Alta no preço das carnes faz hábito alimentar dos brasileiros mudar

Dados levantados pela CNN mostram aumento da procura por carnes bovinas menos nobres, além de aves, suínos e ovos

Iuri CorsiniLucas Janoneda CNN

no Rio de Janeiro

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O aumento do preço da carne bovina tem feito os consumidores brasileiros se adequarem à realidade financeira atual do país. No lugar das tradicionais carnes de primeira, muitos têm recorrido aos produtos considerados menos nobres: o frango, ovos, carne de porco e partes menos demandadas do boi, como acém, lagarto e músculo.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a procura por carnes dianteiras, consideradas de segunda, superou a demanda por partes mais nobres do boi, em agosto deste ano, nos açougues e hipermercados do país.

As carnes dianteiras foram procuradas por 34,6% dos brasileiros, enquanto as de primeira foram demandadas por 28,8% da população.

Já no acumulado deste ano, as carnes de segunda foram duas vezes mais consumidas do que as carnes de primeira pela população brasileira. Nos últimos 12 meses, dados da Abras mostram que a procura por frango congelado foi 38,1% maior do que as carnes bovinas.

O mesmo acontece com a demanda por ovos. Segundo o levantamento, o consumo do produto, de janeiro a agosto deste ano, foi quase 20% superior às proteínas provenientes do boi, sejam de peças nobres ou de segunda.

Proteínas mais consumidas pelos brasileiros em 2021:

  • Ovo – 19,1% da população
  • Frango – 14,6% da população
  • Carnes bovinas de segunda – 14,1% da população
  • Carnes nobres – 7% da população

No entanto, até as carnes consideradas menos nobres, como o acém, a paleta e a costela sofreram os impactos econômicos e também ficaram mais caras.

Um levantamento da Scot Consultoria, empresa especializada em negócios agropecuários, aponta que o valor do peito bovino, por exemplo, teve um aumento de 36,25% na comparação entre outubro deste ano e o mesmo mês do ano passado.

O preço do quilo desta parte do boi custa atualmente, em média, R$ 32,96, frente aos R$ 24,19 comercializados em outubro de 2020.

Para o consultor da Scot, Hyberville Neto, a alta dos preços das carnes de primeira tem feito com que os consumidores optem por migrar para carnes de segunda ou para carne de frango e/ou ovos. Ele afirma que uma negociação entre varejistas e frigoríficos tenta reduzir o preço das carnes de segunda para os consumidores.

Para Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe, os custos de produção subiram muito e são resultado de diversos fatores. “Questões climáticas, seca, crise energética que afeta o preço da carne de frango que substitui a carne bovina, câmbio desvalorizado. Além disso, o gás de cozinha subiu muito. É um cenário desesperador”, diz ele.

O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) André Braz cita ainda outro fator que pressiona os valores das proteínas no Brasil: a alta na inflação.

Com base em dados do IPCA-15, divulgado nesta terça-feira (26), o economista afirma que o preço da carne bovina subiu 22% nos últimos 12 meses. Ele destaca ainda que o ovo e a carne de porco também sofreram aumento de 17,9% e 8,1%, respectivamente.

“Esse efeito da substituição é normal e perceptível. Sempre que vemos uma alta no preço de um produto, temos as pessoas procurando produtos parecidos e mais baratos para substituir, mesmo eles também tendo alta no preço”, disse.

“No início, a carne começa a ser substituída por carnes de segunda. O valor aumenta ainda mais, as pessoas migram para o frango, suínos, ovo e por assim vai. Muitas famílias perderam acesso à carne, e estamos vendo agora pessoas pegando osso, gordura, o que conseguem pagar. Acho que o cenário deve melhorar apenas no terceiro trimestre do ano que vem”, completou.

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