Argentina tenta evitar calote em meio à fuga de investimentos estrangeiros

Vencimento de US$ 5 bilhões em títulos é teste para economia argentina; governo Alberto Fernandéz vive queda de braços com bancos, que buscam aumentar juros para ganharem com rolagem de dívida

Notas de peso argentino
Notas de peso argentino Agustin Marcarian/Ilustração/Reuters

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Em meio a uma série de problemas econômicos estruturais, a crise na Argentina pode ganhar um novo capítulo ainda neste mês.

O governo do país tentar renovar títulos de dívida que vencem em junho para evitar um calote no mercado doméstico.

O cenário, no entanto, não é o mais favorável, em meio a um ambiente financeiro externo altamente volátil e a uma fuga de investidores em busca de mercados menos arriscados.

O resultado já começou a aparecer. Na segunda-feira (13), o dólar oficial atingiu a maior variação diária em dois meses em relação ao peso argentino, e bateu um novo recorde, superando os 122 pesos argentinos.

Os investidores estão de olho também no risco de calote e nos próximos passos na relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI), um relevante credor cujo acordo com a Argentina e sua possível revisão pode dar um respiro ao complexo cenário do país, que enfrenta níveis elevados de inflação e desemprego.

Dívidas de US$ 5 bi vencem: risco de calote

Juan Frers Allan, professor da Universidade de Buenos Aires, afirma que a Argentina enfrenta uma combinação de fatores externos e internos negativos para o país.

“Internacionalmente tem a questão da guerra na Ucrânia, problemas na Europa. Especificamente na Argentina, o dólar tem subido muito, e há pelo menos 10 anos consecutivamente. O povo argentino não acredita na própria moeda, e isso ocorre porque todo mundo usa o dólar para proteger o dinheiro e investir”, diz.

Conforme os investidores estrangeiros deixam o país em busca da segurança de mercados mais estáveis — como os Estados Unidos e o ciclo de alta de juros pelo Federal Reserve —, a Argentina luta contra o alto risco país devido à chance de governo do presidente Alberto Fernández não conseguir pagar suas dívidas.

Para Allan, o cenário passou a afetar a demanda por títulos argentinos, cujos valores estão em queda, o que aumenta as chances de levar a uma situação de calote pela falta de capital.

Leonardo Trevisan, professor da ESPM, avalia que é indiscutível que fatores externos pesam para a saída de capital, em especial com a piora nas expectativas do mercado para a economia global.

Mas, segundo o especialista, o caso da Argentina se somam outras causas.

“A Argentina vive de crônicas de crises anunciadas. No fim do mês, vence uma rotativa de empréstimos em pesos de aproximadamente 600 bilhões de pesos, que significa na prática US$ 5 bilhões, e é um grande teste se efetivamente a crise argentina chegou ao mercado de títulos internos”.

Ele afirma que o governo argentino vive uma queda de braços com os bancos do país, que buscam um aumento significativo de juros para ganharem mais com a rolagem de dívida, o que fica ainda mais difícil devido à “extrema fragilidade” do governo com o mercado externo.

Já Alberto Ramos, diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs, atribui o cenário a uma combinação de fatores, com um choque no mercado que levou à valorização do dólar devido ao ciclo de alta de juros pelo Federal Reserve e a potencialização desses efeitos pelas “vulnerabilidades da Argentina”, que possui um ambiente macroeconômico vulnerável.

Um possível calote na dívida interna não seria novidade, e ocorreu recentemente, no governo do ex-presidente Mauricio Macri, mas é um indicativo, segundo especialistas ouvidos pela CNN, que pouco mudou com o atual presidente, Alberto Fernandéz, apesar de serem governos ideologicamente distintos.

“A chance de um calote leva à fuga do país, buscando segurança. É tradicional na Argentina essa fuga, com uma falta de dólares. O agronegócio argentino, o grande exportador, estoca dólar fora do país, esse é o ponto, porque tira a margem de manobra do governo para obrigar a devolução da moeda no mercado”, explica Trevisan.

Fernando Ferrari Filho, professor da UFRGS, considera que o problema do país é crônico, independente do viés do governo, e está ligado a um quadro de “desindustrialização crônica, dependência de commodities, em especial trigo, e é uma questão endógena, a própria dinâmica da economia leva a isso”.

