menos clientes estão entrando no estabelecimento --e os que entram descobrem que seu dinheiro não é suficiente para muita coisa.

"Pessoas que antes podiam comprar costelinhas para grelhar agora se contentam com bife de flanco", disse Monzón.

(Reportagem de Tom Polansek em Chicago, Maximilian Heath e Agustin Geist em Buenos Aires, Ana Mano em São Paulo, Rod Nickel em Winnipeg, Dominique Patton em Pequim e Redação Pequim)