Agronegócio tem perspectiva positiva em 2022, mas clima e custos são ameaças

Condições climáticas afetaram desempenho do setor em 2021, que tem cada vez mais espaço na economia

Agronegócio
Agronegócio Paulo Whitaker/Reuters/Arte/CNN

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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O agronegócio é, atualmente, responsável por cerca de metade das exportações do Brasil. O setor está em expansão, com recordes de produção e geração de receita nos últimos anos. O ano de 2021, porém, acabou ficando um pouco abaixo das expectativas, principalmente por questões climáticas, e elas ainda devem afetar o próximo ano.

O setor deve enfrentar ainda altos custos de produção, com os insumos mais caros, o que limita a margem de lucro dos produtores. Nesse caso, essa alta está ligada a questões políticas externas, mas também à desvalorização do real.

Apesar disso, especialistas consultados pelo CNN Brasil Business esperam um ano positivo, apoiado na previsão de uma safra recorde em 2022.

Caso o cenário climático seja mais favorável, o agronegócio deve manter uma tendência de ajuda para os números positivos da economia e do comércio brasileiro.

Desempenho em 2021

Felippe Serigati, professor da FGV e integrante do FGV Agro, afirma que é importante lembrar que o agronegócio não é uma atividade homogênea, e cada setor possui desempenhos particulares, o que não mudou em 2021.

Em geral, porém, ele avalia que “2021 não foi um ano excepcional, mas também não foi tão ruim. O saldo é positivo, mas não para todos”.

Segundo ele, havia uma expectativa de produção no início do ano maior do que o concretizado pelo setor. O grande fator que levou a essa frustração foi o climático, com uma seca intensa em boa parte do ano e geadas em julho.

“Diversas culturas tiveram uma produtividade abaixo do esperado e dos investimentos realizados. As que mais sofreram foram milho, café e cana-de-açúcar”, diz.

Ao mesmo tempo, o cenário não foi tão negativo devido aos preços altos das commodities no exterior e ao real desvalorizado, o que permitiu uma receita boa a partir das exportações para o mercado internacional. Ou seja, mesmo com um volume menor, os preços seguraram as receitas.

Já Carlos Fava Neves, professor da FEA-RP-USP, classifica 2021 como “um ano muito bom. Tivemos quantidades boas de exportações mesmo que o volume tenha caído em relação a 2020. Os valores bateram recordes, deve chegar a US$ 119 bilhões, e a renda no campo cresceu 10% em reais”.

O grande ponto negativo, segundo ele, foi a seca, que para o professor impediu que 2021 fosse “o melhor ano da história do agronegócio”. A queda na produção gerou, por exemplo, uma alta nos preços dos alimentos no mercado interno.

Já no terceiro trimestre, o agronegócio recuou 8%, o pior desempenho em anos, e ajudou a levar o PIB (Produto Interno Bruto) para a segunda queda seguida no ano.

Outro destaque negativo para o professor foi o aumento do desmatamento ilegal na Amazônia. “Isso contribui de forma negativa para a imagem da agricultura, que ficou associada a esse desmatamento”, afirma, o que gera sanções ou uma perda de mercado consumidor no exterior.

Ao mesmo tempo em que o ano, em geral, foi positivo para o setor de pecuária, Fava Neves afirma que a performance acabou prejudicada pelo embargo da China à carne bovina brasileira, que durou três meses e retirou dos produtores o seu maior mercado consumidor.

“Não havia necessidade para um tempo tão longo do embargo. Não era para o problema ter se arrastado por tanto tempo. Foi um fato negativo, desnecessário, mas é preciso que a parceria se mantenha, com o Brasil fornecendo carne e grãos para o mercado chinês e mantendo bons preços para o consumidor chinês”, diz o professor.

Perspectivas para 2022

Segundo Serigati, a perspectiva para 2022 é positiva principalmente pelas projeções de condições climáticas mais favoráveis em boa parte do país, em especial no Centro-Oeste, importante área produtora de soja.

A produção do agronegócio é dividida em duas safras. A primeira, chamada de safra de verão, é plantada no fim de 2021 e colhida no começo de 2022, e a expectativa é que ela tenha um recorde de produção.

“Para a segunda safra a situação está em aberto. Deve ser um cenário neutro, mas pode mudar, não dá para dar certeza”, diz.

Entretanto, a perspectiva positiva de produção deve enfrentar um grande desafio, o de custos elevados de produção. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já estima que os custos devem ser os maiores da história para o setor.

Serigati avalia que a maior parte dos fatores para isso são externos, com uma alta nos preços de insumos e fertilizantes pelo descompasso entre demanda e oferta mundial. Ao mesmo tempo, Belarus, um grande fornecedor de fertilizantes, tem enfrentado problemas políticos com os Estados Unidos e a União Europeia, que impuseram sanções ao país, dificultando a exportação e encarecendo os produtos.