O professor cita um quadro de recessão, inflação acima de 40% no acumulado de 12 meses e níveis crescentes de desemprego, que se somam ao cenário global negativo.

“O governo teria uma renegociação de dívidas, que deveria honrar em 2021 e 2022, mas não consegue honrar, as reservas estão baixas, em torno de US$ 30 bilhões, US$ 40 bilhões, a dívida de curto prazo supera as reservas”, afirma.

O esforço do país, de reestruturar a composição da dívida atraindo investidores internacionais, acabou falhando devido ao timing ruim.

“Como vai aportar recursos se tem recessão, inflação, pobreza crescendo, se não existe perspectiva para reverter esse contexto? Se não consegue, cria um ciclo vicioso”, aponta.

Mesmo assim, Ramos afirma ser prematuro projetar um calote na dívida doméstica neste mês, apesar de apontar um quadro “insustentável”. “A nível local muita dívida é indexada pela inflação, e ela explodiu, deve chegar a 70%. Com isso, o endividamento cresce como uma bola de neve e vira um problema de manejo, é uma tendência preocupante e claramente insustentável, pode não cumprir com obrigações domésticas. Isso agrava a dinâmica de dívida, e, se continuar, pode ocorrer um calote”.

Parte do medo do mercado, segundo o ex-diretor do Banco Mundial Otaviano Canuto, acaba gerando uma “retroalimentação”. “A situação de reservas livres é muito apertada, então todo mundo morre de medo, e às vezes são retroalimentadores, porque se o governo precisar enviar dinheiro para fora, não tem. Quando tem medo, a tentação de fugir desse risco é grande”.

Acordo com o FMI

Trevisan ressalta que o ministro da Economia argentina, Martín Guzmán, negou que o país vai dar um calote da dívida.

No domingo (12), o ministro afirmou no Twitter que “quanto à barbárie da inadimplência da dívida em pesos: nosso governo jamais faria isso. O crédito na própria moeda é um pilar do Estado soberano”.

Para o ministro, a chance de o calote ocorrer ou não dependerá muito mais da atuação do FMI do que de qualquer medida do governo.

Filho, da UFRGS, avalia que a moratória pode ocorrer, mas que o FMI tem indicado uma mudança de compreensão nos últimos anos, revendo posições mais ortodoxas e facilitando uma renegociação de dívida, já que anteriormente a organização e o governo chegaram a um acordo reestruturação em vigor atualmente.

Na quinta-feira (9), o FMI anunciou que revisou as metas trimestrais que a Argentina precisaria cumprir dentro desse acordo, e que envolve uma redução na inflação, corte de subsídios e aumento das reservas do banco central.

“A saída de capital é mais por fatores externos. Se o FMI realmente se sensibilizar com a situação, efetivamente ocorrer uma renegociação, não é motivo para capital fugir, pelo contrário, é aval indicando reestruturação da dívida”, avalia.

Já Allan acredita que um possível acordo é dificultado pelo quadro econômico atual da Argentina, e que “as políticas atuais do governo não estão sendo assertivas. A inflação continua subindo, os gastos descontrolados, a situação não deve ser boa no futuro próximo”.

Canuto avalia que “por enquanto o FMI aprovou o relatório de implementação do programa de renegociação, então não há nenhum motivo ainda para suspeitar que possa ocorrer um calote com o fundo, que seria uma situação extrema, já que não permitiria liberar recursos para o governo”.

Ele acredita que o governo argentino não terá outra alternativa a não ser aumentar as taxas de juros e tornar os títulos mais atrativos, e ressalta sinalizações do governo de aumento de impostos para incrementar as fontes de receita.

“O espaço de manobra é pequeno, a única esperança é que a Argentina consiga fazer um ajuste macroeconômico gradual, mesmo que seja impopular, e políticas monetárias mais restritivas que a atual, não tem alternativa”, diz.

Para Trevisan, “o dólar ainda vai subir mais, com certeza. O FMI também sabe disso. A economia é semi-dolarizada, e a inflação acompanha muito, portanto o quadro inflacionário vai piorar, em especial se tiver calote”.

Ramos, do Goldman Sachs, avalia que “não há nenhuma sinalização que as autoridades estejam dispostas a abraçar a política de ajuste macroeconômico, o programa com o FMI é suave, falta implementar o que é necessário ara controlar o déficit, essa hemorragia de reservas. As autoridades ainda estão muito comprometidas, e os resultados estão aparecendo”.

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