Batalha contra inflação está “longe de estar ganha”, diz diretor do BC

Bruno Serra demonstrou preocupação com a alta de preços estar se propagando para itens com maior inércia, como os serviços

Diretor do Banco Central afirmou que autarquia só influenciará na inflação de 2022 até a reunião de março
Diretor do Banco Central afirmou que autarquia só influenciará na inflação de 2022 até a reunião de março Adriano Machado/Reuters

Bernardo Caramda Reuters

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O diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, afirmou nesta quarta-feira (9) que, embora a atuação da autarquia para debelar a inflação seja bastante incisiva, “a batalha está longe de estar ganha”, demonstrando preocupação com o fato da alta de preços estar se propagando para itens com maior inércia, como os serviços.

Em evento, Serra afirmou que o Banco Central agora está atuando na política monetária com foco principalmente em 2023, com grau menor em 2022.

Segundo ele, depois da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março, a inflação deste ano não estará mais sob controle da autoridade monetária.

“A reação [do BC] tem sido bastante incisiva, um ciclo de ajuste forte e rápido, a batalha está longe de estar ganha, ainda estamos com inflação de dois dígitos, ainda tem bastante trabalho pela frente”, disse.

No evento, o diretor afirmou que as decisões de política monetária surtem efeito na atividade econômica após seis meses, gerando reflexo na inflação depois disso. Ele explicou que, por essa razão, a autoridade monetária agora passou a focar mais na inflação do ano que vem.

“A gente tem até a reunião de março, que teria algum efeito para 2022. Depois da reunião de março, não tem mais o que o Banco Central possa fazer, 2022 não está mais no controle dele e a gente passa a olhar inteiramente com foco em 2023”, disse.

Na semana passada, o BC informou que projeta uma inflação em torno de 5,4% em 2022 e de 3,2% em 2023 em seu cenário de referência, que considera a trajetória para os juros estimada pelo mercado.

Serra ressaltou, no entanto, que, considerando o balanço de riscos, a autarquia vê a inflação de 2023 acima da meta de 3,25%. “Por isso que a gente diz que o cenário de referência hoje não nos parece condizente com trazer a inflação para o centro da meta”, disse Serra, ressaltando que “parece que a gente precisa fazer algo mais”.

Ele afirmou que o país já está com juros em patamar acima do considerado neutro e o Banco Central vai colocar a Selic “ainda mais acima do que isso”, mesmo que reduza a magnitude do aperto.

“Ainda que a gente queira ser mais duro, não necessariamente precisamos manter ‘pace’ de 150 pontos básicos na próxima reunião”, disse, enfatizando que o Copom ainda tem alguns ajustes a serem feitos pela frente.

Preocupação

Ao ressaltar a preocupação com o fato de a inflação estar mais espalhada, contaminando setores como o de serviços, Serra afirmou que o movimento “não é algo bom para o nosso objetivo de trazer a inflação para as metas e ancorar as expectativas”.

“Na hora que o choque começa a contaminar a abertura de inflação que tem mais inércia, a gente começa a ficar mais preocupado, e isso tem acontecido nos últimos meses”, disse.

O diretor ressaltou, no entanto, que a preocupação não vai contra a ideia de redução do ritmo de aperto.

Na última semana, o Banco Central elevou a taxa básica de juros a 10,75% ao ano, indicando redução no ritmo de aperto nas próximas reuniões, o que foi visto pelo mercado como um sinal de moderação no aperto.

Na terça-feira (8), porém, com a divulgação da ata da reunião, analistas viram tom mais agressivo.

No documento, o Copom detalhou que o ciclo de aperto monetário deve ser mais contracionista do que o usado em seu cenário de referência, o qual prevê Selic de 12% no primeiro semestre deste ano, de 11,75% ao final de 2022 e de 8% em 2023.

Sem ser específico, o diretor afirmou que “por culpa nossa” o câmbio no Brasil depreciou mais do que outros países no ano passado, o que fez a inflação de preços externos ser maior.

Serra ressaltou que a inflação nos países desenvolvidos se tornou mais resiliente, indicando que as condições financeiras precisarão ser apertadas, principalmente nos Estados Unidos.

Para ele, no entanto, é preferível lidar com um enxugamento de liquidez provocado pela decisão do Banco Central americano do que o cenário do ano passado, que era muito estimulativo com juros baixos.

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