“Ainda há um problema energético, seja pela alta nas commodities ou pelo processo de transição energética para fontes mais verdes, ainda com um descompasso entre demanda e oferta e alta de preços”, afirma o professor.

Além de afetar diretamente a produção, os próprios fertilizantes demandam muita energia na produção, e a alta encarece ainda mais o produto. A China também tem segurado a exportação de fertilizantes para atender o mercado interno, o que piora a situação.

O impacto deve ser menor na safra de verão, cuja maior parte já está plantada, mas pode ser mais duro para a segunda safra.

Já internamente, o grande problema é a taxa de câmbio, com o real desvalorizado ante o dólar, refletindo questões políticas. “O ano eleitoral tende a dar elementos para que o câmbio fique pressionado. Se o dólar sobe em momento de plantio, os custos de produção sobem, mas se ocorre quando for exportar, é positivo, mas é uma especulação”, diz Serigati.

Para o professor, “uma coisa é produzir bastante, outra coisa é ter receita e lucro razoável. A safra não é garantia de volume de renda razoável. O que determina isso é taxa de câmbio e custos de produções”.

Fava Neves afirma que a safra recorde, mesmo que positiva, também deve trazer um desafio de transporte e armazenagem. “São 40 milhões de grãos a mais, mas já teve muita venda antecipada, preço bom e um crescimento de área grande”.

Somando os anos de 2020 e 2021, o agronegócio acumulou um crescimento de 6 milhões de novos hectares para produção, o que indica um “maior volume de investidores”.

O professor aposta em bons desempenhos de soja e milho em 2022, mas a recuperação para cana-de-açúcar e café não deve vir no próximo ano, já que a produção ruim em 2021 deve se recuperar apenas a partir de 2023.

Serigati afirma que a questão ambiental ainda é incerta para o setor. O ano de 2022 pode trazer tanto uma intensificação nas restrições de comércio pelo desmatamento quanto indicar que as restrições devem ser pontuais. Entretanto, o tema “é uma fonte de preocupação”.

Outro risco é um movimento que se intensificou com a pandemia. Em geral, a produção agrícola é vendia antes da colheita, mas a safra de 2022 deve ter uma fração menor de soja comprometida.

“As últimas duas safras, os produtores que esperaram mais para comercializar se deram bem. O início da pandemia foi bom para eles com o dólar subindo, e 2021 teve alta nas commodities”, afirma.

Com isso, a aposta se intensificou em 2022, mas é arriscada. Caso a demanda não corresponda a essa grande quantidade disponibilizada de uma vez, a baixa capacidade de armazenamento deve fazer com que os produtores reduzam os preços para vender, o que pode ser bom para a inflação, mas afetará as margens dos produtores.

PIB

Serigati considera que o desempenho do PIB do agronegócio do terceiro trimestre foi mais uma exceção do que regra, gerado por fatores exógenos, e não problemas estruturais do setor.

“Provavelmente o agronegócio vai crescer no acumulado do ano. Pode não ser o projetado, mas é positivo. O cenário base de 2022 é esse também. É garantido? Não. Mas faz parte dos riscos”, diz.

Para Fava Neves, o 4º trimestre de 2021 ainda deve ter um resultado aquém do normal pelos efeitos climáticos nas safras, e pela época tradicionalmente mais fraca para o setor. Entretanto, o agronegócio já deve apresentar forte crescimento no 1º trimestre de 2022.

“As condições para ter uma produção fantástica existem, ajudando na recuperação da economia do Brasil”, afirma.

Queda nos preços?

O professor da USP afirma que o descompasso entre demanda e oferta envolvendo carnes, cana-de-açúcar e café devem fazer com que os preços desses produtos no mercado interno não tenham quedas significativas em 2022.

Para o café, em específico, a expectativa é que o preço atinja a maior alta em 25 anos. Já no caso da carne bovina, o fim do embargo favorece o setor, mas a volta da demanda do país pode aumentar o preço no mercado interno.

Ao mesmo tempo, a oferta maior de soja e milho deve gerar uma leve queda, o que ajuda também em produtos cuja cadeia envolve o uso desses grãos.

Segundo Serigati, a inflação de alimentos foi alta em 2021, mas tem dado sinais de perda de fôlego. Ela deve terminar o ano em torno de 6%, e não teve uma alta tão grande quanto a de energia e combustíveis, os grandes vilões inflacionários, que também afetaram o agronegócio.

“A queda depende dos custos de produção. Não condiciona o alimento mais caro por si só, o que determina é a produtividade. Se for boa, o preço do produto vai continuar na tendência histórica. Mas, se o custo sobe e a produtividade cai, aí pode ter uma permanência da pressão sobre preços”, afirma.

Para o professor, a safra grande deve significar que, caso não ocorram choques exógenos intensos como questões climáticas e alta grande nos custos de produção, os preços devem ter um certo alívio no mercado interno em 2022.

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