Duolingo, Robinhood: Wall Street bate recorde de IPOs e terá 2º semestre agitado

Janela prometida para o mercado brasileiro em 2021 se materializa nos EUA, com empresas nacionais no bolo

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
07 de julho de 2021 às 04:30 | Atualizado 09 de julho de 2021 às 11:53
Duolingo
Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Enquanto o mercado brasileiro, que poderia estar fervilhando com aberturas de capital em 2021, volta a patinar com problemas políticos, Wall Street bate recorde de IPOs e deve ter um segundo semestre igualmente agitado.

Até deveremos ter algumas entradas na B3 em julho, como Smart Fit, CBA (Companhia Brasileira de Alumínio) e Multilaser. Mas outras companhias nacionais, como VTEX, Inter e, potencialmente, o Nubank, querem abrir capital diretamente nos Estados Unidos.

Isso porque o mercado norte-americano de ofertas públicas iniciais está em alta este ano, estabelecendo recordes pós-2000 com números de apenas dois trimestres. Segundo o site Stock Analysis, houve 177 IPOs entre abril e junho e impressionantes 400 entre janeiro e março.  

Os SPACs até ajudam a inflar este número, mas o fluxo é inegável e, ao que tudo indica, deve permanecer assim no curto prazo. "O custo do dinheiro está baixo, existe liquidez, muitas economias estão se abrindo. Há uma convergência de fatores nesse caminho", diz Gustavo Aranha, sócio da Geocapital.

"É claro que existe ainda um temor em termos inflacionários, já que o juro norte-americano é muito relevante e pode precificar tudo para baixo. Mas o Fed segue comunicando ao mercado que não vê uma curva tão fechada assim, então os investidores seguem com o pé no acelerador."

Além da fome dos institucionais, 2021 traz ainda a participação massiva e "organizada" dos investidores pessoa física. Eles podem até não fazer preço em grandes companhias já listadas, mas sua entrada em massa pode ser suficiente, segundo especialistas, para inflar um IPO.

Com tudo isso em pauta, empresas como a corretora Robinhood e o app de idiomas Duolingo devem dar as caras no mercado nos próximos dias, a exemplo do que fizeram a empresa de mobilidade DiDi e a marca de donuts Krispy Kreme. O momento não garante, no entanto, o sucesso das estreantes na bolsa de valores. Confira:

Robinhood

A empresa, que pretende levantar US$ 100 mi, revelou que administra mais de US$ 80 bilhões para cerca de 18 milhões de usuários em sua plataforma, mais da metade dos quais são contas de corretagem pela primeira vez. E, por mais que as taxas de corretagem zeradas indiquem o contrário, o negócio já é lucrativo.

Aumentou as vendas para US$ 958,8 milhões no ano passado, um crescimento de 245% em relação ao ano anterior. Teve ainda um lucro de US$ 7,5 milhões em 2020, melhoria significativa em relação ao prejuízo de US$ 106,6 milhões de 2019. Seu ticker em Wall Street será HOOD. 

"A corretora quer ampliar seu portfólio, mas o foco é ganhar credibilidade", Guilherme Zanin, estrategista da Avenue Securities. Como uma empresa de capital aberto, será muito mais difícil, por exemplo, escapar impune das interrupções de negociação e dos erros que afetaram o aplicativo no passado. 

Duolingo

O app de idiomas Duolingo pode até não ser uma empresa clássica de capital aberto, mas está se encaminhando para um IPO gordo nos próximos meses. São 40 idiomas disponíveis, mais de 500 milhões de downloads, 40 milhões de usuários ativos por mês e um valuation de US$ 2,4 obtido enquanto empresa privada. 

Investidores estão empolgados porque a receita da empresa em 2020 atingiu aproximadamente US$ 162 milhões, crescimento de 129% ano a ano. E, embora esse ganho possa ser amplamente atribuído à Covid-19, as vendas do primeiro trimestre de 2021 atingiram US$ 55,4 milhões, ritmo superior ao ano anterior.

"A fama da edtech existe, em parte, graças à sua interface. Ela gamifica (torna mais palatável, como um jogo) o aprendizado por meio de pequenas lições, emblemas, nivelamento, tabelas de classificação e, para garantir o engajamento, um pequeno mascote de coruja alegre", diz Zanin. "E, embora o uso do aplicativo seja gratuito, as assinaturas premium impulsionam a maioria das vendas."

Krispy Kreme

Obviamente, abrir capital não é sinônimo de sucesso, mesmo que os primeiros dias superem as expectativas. A rede de donuts Krispy Kreme, por exemplo, começou a ser negociada na quinta-feira (1) a US$ 16,30 por ação, 4% abaixo de sua oferta pública inicial de US$ 17. 

Desde então, as ações se recuperaram e fecharam quase 25% em alta no primeiro dia de negociação e, depois disso, voltaram a devolver todos os ganhos. Na terça-feira (6), já havia voltado ao patamar de US$ 17.

Mas o CEO da companhia, Mike Tattersfield, continua otimista quanto ao futuro de sua empresa. "Foi um grande dia para nós", disse ao CNN Business. "Estamos abrindo o capital novamente porque realmente transformamos a marca, a cultura e o modelo de negócios da empresa."

Krispy Kreme mudou em direção a uma abordagem omnichannel (estratégia de conteúdo entre canais para melhorar a experiência do usuário), o que significa que está vendendo donuts em lojas de conveniência e supermercados, bem como produtos embalados, como o café da marca. A empresa também está focada em seu negócio de delivery, que hoje representa um alto percentual das vendas, disse ele.

A empresa de 84 anos anunciou em maio que estava, mais uma vez, abrindo o capital. Krispy Kreme fechou seu capital em 2016 após ser comprada por US$ 1,35 bilhão pela JAB Holding Company, empresa privada que investe em marcas de alimentos e bebidas. Tem hoje cerca de 400 lojas nos Estados Unidos e, no total, 1.400 lojas em 33 países.

DiDi

A DiDi é outro IPO gigantesco que parecia bom, mas agora… Suas ações despencaram 25% na terça-feira, à medida que as repercussões continuavam com as notícias dos problemas da empresa na China. Os papéis eram negociados a US$ 11,60 na terça-feira, bem abaixo do preço de fechamento de US$ 15,53 na sexta-feira (2).

Isso porque foi o primeiro dia de negociações desde que os reguladores chineses baniram a plataforma das lojas de aplicativos no país no fim de semana. O governo afirmou, para justificar o banimento, que o app representava um risco de segurança cibernética para os clientes.

A notícia claramente abalou os investidores. Na semana passada, Didi abriu o capital na maior oferta pública inicial dos EUA por uma empresa chinesa desde a estreia do Alibaba em 2014, levantando cerca de US$ 4,4 bilhões.

Mas apenas dois dias depois, a China lançou uma investigação sobre a companhia e suspendeu o registro de novos usuários no aplicativo. O preço das ações da empresa também caiu na sexta-feira.

Didi, que depende enormemente de seu mercado doméstico e tem 377 milhões de usuários ativos somente na China, disse que está atendendo às exigências dos reguladores e trabalhando para fazer alterações em seu aplicativo.

*Com informações de Jordan Valinsky, Allison Morrow, Michelle Toh, Julia Horowitz