Brasil caminha para cenário de estagflação, alertam economistas; entenda

Cenário mistura inflação alta e difícil de ser domada com estagnação econômica

Cenário de estagflação combina inflação alta com baixo crescimento
Cenário de estagflação combina inflação alta com baixo crescimento freepik

Ligia Tuondo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Os preços sobem e a vida não melhora. Essa combinação de percepções atingiu com mais força a vida do brasileiro nos últimos meses e pode ficar pior.

Isso porque falta pouco para o país reviver um quadro de estagflação, alertam especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business. Esse cenário se configura quando dois monstros da economia se juntam: inflação alta com baixo crescimento.

Pressionado sobretudo pelos combustíveis e pela energia elétrica, o IPCA, índice oficial de preços, já encostou nos dois dígitos em 12 meses, muito acima do teto da meta para o ano. Enquanto isso, a previsões para o avanço do PIB (Produto Interno Bruto) no terceiro trimestre já ficam perto de zero, depois de uma leve queda na atividade de 0,1% de abril a junho.

“Isso é preocupante. Se tivermos outro trimestre com PIB negativo, já entramos em uma estagflação técnica, já que a inflação está bastante alta. E tudo indica que nosso crescimento no terceiro período do ano vai ser muito baixo”, diz Matheus Peçanha, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre).

O desempenho da atividade dos próximos trimestres pode ser só uma mostra de um cenário mais consolidado de estagflação que está sendo desenhado para 2022, já que, para este ano, a expectativa é que a economia brasileira cresça em torno de 4% devido à baixa base de comparação. No ano passado, a queda superou 4%, devido à pandemia.

As menores previsões reunidas pelo Boletim Focus, do Banco Central, apontam para uma alta de 0,5% no PIB de 2022, com IPCA chegando a 5,34%. Ou seja, atividade estagnada com inflação acima do teto da meta que, para o ano que vem é de 5%.

Um cenário como esse penaliza sobretudo os trabalhadores mais pobres, já que o desemprego sobe em meio a uma alta acentuada no custo de vida.

A expressão estagflação foi disseminada em meio à crise do petróleo, que atingiu as principais economias nos anos 1970. Naquele cenário, a commodity passava por uma acentuada valorização, pressionando os preços da economia e piorando o quadro de desemprego, sobretudo nos Estados Unidos.

O último processo claro de estagflação que o Brasil viveu foi nos anos de 2015 e 2016. No primeiro, a economia retraiu 3,5% com um IPCA maior que 10%. No segundo, a retração foi de 3,3%, com inflação de 6,29%. Desde então, a atividade veio se recuperando de forma tímida e com dificuldade, até levar o baque da pandemia.

Hoje, apesar de a atividade estar patinando em meio à alta dos preços, o país ainda não pode ser enquadrado num cenário de estagflação, na opinião de Alexandre Espirito Santo, economista chefe da Órama e professor do Ibmec do Rio de Janeiro. No entanto, o quadro pode mudar em breve, caso a situação fiscal se agrave.

“Nossa principal âncora fiscal, o teto dos gastos, está em xeque. Não conseguimos andar com as reformas estruturantes e ainda surgem problemas de tempos em tempos, como a questão dos precatórios. Tudo isso torna o Estado cada vez mais difícil de ser administrado”, diz.

Anos de baixo crescimento

O Brasil está longe de ter uma economia aquecida já há algum tempo, o que leva Sergio Vale, economista chefe da MB Associados, a acreditar que o país já vive num processo de estagflação, considerando um período mais longo.

“É um pouco do que estamos passando agora. Se considerarmos o intervalo de 2020 a 2022, são três anos de inflação pressionada com crescimento muito baixo”, diz.

O economista considera nos cálculos para essa conclusão um crescimento acumulado de 0,8% nesse período, considerando a previsão de 0,4% no PIB de 2022, ante uma inflação acumulada de 18,2%, que considera a expectativa de IPCA em 4,7% no ano que vem.

Se formos mais longe e considerarmos a última década, o cenário se torna ainda mais gritante: de 2011 a 2020, o IPCA acumulou alta de 74% com crescimento médio em torno de 0,3% ao ano, calcula Espirito Santo.

“Esse cenário foi agravado pela recessão de 2015 e 2016 e pela pandemia”, diz.

Como chegamos aqui

Atualmente situação se complica, porque a ação do Banco Central sobre a inflação é limitada, já que não é a demanda aquecida que pressiona os preços.

A inflação é agravada pela crise hídrica — que aumenta muito o custo da geração de energia –, e pela alta no preço das commodities — resultado de cadeias produtivas desestruturadas e queda de oferta –, que acaba deixando o custo dos produtores mais alto e, consequentemente, afeta o valor do produto final.

“O BC, como tem meta de inflação, precisa elevar a taxa de juro. Mas, sem ajuste fiscal, a taxa de juro estrutural aumenta, o que implica em mais alta de juro. Em outras palavras ficamos num círculo vicioso, o que dificulta a retomada do crescimento sustentável”, diz.

Se de um lado a Selic mais alta reduz a quantidade de dinheiro na economia para puxar os preços para baixo, de outro, freia o ritmo da atividade, já prejudicado pelos impactos da pandemia.

A Selic mais alta foi um dos motivos do Itaú para revisar recentemente sua projeção para o PIB do ano que vem de 1,5% a 0,5%. O banco também revisou sua expectativa para o câmbio que, neste ano, deve chegar a R$ 5,00.

Tradicionalmente, o câmbio tende a valorizar com os juros mais altos — refletindo a melhora no retorno para investidores estrangeiros e a consequente entrada de dólares no país –, mas a moeda tem sofrido efeito inverso pela instabilidade política e econômica.

E a taxa cambial afeta diretamente os preços de toda a economia.

A deterioração do cenário fiscal é resultado de propostas de reformas desidratadas e com a tramitação atrasada. Nesse pacote, entra uma crise institucional alimentada pela tensão entre os Poderes.

“E a crise fiscal não será encaminhada antes de ser resolvida a crise institucional que vivemos”, diz Peçanha, da FGV.

A instabilidade macroeconômica afasta investimentos, e o mercado deixou de acreditar que as reformas estruturantes consideradas hoje pelo Legislativo e pelo Executivo solucionem esse cenário.

“A reforma tributária que deve avançar primeiro, que atinge o IR não é a que a gente precisa, que é a de bens e serviços. Tem coisas ali que no caminho correto, como tributação de lucro e dividendos, mas tem um caráter eleitoreiro muito claro, já que prevê queda de arrecadação no ano que vem, num momento que a gente não deveria ter isso”, diz Vale.

Já a reforma administrativa, que visa abrir mais espaço no Orçamento federal, foi desidratada e chega a ser insuficiente para trazer mudanças significativas no tamanho do Estado, completa. “O texto que chegou ao Congresso continua deixando o serviço público muito engessado”, diz.

Outro empecilho para o investimento estrangeiro, segundo Vale, é como o país vem lidando com a questão ambiental. “Esse é um desafio crescente e está sendo mal resolvido, já que o país se afasta das boas práticas de governança ambiental e social, que viraram esteio de investimento das grandes multinacionais”, diz.

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