Após ano de recorde de IPOs, janeiro já tem 15 desistências; entenda o cenário

Especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business remetem esse movimento à escalada dos juros num ambiente de inflação pressionada

João Beck, economista e sócio da BRA, acredita que por ora, todos os IPOs e follow-ons serão cancelados
João Beck, economista e sócio da BRA, acredita que por ora, todos os IPOs e follow-ons serão cancelados FILEDIMAGE

Artur Nicocelido CNN Brasil Business

São Paulo

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Após um ano de recordes no mercado brasileiro de IPOs (sigla em inglês para oferta pública de ações), 2022 já começa com sinais de que o cenário será diferente. Em janeiro, ao menos 15 empresas desistiram de suas ofertas inciais ou subsequentes (follow-ons).

Especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business remetem esse movimento à escalada dos juros num ambiente de inflação pressionada, o que significa um importante freio na atividade econômica, além de deixar a renda fixa mais atraente para investidores que fogem do risco.

“O mercado está passando por um momento de elevação na taxa de juros. Dessa forma, os investidores estão preferindo fazer as alocações em renda fixa, ao invés de viver a oscilação do mercado de capitais”, diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

A Selic, taxa básica da economia, chegou aos dois dígitos pela primeira vez após cinco anos nesta quarta-feira. A ofensiva do Banco Central vem à medida que a inflação oficial já ultrapassa os 10% ao ano, muito acima do teto da meta, de 5% para 2022.

As empresas Monte Rodovias, Ammo Varejo, Dori Alimentos e Environmental ESG foram as quatro primeiras a interromper o processo de listagem na B3, no início de janeiro, com a percepção de que o mercado se fechou para novas ofertas.

“Empresários buscam preços altos e atrativos para poderem listar suas ações”, diz João Beck, economista e sócio da BRA. “Movimento que não aconteceu no primeiro mês do ano”.

A Vero Internet foi outra a anunciar sua desistência logo depois. Em prospecto, a provedora de rede remeteu sua decisão “às alterações das condições atuais do mercado de capitais brasileiro”.

O processo para a listagem das ofertas costuma ser demorado, explica Beck, ou seja, “quando as companhias optam por entrar na bolsa, pode ser que passem meses até realmente bater o martelo na B3. E, nesse meio tempo, o mercado pode não ficar tão atraente quanto o esperado”.

Por ora, os especialistas argumentam que as empresas estão preferindo captar recursos por meio de outros atrativos: CRI (certificado de recebíveis imobiliários), CRA (certificado de recebíveis do agronegócio) e debêntures.

“Essas oportunidades, em meio ao atual cenário econômico brasileiro, acabam sendo mais atrativas aos investidores, do que o mercado de ações”, afirma Madruga, da Monte Bravo.

A Vero Internet, por exemplo, anunciou a primeira emissão de debêntures simples, não conversíveis em ações, no valor de R$ 350 milhões, em 30 de novembro de 2021.

Veja abaixo a lista das companhias que desistiram da listagem em janeiro:

O que esperar do resto do ano

Em entrevista ao CNN Brasil Business, Vitor Saraiva, responsável pela área de mercado de capitais da XP, prevê que as ofertas em 2022 fiquem em torno de 60% a 70% em relação a 2021, quando mais de 40 companhias anunciaram IPO. Esse número sobe para 71, se contabilizados os follow-ons.

Até o momento, existem 18 companhias aguardando a aprovação das ofertas primárias na CVM, enquanto 13 aguardam o aval da oferta secundária. A expectativa para essas, porém, não é das mais positivas.

“Por ora, todos os IPOs e follow-ons devem ser cancelados, com exceção daqueles ligados ao setor agrícola e ao mercado externo, por conta dos juros”, diz o sócio da BRA.

Setores ligados às commodities, inclusive, junto a instituições financeiras, têm impulsionado a bolsa de valores neste ano, fazendo com que o Ibovespa ultrapassasse os 113 mil pontos na última terça-feira (1º).

Contudo, o economista e sócio da BRA afirma que “esse movimento só ocorreu por conta dos setores ligados à commodities e marginalmente os bancos”.

Para ele, as altas são motivadas apenas pelo crescimento global das matérias-primas e pela alta de juros local que melhoram as margem de instituições financeiras.

Uma melhora do cenário para as ofertas pode vir com um arrefecimento da inflação, segundo Madruga, da Monte Bravo. “Não tem muito mais espaço para elevar a taxa de juros, porque senão vai travar a economia brasileira. A tendência é reduzir e dar uma luz à renda variável, diz”.

A expectativa do especialista é que a Selic volte a cair e chegue a 8% no final do ano, em linha com que também espera a grande parte dos analistas de mercado, como mostra o Boletim Focus do Banco Central de segunda-feira (31).

Caso esse cenário se  concretize, a expectativa geral é que o mercado de ofertas públicas seja retomado ainda no segundo semestre.

*Com informações de Sofia Kercher, do CNN Brasil Business

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