Ponte aérea Rio-SP testa embarque com biometria facial; veja como funciona

Quem embarcar nesses voos não precisa apresentar passagem aérea nem documento de identificação. Basta mostrar o rosto (sem máscara)

Thiago Vinholes, colaboração para o CNN Brasil Business
20 de junho de 2021 às 04:30 | Atualizado 20 de junho de 2021 às 16:06
Biometria facial em aeroportos brasileiros
Biometria facial em aeroportos brasileiros
Antes de se aproximar do visor, o passageiro deve fornecer foto e CPF para a companhia aéreaCrédito: Divulgação / Idemia
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Trecho mais movimentado da aviação comercial brasileira, a ponte aérea Rio-São Paulo começou a receber na última terça-feira (15) o embarque de passageiros por meio de reconhecimento facial. Ou seja, quem embarcar nesses voos não precisa apresentar passagem aérea nem documento de identificação. Basta mostrar o rosto (sem máscara).

A iniciativa, chamada de “Embarque + Seguro”, é um projeto-piloto capitaneado pelo Ministério da Infraestrutura (MInfra), com tempo indeterminado de duração, que está disponível somente nos voos da ponte aérea operados pela companhia Azul Linhas Aéreas. Apesar do caráter experimental, os testes com passageiros nos aeroportos Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e em Congonhas, na capital paulista, dão um vislumbre de como serão as viagens de avião num futuro próximo.

O equipamento de reconhecimento facial empregado nos terminais aéreos em São Paulo e no Rio de Janeiro é fornecedido pela Idemia, empresa multinacional especializada em tecnologias de biometria. O sistema identifica e valida o embarque dos passageiros ao cruzar informações com o banco de dados do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), que também colabora no projeto.

“O embarque por reconhecimento facial já era uma tendência antes da pandemia da Covid-19. Agora, com todos os cuidados de segurança adotados nos aeroportos no último ano, esse movimento ganhou mais força”, disse Rodrigo Costa, diretor de desenvolvimento de negócios da Idemia no Brasil, em entrevista ao CNN Brasil Business.

“O sistema de biometria facial processa o embarque de cada passageiro em até três segundos, enquanto um embarque manual, feito por uma pessoa, pode demorar 10 segundos ou mais”, comparou Costa. “E o sistema ainda pode ser mais rápido. O projeto-piloto na ponte aérea utiliza dados biometricos de um servidor externo do Serpro. Futuramente, cada aeroporto poderá contar com seu próprio servidor do Serpro, aumentando a velocidade da transmissão de dados.”

No âmbito do programa Embarque + Seguro, iniciado em outubro de 2020, o embarque por reconhecimento facial já foi testado anteriormente nos aeroportos de Florianópolis (SC), Salvador (BA), Belo Horizonte/Confins (MG) e no Santos Dumont (RJ).

“A Idemia também participou desses testes fornecendo o software de reconhecimento. No entanto, nessas avaliações os passageiros ainda tinham de apresentar o bilhete de embarque, além de passar pelas estações de biometria. Agora, na ponte aérea Rio-São Paulo, estamos testando o processo 100% digital simultaneamente em dois aeroportos, sem a apresentação de qualquer documento ou bilhete de embarque”, explicou Costa.

Além de testar a tecnologia em si, a avaliação do sistema na ponte aérea tem como objetivo analisar evoluções em indicadores como redução no tempo em filas, no acesso à sala de embarque e à aeronave, além dos custos de operação. Com os testes, o MInfra e outras partes envolvidas no programa, incluindo Infraero, companhias aéreas e administração de aeroportos, esperam aumentar a segurança aeroportuária já que a biometria facial permite a identificação rápida e precisa dos passageiros prestes a embarcar.

Como funciona?

Ao chegar ao aeroporto de Congonhas ou Santos Dumont para realizar o check-in na ponte aérea, o passageiro da Azul é convidado a participar do projeto. Após concordar, o viajante recebe uma mensagem no celular solicitando autorização para a obtenção do número do CPF e uma foto.

Com autorização do passageiro, o atendente da companhia aérea, utilizando o aplicativo do Serpro, realiza a validação biométrica da pessoa, comparando os dados e a foto, tirada na hora, com as informações dos bancos de dados governamentais. Feito isto, o viajante fica liberado para ingressar na sala de embarque e na aeronave passando pelos pontos de controle biométricos sem a necessidade do usuário apresentar documento e a passagem aérea. Em tempos de pandemia, vale lembrar que o passageiro deve retirar a máscara do rosto para o sistema efetuar o reconhecimento.

“O sistema de reconhecimento facial usa duas câmeras, criando uma perpectiva tridimensional. Isso evita, por exemplo, que alguém tente enganar o sistema mostrando a imagem de outra pessoa ao totem de reconhecimento”, salientou Costa.

O Aeroporto de Changi, em Cingapura, foi o primeiro do mundo a adotar o sistema de embarque 100% digital por meio de reconhecimento facial, em 2018. “O sistema usado em Changi também foi desenvolvido pela Idemia”, contou Costa, acrescentando que a empresa também fornece sistemas de biometria para mais de 1.800 bancos ao redor do mundo e também para governos e forças de segurança. “A Interpol e o FBI usam sistemas de reconhecimento facial da Idemia.”

Segurança de dados

De acordo com Marcelo Sampaio, secretário-executivo do MInfra, o sistema de biometria facial em uso na ponte aérea atende todos os requisitos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “Além de a medida ser segura do ponto de vista sanitário, ao dispensar o manuseio de papeis durante a pandemia, garante a proteção total dos dados dos usuários, pois o Embarque + Seguro 100% Digital atende a todos os preceitos da LGPD.”

Na visão do diretor da Idemia, os passageiros podem ficar despreocupados com a obtenção de dados biométricos. “O sistema, chamado MFACE, capta a biometria facial. Não são fotografias. O programa detecta pontos de reconhecimento no rosto da pessoa, como a distância entre os olhos ou entre boca e o nariz, e compara com as informações armazenadas no banco de dados biométricos. Portanto, mesmo que alguém tenha acesso indevido a esses dados, não será possível construir a imagem de um rosto.”

Uma pesquisa global realizada recentemente pela Associação Internacional de Transporte Aéreo apontou que 70% dos passageiros entrevistados se mostraram dispostos a compartilhar a sua biometria para agilizar o processo de identificação durante o embarque. Ainda não há um estudo específico relativo a aceitação do público brasileiro sobre o emprego da nova tecnologia.

Terminada avaliação e a aprovação do projeto-piloto nos terminais de São Paulo e do Rio de Janeiro, o Governo Federal planeja avançar na implantação efetiva da biometria facial nos principais aeroportos brasileiros, embora não tenha divulgado um prazo para a introdução do sistema. Enquanto isso não acontece, passageiros que viajam na movimentada ponte aérea Rio-SP já podem experimentar a nova forma mais eficiente e segura de embarque.